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Em evento promovido pelo site Jornalistas da Web em associação com o British Council, na última segunda-feira no Rio de Janeiro, especialistas comentaram a relação entre o jornalismo online e o jornalismo tradicional.
O jornalista Asdrúbal Figueiró, da BBC Brasil, destaca quatro pontos – hesitando em usar a palavra “tendências” — que dizem respeito ao jornalismo online: a participação do usuário, a personalização, a questão da multimídia e a produção de conteúdo próprio.
Segundo Figueiró, no jornalismo online o consumidor não é passivo, e isso já é realidade. “A BBC investe muito na criação de canais para que o usuário produza jornalismo”, diz, lembrando que na cobertura dos maremotos na Indonésia e atentados em Londres a BBC usou material feito pelos seus usuários. Internautas escrevem, também, reportagens, que são publicadas no site da BBC. O leitor, dessa forma, se torna o editor do noticiário que ele mesmo consome. Em sites brasileiros, essa tendência pode ser observada na seção comumente batizada de “mais lidas”, que elenca as matérias preferidas dos leitores em um lugar de destaque em relação a outras informações disponibilizadas.
É preciso, no entanto, ficar atento a esse conteúdo gerado pelos usuários, conforme lembra o autor do livro Webwriting – Redação & Informação para a web, Bruno Rodrigues. Ele considera importante que os internautas insiram conteúdo nas mídias que acessam, mas acredita que parte desse material não tem a qualidade necessária. Por outro lado, um conteúdo que pareça ruim para quem é provedor de informação, para jornalistas, pode ser de interesse dos internautas – e é importante que se observe esse outro aspecto.
A personalização citada por Figueiró seria a atuação dos usuários como editores, decidindo o que vão ler. A ferramenta RSS Feed, já largamente utilizada, é uma das que permitem essa escolha por parte dos internautas. Ele destaca ainda a importância, para quem produz jornalismo, da transformação do celular num verdadeiro computador pessoal. “As pessoas conseguem ler mais nos livros que nas telas de computador, e mais no computador que nos celulares”, explica, complementando que as notícias para celulares seriam as “breaking news”, ou seja, as mais “quentes” – no jargão jornalístico, usado para um fato que acabou de acontecer –- e informações rápidas e curtas, como indicadores econômicos, por exemplo. Na visão de Rodrigues, ainda há muito o que experimentar e explorar quanto à esse jornalismo na telas de celular. “O raciocínio da notícia para celular ainda não saiu do básico, o marketing está lá na frente em relação ao conteúdo jornalístico para celular”. E não é só nos celulares que a internet promete estar cada vez mais presente. Figueiró aponta a tendência multimídia desse veículo, que pode estar num carro, por exemplo, ajudando o motorista a se informar sobre o trânsito.
O que acontecia em relação ao conteúdo do jornalismo online, até pouco tempo, era que os jornalistas apenas puxavam links de agências e provedores de notícias. A produção de conteúdo próprio vem aumentando – segundo Figueiró, até mais no Brasil que em outros países. “Sites e portais estão investindo cada vez mais em jornalismo original, em conteúdo próprio”, analisa o editor. Na contramão da tendência a uma maior produção de reportagens, Cássio Politi, ombudsman do site Comunique-se, acredita que os repórteres das redações de veículos online são “acomodados” em relação aos que praticam o jornalismo tradicional. “O repórter de internet telefona, troca e-mails e com isso não conquista fontes, não encontra notícias boas”, analisa, explicando que a prática de ir para as ruas atrás de notícias está se perdendo.
Jornalistas acomodados X leitores corajosos
Politi aponta algumas questões interessantes em relação ao comportamento dos leitores nos espaços dedicados a receber seus comentários nos sites. O Comunique-se dá esse espaço a seus usuários exigindo que se identifiquem –- até o CPF é conferido no cadastro da Receita Federal -– e, no mês passado, apenas 1% dos que acessaram o site escreveu uma opinião. A razão disso seria a falta de disposição da grande maioria para se expor, submeter-se a questionamentos, sofrer eventuais críticas num fórum aberto a todos os leitores.
No entanto, quando um leitor deixa um comentário, ele às vezes está sendo mais corajoso até do que um jornalista que trabalha com internet. Mesmo cometendo erros de português ou sendo agressivo com as palavras, por exemplo,alguns internautas escrevem comentários imensos e expõem o que pensam. Ao publicar um texto, portanto, é preciso estar atento ao fato de que os leitores têm o direito e o espaço para comentar o que leram. Ainda segundo Politi, o jornalista de veículos online precisa resgatar a capacidade jornalística de fazer denúncias com responsabilidade, ir atrás da verdade acreditando que pode descobri-la. Ele explica que, em meio aos vícios e desvios do jornalismo online, os blogs dos jornalistas tradicionais se sobressaem. Essas páginas na web são capazes de unir uma nova tecnologia à maneira antiga de fazer jornalismo.
No caso do aparecimento de conteúdo ofensivos nas discussões online, Politi diz que o moderador precisa colocar ordem. Esses debates correm o risco de ficar sérios ao ponto de levar os participantes a brigar na Justiça — como ele já viu acontecer no Comunique-se. Na BBC, como lembra o editor da sua seção brasileira Asdrúbal Figueiró, todos os fóruns são moderados ou pelo menos pré-moderados. Os comentários precisam seguir regras para serem publicados. O problema da moderação, conforme ele lembra, é que a entrada de comentários acaba demorando para acontecer. É preciso também ter uma equipe grande o suficiente para fazer essa análise.
Nem só de hard news vive a internet
Politi acredita que a reportagem é o que mais pode chamar leitores na internet. Segundo ele, na rede não há espaço apenas para as “hard news” — as notícias quentes. Matérias mais longas, especiais, bem elaboradas e com muitas entrevistas também chamam a atenção e são apreciadas pelo público. Elas podem vir acompanhadas de infográficos. Outro serviço que um site de notícias é capaz de oferecer é ser um arquivo, onde as pessoas coletam informação sobre temas variados.
Figueiró acredita que na internet seja mais difícil vender conteúdo que não seja factual, mas admite que há também espaço para notícias frias. Para o sucesso das reportagens online, ele afirma serem fundamentais a criatividade, as idéias para assuntos a serem abordados e bons títulos. Ferramentas como o RSS Feed, por exemplo, enviam títulos para seus usuários, o que os torna ainda mais importantes.
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