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Dia Internacional da Mulher

A difícil arte do equilíbrio

Quando Barack Obama, em um de seus primeiros atos como presidente eleito dos Estados Unidos, assinou uma lei que equipara os salários de homens e mulheres, Solange Sanches pensou: “Isso pode ser um bom começo para acabar com a desigualdade.”

Solange é coordenadora da área de Igualdade de Gênero e Raça do escritório da Organização Internacional do Trabalho — OIT no Brasil –, e conhece como poucos os problemas que as mulheres ainda têm de enfrentar no mercado de trabalho.

Apesar dos diversos avanços pelos quais a sociedade vem passando nessa área, ainda há muito a ser feito. As mulheres brasileiras ainda ganham 70% do salário dos homens, segundo uma pesquisa do IBGE. E essa diferença só aumenta na medida em que o cargo cresce de importância. Para Solange, essa disparidade é incompreensível: “A escolaridade é um referencial no mercado. Quanto maior a escolaridade, maior a remuneração. No caso das mulheres, porém, essa lógica não se cumpre. Quanto maior a sua escolaridade, menos ela ganha, proporcionalmente”.

Isso acontece por muitas razões, segundo ela. Uma delas é achar que uma trabalhadora custa mais à empresa do que um trabalhador. “Isso não é verdade. A licença-maternidade é bancada pela Previdência Social. E, frequentemente, as empresas nem substituem a mulher de licença, o seu trabalho é dividido entre os colegas”, afirma Solange, que cita uma pesquisa da OIT que mostra que as mulheres brasileiras recebem apenas 0,8% a mais em benefícios do que o homem.

Outra crença tem relação ao tempo dedicado ao trabalho. “Dizem que as mulheres faltam mais por causa de filhos, pais, etc. Mas já está provado, pelo acompanhamento de ausências nas empresas e suas causas, que elas faltam menos do que eles. E, quando faltam, é por problemas familiares. Já os homens faltam por problemas de alcoolismo, por eventos esportivos etc. São questões de natureza bem diferente.”

As diversas pressões que recaem sobre a mulher trabalhadora já estão provocando consequências. Segundo Solange, as mulheres com maior escolaridade estão adiando os planos da maternidade para se dedicarem à carreira. “O mais engraçado é que os homens não precisam fazer essa escolha. Apesar de também sofrerem pressão para serem bem-sucedidos, geralmente, eles conseguem investir na carreira e, ao mesmo tempo, se casar e ter filhos. Sequer se coloca em discussão se eles devem se dedicar mais à família do que à carreira. Isso é muito injusto, mas é cultural.”

A coordenadora da OIT destaca que a injustiça é ainda maior quando a mulher é negra, porque ela sofre duplamente: “A discriminação que a mulher negra sofre dificulta seu acesso ao trabalho, à remuneração compatível, às condições da ascensão profissional.” Para combater isso, a especialista defende as ações afirmativas, que ajudam a colocar o tema em debate na sociedade: “Por exemplo, quando o Estado cria uma Secretaria Especial de Igualdade Racial, é uma forma de reconhecer o problema e de estimular a elaboração de políticas públicas para as áreas de educação, de trabalho e de saúde. Enfim, é toda uma movimentação institucional pra se reconstruir as relações de trabalho e de cidadania em bases democráticas e igualitárias.”

Não é à toa que a OIT escolheu o tema “Trabalho e Família: compartilhar é a melhor forma de cuidar” para marcar o Dia Internacional da Mulher, no próximo domingo, dia 8 de março. Apesar de trabalhar fora, a mulher continua cuidando da casa e dos filhos. “Os homens ainda não assumiram seu papel nesta esfera. Por isso, por trás da ideia do trabalho decente — aquele que remunera adequadamente, que é exercido em condições de segurança de igualdade e que garante o direito à representação –, achamos importante discutir a busca pelo equilíbrio entre trabalho e família, para que mulheres e homens possam trabalhar e viver as suas vidas pessoais sem conflitos”, explica Solange.

Segundo ela, para isso é necessário repensar a própria organização do trabalho e até dos serviços públicos: “Por exemplo, os postos de saúde deveriam abrir nos finais de semana, para que as famílias pudessem se beneficiar do atendimento sem prejuízo do tempo do trabalho”.

Solange Sanches destaca que é preciso até mesmo repensar o significado do sucesso: “O que é o sucesso? Será que para ter sucesso profissional é preciso abrir mão da família, ou vice-versa? Essa visão de sucesso pressupõe uma dedicação sem limites e impede que o ser humano se desenvolva como um todo”.

Solange sabe muito bem do que está falando. Ela é casada e tem dois filhos, hoje adultos. Logo após o parto, a coordenadora da OIT soube que carregaria consigo algo do qual jamais se livraria: a culpa. Apesar de sempre ter dividido as tarefas em casa com seu marido, ela confessa que foi muito difícil conciliar carreira e família: “Em vários momentos, eu tive que fazer escolhas, às vezes pelo trabalho, às vezes pelos meus filhos. Foi sofrido, porque você quer ser uma boa mãe, ter uma vida pessoal plena e fazer um bom trabalho profissional, e tudo isso muitas vezes é incompatível”.

Ela acredita que a luta pela igualdade deve continuar, pois a mudança não virá de forma natural. Uma das ações da OIT é fazer o Brasil ratificar a Convenção 156, sobre as responsabilidades familiares dos trabalhadores e trabalhadoras: “O Brasil é o único país do Mercosul que ainda não ratificou esse documento. Precisamos também lutar por uma lei como a assinada pelo presidente Barack Obama, pois ela ajudaria a aplicar de forma mais eficaz o princípio constitucional de igualdade de direitos”, completa Solange.

