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CHOQUE ECONÔMICO

Índia sofre os efeitos de eliminar 86% do dinheiro do país

Economia do país enfrenta dificuldades com a escassez de notas bancárias em circulação. Primeiro-ministro acredita que o efeito negativo seja temporário

Índia sofre os efeitos de eliminar 86% do dinheiro do país
A retirada de circulação de notas de maior valor será como um imposto para os que possuem dinheiro ilícito (Foto: Pixabay)

Uma nova tendência da economia capitalista surgiu com a decisão, em 8 de novembro, de retirar de circulação a maior parte das notas de maior valor na Índia no final deste ano. Enquanto os indianos que tinham notas de 500 e de 1.000 rúpias (US$15), agora inúteis, precipitavam-se para depositá-las ou trocá-las por novas notas, um site de comércio eletrônico oferecia, a 90 rúpias por horas, pessoas para ficarem nas longas filas dos bancos, poupando, assim, os mais ricos do aborrecimento da espera.

A escassez crônica de notas bancárias em uma economia dominada pelo dinheiro em espécie provocou uma retração em muitos setores do comércio. Sete em dez kiranas (mercearias familiares) tiveram uma redução em suas vendas, segundo uma pesquisa realizada pela empresa de consultoria Nielsen. As cadeias de suprimentos, nas quais os atacadistas e as companhias de transporte fazem quase todos os negócios em dinheiro, tiveram prejuízo. O envio de produtos agrícolas aos mercados tiveram uma queda de cerca de 20 a 40% nos dias seguintes à adoção da medida.

Os moradores urbanos estão guardando as notas de 100 rúpias, o maior valor das antigas notas ainda em circulação. Os motoristas de táxi recusam-se a aceitar as novas notas de 2.000 rúpias. Os pedágios nas estradas ficaram suspensos até 24 de novembro para evitar filas. Os mendigos desapareceram de vários bairros de Nova Déli; ninguém tinha dinheiro para dar esmola.

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, acredita que esse problema temporário terá um retorno positivo. Seu objetivo é o combate ao dinheiro obtido em atividades ilegais e não tributado, que financia campanhas eleitorais e estimula a corrupção em alto nível. A retirada de circulação de notas de maior valor, dizem os defensores da desmonetização, terá o efeito de um imposto para os que possuem dinheiro ilícito. O elemento da surpresa que causou protestos e falta de liquidez no país foi fundamental para o sucesso do objetivo do governo, porque caso contrário as pessoas teriam tempo para fazer uma lavagem de dinheiro com a compra de joias, moedas estrangeiras ou imóveis. O prazo curto dificultou a troca ou o depósito de um grande volume de dinheiro ilícito, sem atrair a atenção das autoridades fiscais.

Essa rapidez tem um custo. Além de casos em que a hiperinflação desvalorizou a moeda, a desmonetização em geral ocorre durante longos períodos para evitar a interrupção do comércio. O crescimento do PIB pode ter uma redução de até 2% neste trimestre e no próximo, até que a situação se normalize e o estoque de dinheiro seja suprido, disse Pranjul Bhandari do banco HSBC. A normalização econômica do país depende muito da rapidez da troca do dinheiro novo pelo antigo. De qualquer modo, não tem sido um processo tranquilo.

O Reserve Bank of India (RBI), que emite as notas, esperou seis dias até reunir uma força-tarefa para garantir que os caixas eletrônicos pudessem distribuir as notas de 2.000 rúpias. Segundo o banco Goldman Sachs, só um quarto dos caixas eletrônicos em quatro grandes cidades tinham dinheiro em 21 de novembro.

No entanto, há sinais que a medida forçou os indianos a fazerem depósitos bancários e a usarem cartões de crédito, onde o dinheiro pode ser rastreado. Quinze dias depois do anúncio do governo, os depósitos bancários tiveram um aumento de 5,1 trilhões de rúpias, graças ao afluxo de antigas notas e restrições a retiradas de novas. PayTM, um serviço digital de transferência de dinheiro para contas bancárias, registrou um aumento nessas transações.

Apesar dos problemas causados pela reforma monetária e os protestos, a medida tem um amplo apoio da população. Atacar os ricos é um hábito popular na Índia, mesmo que seja prejudicial aos pobres. Alguns indianos acham que a reforma pode trazer novos benefícios do governo para a população de baixa renda e tornar as moradias mais acessíveis. Os imóveis são muito caros na Índia em parte, porque é uma forma de investimento de dinheiro ilícito.

Em teoria, com o combate ao dinheiro ilegal, à corrupção e à evasão fiscal, é possível que o governo aumente suas finanças e, por fim, beneficie os indianos mais pobres. Mas ainda é uma hipótese. O RBI não anunciou formalmente o cancelamento definitivo das antigas notas, disse Ashish Gupta do Credit Suisse, e pode relutar em cancelá-las. Nenhum banco central gosta de admitir que não tem mais o controle da moeda que emitiu.

Fontes:
The Economist-India grapples with the effects of withdrawing 86% of cash in circulation

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