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Mudanças e Permanências

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Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) pertence ao seleto grupo de gênios da literatura universal de todos os tempos; foi romancista, dramaturgo, poeta e… cronista de sua época. As 475 crônicas publicadas na Gazeta de Notícias de 1881 a 1904 trataram de vários temas. Um economista, por vício profissional comum a outras atividades, pode enxergar os assuntos econômicos no dia-a-dia da vida carioca e brasileira de então a partir destes escritos.

Com este olhar, o professor Gustavo Franco pinçou 39 crônicas que têm este conteúdo econômico mais claro e reuniu-as, com seus comentários, em "A Economia em Machado de Assis", que acaba de ser publicado pela Editora Zahar, no Rio de Janeiro. No ano passado, Franco havia percorrido os mesmos caminhos através da visão econômica nos escritos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935).

Machado, ao contrário de Pessoa, que surpreende por ter elaborado verdadeiros ensaios ainda atuais na área econômica, embora não fosse entendido no assunto, vai comentando, com seu viés crítico, os movimentos dos acionistas do Banco do Brasil nas assembléias, do câmbio, das debêntures, dos empréstimos dos banqueiros Rothschilds ao Império, da indenização pela abolição da escravatura e da economia popular, já que ele mesmo foi detentor de títulos da dívida pública e acionista do próprio jornal onde escrevia. Há uma interpretação de que o escritor, embora dispusesse de economias próprias, jamais tenha adquirido a legendária casa onde morava, no Cosme Velho, pois temia que outros, vendo-o próspero, pudessem suspeitar de sua honestidade.

É indispensável situar os comentários de Machado de Assis na sua cronologia, com o objetivo de perceber a ordem de ocorrência de fatos tão marcantes na história do país, em paralelo com as matérias sobre as quais discorre. Machado nasce somente 18 anos depois da Independência e vive, até os 49-50 anos, em plena época escravagista e na monarquia, enquanto tem um olhar externo significativo para a importância da Inglaterra e da libra esterlina nos assuntos nacionais.

Uma das anotações mais marcantes que Gustavo Franco faz sobre as crônicas é sobre o caráter dos acionistas (os rentistas de então) que não se ocupavam em saber da boa ou má gestão das empresas, revelando um interesse quase que exclusivamente no recebimento dos dividendos. "É verdade que o acionista é indolente: importa-se mais com os dividendos do que os divisores" (como eram chamados os diretores das empresas) em sua crônica de outubro de 1883.

Em fevereiro de 1888, publica um "poema econômico", onde não fica claro se revela seu pensamento ou critica os costumes da sua época:

"Porquanto, digo, em havendo
Nas unhas dos pagadores
Um bonito dividendo,
Que nos importam os divisores.

Tenham estes cara longa,
Cabelo amarelo ou preto,
Nasceram em Covadonga,
Em Tanger, em Orvieto;

Usem de barbas postiças,
Ou naturais, ou nenhumas;
Creiam em sermões, em missas,
Ou na sibila de Cumas;

Para mim é tudo mestre,
Contanto que haja, certinho,
No fim de cada semestre
O meu dividendozinho."

Passados praticamente 100 anos do falecimento de Machado, o Brasil vive uma febre nas bolsas de valores, impulsionada pelas ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês). Não há dúvida que o momento da bolsa, em que ocorre grande oferta de ações de empresas que fazem sua estréia no mercado, é mais saudável do que a simples especulação com troca de mãos de ações, o que vivenciamos por longo tempo e que tem um efeito quase nulo de promover o desenvolvimento. Apesar do conteúdo sólido das iniciativas dos IPO's, observam-se, entretanto, as corridas ansiosas pelas reservas de novos lançamentos, para que se façam day-trades lucrativos, importando menos o destino dos investimentos das empresas e sua gerência.

As modernas práticas de governança corporativa diferenciam muito 2007 do Brasil do início do século passado, mas fica a dúvida se o homem, como agente econômico, terá mudado tanto em sua ênfase no ganho fácil e rápido. Machado de Assis, muito mais analista do comportamento humano do que economista, o que diria hoje?

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  1. Lasmar Newfreund disse:

    O que diria Machado com a notícia de que no lançamento da BMF houve mais de 250 mil reservas, muitas das quais foram vendidas na abertura do mercado?