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MANDATO EM XEQUE

May é submetida a nova moção de desconfiança

Após ver sua proposta para o Brexit sofrer uma derrota histórica no Parlamento, primeira-ministra britânica tem o mandato em xeque

May é submetida a nova moção de desconfiança
Proposta de May para o Brexit foi rejeitada por 432 votos a 202 no Parlamento (Foto: Flickr/EU2017EE)

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A primeira-ministra britânica Theresa May será submetida a uma moção de desconfiança nesta quarta-feira, 16 – a segunda em menos de dois meses – que pode retirá-la do comando do Reino Unido.

A moção foi proposta após May sofrer uma derrota histórica no Parlamento britânico, que na última terça-feira, 15, segundo informações da rede alemã Deutsche Welle, rejeitou por 432 votos a 202 o acordo proposto pela primeira-ministra para a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), o chamado Brexit.

A derrota de May por uma diferença de 230 votos foi a maior da história moderna britânica. Antes, o recorde era do primeiro-ministro Ramsay MacDonald (1866-1937), que em 1924 foi derrotado no Parlamento com uma diferença de 166 votos em sua proposta de encerrar um processo criminal contra o editor do jornal comunista Workers Weekly.

A proposta de May foi elaborada após meses de negociação com a UE. Seu ponto mais polêmico é referente ao tratamento dado à fronteira com Irlanda após o Brexit. Isso porque, após o Brexit – que está previsto para ser consolidado em 29 de março –, a fronteira, que antes compunha uma mesma unidade aduaneira, com livre circulação de produtos e pessoas, passará a ser uma fronteira entre Reino Unido e UE dentro da ilha britânica. Com isso, o regime regulatório hoje em vigor na fronteira seria alterado, passando a haver um rígido controle aduaneiro e de checagem de pessoas.

Para contornar essa situação, a proposta de May prevê o chamado “backstop”, um “escudo de segurança” que impediria a imposição de um rígido controle na fronteira até que um acordo comercial entre Reino Unido e UE fosse consolidado. Esse escudo também prevê uma espécie de união aduaneira temporária, que manteria a UE e o Reino Unido dentro de um mercado comum – algo rechaçado pelos defensores do Brexit.

Além disso, a proposta de May defende um “divórcio suave”, uma saída gradual do bloco, com um prazo de 21 meses após o Brexit para que seja concebido um acordo comercial entre o bloco e o país. A medida vai de encontro com parlamentares apoiadores do Brexit que defendem uma saída abrupta e sem condicionantes.

O voto dos parlamentares apoiadores do Brexit, contrariados com a proposta de May, se somou ao voto de parlamentares contrários ao Brexit, o que levou à derrota histórica da primeira-ministra.

Antes da votação, May fez um apelo aos parlamentares pela aprovação do acordo. “Esta é a votação mais importante de que muitos de nós participaremos em toda a nossa carreira política. E depois de todo esse tempo de debate, de acordos e de desacordos, chegou a hora de tomar uma decisão que definirá nosso país por muitos anos e que cada um, vote no que votar, deverá justificar durante muito tempo”, disse May.

O apelo, no entanto, foi em vão, e logo após o resultado da votação o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, da oposição, convocou a moção de desconfiança. Em dezembro, May foi submetida a uma moção de desconfiança, porém, proposta por sua própria legenda, o Partido Conservador. Na ocasião, ela sobreviveu à moção.

Além de ter de sobreviver à moção desta quarta-feira, May tem, agora, até a próxima segunda-feira, 21, para apresentar uma proposta alternativa para o Brexit. O mais provável é que ela torne a negociar com a UE em busca de novas concessões, algo que será difícil uma vez que o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, já alertou ao governo britânico que a UE está “totalmente preparada” para uma saída sem acordos.

Após a derrota de May no Parlamento, Juncker exortou o governo britânico a “esclarecer suas intenções o mais rápido possível” e disse que a rejeição à proposta eleva o risco de uma “saída desordenada”. Juncker ressaltou que a Comissão Europeia e o negociador-chefe da UE para o Brexit, Michel Barnier, “investiram muito tempo e esforços na negociação do acordo de saída” e afirmou que o bloco “demonstrou criatividade e flexibilidade”, oferecendo garantias e prazos adicionais.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, também se manifestou em relação à rejeição do acordo. “Se um acordo é impossível e ninguém quer uma solução sem acordo, quem então saberá apontar qual é a única solução viável?”, questionou Tusk em sua conta no Twitter.

Bom para a Rússia

Analistas apontam que uma pessoa em particular sai vencedora com o caos atual na política britânica: o presidente russo, Vladimir Putin. Há anos Putin vem se empenhando em erodir as democracias liberais do Ocidente, alimentando rusgas e intrigas. Saudoso dos tempos em que a Rússia era uma potência soviética, Putin fez das democracias liberais o alvo principal de sua gestão.

Segundo uma analise publicada na rede CNN, o embate no Parlamento britânico soa como “música para os ouvidos de Putin”, especialmente num momento em que os EUA se encontram às voltas com um impasse orçamentário, que levou o governo federal a paralisar um quarto de suas atividades. A paralisação, que já entrou em seu 26º dia, já é considerada a mais longa do governo e já ameaça o crescimento dos EUA para este ano.

Nos últimos cinco anos, Putin desafiou o Ocidente, anexando a Crimeia e retomando a influência sobre antigos países do bloco soviético. A Rússia também é acusada de ter interferido nas eleições americanas e no próprio Brexit, dois fatos que contribuíram para a crise atual no Ocidente. Nesse período, Putin teve um improvável aliado: o presidente americano Donald Trump, que se empenhou em afastar os EUA da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar que desperta temor na Rússia e contribuiu para anexação da Crimeia. Isso porque a aproximação da Ucrânia com a UE trouxe a Otan para perto da fronteira russa, acendendo o alerta em Putin e levando-o a decidir pela anexação.

Diante de tais fatos, o artigo da CNN conclui que “quanto mais profunda a disfunção transatlântica fica, melhor para Putin”.

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