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8 Opiniões

  1. Fabio Leonel disse:

    Não vejo porque as mulheres querem ganhar igual a nós homens. Nós somos muito mais competentes e produtivos.

    E por que essa história de dia da mulher? Por que não existe um dia do homem?

  2. Lírda disse:

    O Opinião e Notícia não poderia ter colocado um artigo mais adequado para falar sobre o Dia Internacional da Mulher. A questão da distribuição equânime do trabalho de reprodução social, que é como algumas ciências denominam o trabalho desenvolvido no ambiente doméstico, assume hoje um lugar de importância ímpar para a sociedade. Deve figurar entre aqueles assuntos que merecem amplo e urgente debate social. Parabéns pela reportagem!

  3. JOSE GRANGEIRO SOBRINHO disse:

    Ainda bem que o Leonel individualizou sua resposta, quando relatou que não o porquê da igualdade nos proventos de mulheres e homens, pelo meos esta não é a minha opinião, apesar de ser homem, não vejo nenhum problema, na igualdade de ganhos oportunidades e outros conceitos, que possam serem equiparados entre os dois sexos. É pena, ainda termos pessoas com essa formação de opinião. Mas, há de convirmos, que uma sociedade, que a tão pouco tempo vivia uma aristocracia como a que vivemos, até hoje, ainda possa haver requícios dessa mazela. É cultura mesmo.
    Grangeiro
    SANTA CRUZ-RN

  4. MARKUT disse:

    Comovente e totalmente pertinente o depoimento de Solange Sanches.

    Ouso,porem, fazer alguns reparos de observações feitas, neste depoimento, uma vez que a expressão "igualdade" está sendo usada , neste texto, com conotações, que devem ficar bem esclarecidas:

    1)Lembrar as óbvias desigualdades biológicas , entre os sexos.

    Essas desigualdades não se anulam, se complementam.

    2) À "igualdade" sexual deve se soprepor o princípio do mérito.

    Homens e mulheres têm os seus atributos próprios e o que interessa,afinal, é a relação custo benefício , na atividade profissional .

    2) Essa Secretaria Especial da Igualdade

    Racial é, no meu entender, uma excrecência inutil e perigosa.

    Deveria ficar claro no imaginário público, que a cor da pele é o que menos importa, desde que se "venda" adequadamente o princípio da meritocracia.

    Essa pretensão de querer redimir as eventuais "culpas" pela barbaridade do regime escravocrata, alimentando , e não atenuando, o ressentimento, é contraproducente.

    Haja vista, a absurda abordagem do sistema de quotas universitárias, quando o problema está muito mais embaixo,a saber, a péssima escolaridade básica que temos , aquí, no Brasil, independente de ser escola pública ou particular.

  5. Carmen disse:

    Não concordo muito com essa idéia dos direitos iguais e Dia Internacional da Mulher. Acho que nós queremos direitos iguais, entao vamos a luta, estamos no mercado do trabalho e temos que provar que somos tão boas quanto eles. Só mais um detalhe, mulheres nós somos responsáveis pela criação também dos filhos homens, portanto vamos ensiná-los que eles podem fazer tudo que as meninas fazem. Normalmente, as mães deixam as tarefas domesticas para as filhas mulheres, poupando os filhos homens. Acabamos alimentando um mundo machista. Se queremos mudanças, devemos começar por nós, devemos começar na nossa casa. Duvido se na nossa casa não existe um tratamento diferenciado – meninos x meninas… Duvido. Acho que já deu essa história de DIA INTERNACIONAL DA MULHER… prá que??? Me desculpem as mulheres, mas não concordo com isso.

    Att,

    CArmen

  6. Célia Santos disse:

    Ótima matéria, bem escrita e explicada. Parece mentira que no século 21 ainda estejamos lutando por coisas que as mulheres começaram a lutar no século 19 ou antes até.

  7. luiz disse:

    Mulheres, acordem, vocês estão sendo usadas pelo marxismo e a revolução cultural, cujo objetivo é destruir todos valores da sociedade, para depois implantar o comunismo no Brasil e no mundo.Esses movimentos de desconstrução dos valores da sociedade começou há muito, e vocês por serem a parte mais fraca, emocionalmente falando, foram as escolhidas. Façam um estudo, pesquisem sobre o comunista italiano Gramsci e os filósofos da Escola de Franckfurt e entenderão perfeitamente o que estou falando. O movimento feminista foi programado e tem como objetivo, destruir as mulheres, consequentemente a família e a sociedade, para depois implantarem outros valores. Umas das maiores perdas que vocês tiveram foi o direito de não trabalharem, perderam-no para sempre. Mulheres, vocês são superiores aos homens, porque a humanidade se renova através de vocês. Cria teus filhos, não os abandone numa creche. Não matem seus filhos. Vocês têm o dom divino de ser mãe. Não se deixem transformar sòmente num objeto de prazer.A maioria de vocês finge ser o que não é, são orgulhosas. Lutem pelo direito de não trabalharem e criarem seus filhos. Mulheres, libertem-se dos homens, não os inveje, não se comparem a êles. Sejam mulheres.

  8. Zuil disse:

    Mas algumas mulheres já estão ganhando mais do que alguns homens. O que as mulheres estão fazendo para repararem essa terrível injustiça?

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