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Imigrantes ilegais: a outra crise grega

Projeto de imigração da União Europeia parece quase tão falho quanto o euro

Imigrantes ilegais: a outra crise grega
Crise da imigração é ingrediente a mais na crise da dívida grega (Reprodução/Internet)

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A Grécia tem sido confrontada não só com dívidas incontroláveis, orçamentos de austeridade e condescendência alemã, mas também com os encargos de uma política de asilo e imigração da União Europeia que combina ideais inatingíveis com a negação profunda. Pelo menos oito em cada dez imigrantes ilegais da União Europeia entraram através da Grécia, muitas vezes, fazendo uma travessia perigosa pelo Rio Evros, na Turquia. Há mais de 100 mil afegãos, paquistaneses, bengaleses, somalis, sudaneses, nigerianos e outros imigrantes presos na Grécia, onde a economia encolheu por cinco anos consecutivos e onde a taxa de desemprego para os cidadãos está um pouco acima de 24%.

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Este fenômeno de imigração é o resultado de um projeto da União Europeia que agora parece quase tão falho quanto o euro. Ele é chamado de Dublin II, e foi acordado em meio ao otimismo fiscal, monetário e econômico de 2003. Ele sustenta que os requerentes de asilo para os países da UE só podem ser avaliados e julgados no país onde eles entram primeiro. O efeito dessa regra tem sido o de permitir que a Alemanha, França e outros países que são destinos atraentes para a imigração empurrem para a Grécia o encargo administrativo e de bem-estar desses imigrantes ilegais.

A crise financeira grega é reflexo da cumplicidade entre um Norte europeu faminto por lucros e devedores irresponsáveis do Sul. A crise da imigração é mais um dos ingredientes. O que a Alemanha ofereceu quanto a isso? Ela mandou uma polícia, chamada de “consultores de documentos”, que fazem a varredura em aeroportos e portos gregos “para manter uma vigia sobre suspeitos” que podem se dirigir para o Norte da Europa. Depois de tudo, inclusive de cogitar a saída da Grécia da zona do euro no início deste ano, os líderes europeus, particularmente a chanceler alemã Ângela Merkel, fecharam os olhos à questão.

A eleição grega em junho elegeu um governo em Atenas mais capaz de cumprir o compromisso de regras fiscais da Europa. Pelos números, o risco do colapso da Grécia e sua saída da zona do euro parecem agora muito reduzidos. Mas os números não podem explicar o caldeirão político e social que a austeridade e os poucos recursos para o Dublin II criaram, principalmente nas ruas de Atenas.

Em agosto, comandantes da polícia fizeram a maior varredura do país contra os imigrantes. Dezenas de policiais verificaram os documentos de pessoas negras e com aparência estrangeira. Os imigrantes ilegais foram colocados em ônibus e encaminhados para campos de detenção. Os campos são decentes e a prática é legal, mas o modo como são feitas as detenções parece coisa de cinema. De acordo com um porta-voz da polícia, a operação irá continuar por tempo indeterminado.

As tensões da Grécia estão se acumulando. A narrativa dominante da crise na União Europeia enfatiza as finanças e ignora as populações marginais, como os africanos e asiáticos sem documentação. Equaciona os problemas do Estado grego com o fracasso moral. É uma narrativa que pertence aos credores. Nas ruas de Atenas, nada disso parece fazer sentido.

 

Fontes:
The New Yorker - THE OTHER GREEK CRISIS

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