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MÊS DAS MULHERES

A Uber e as mulheres: segurança no banco de trás, mas no da frente também

Morte de uma motorista da Uber no Rio informa sobre os limites das cotas de gênero para motoristas de aplicativos, em matéria de segurança das mulheres

A Uber e as mulheres: segurança no banco de trás, mas no da frente também
Em Porto Alegre, existe cota para mulheres de 20% na Uber (Foto: PxHere)

Em março de 2018, durante testes, um “carro autônomo” da Uber atropelou e matou uma mulher nos EUA: Elaine Herzberg, de 49 anos de idade. Um ano depois, na última quinta-feira, 7 de março, véspera do “Dia Internacional da Mulher”, os promotores estadunidenses responsáveis pelo caso (os promotores, não os advogados de defesa) disseram que “não há base para responsabilidade criminal” da Uber no sucedido.

Já a “motorista de apoio” do “carro autônomo” que matou Elaine, outra mulher, Rafaela Vasques, de 47 anos, poderá ser indiciada por homicídio, segundo os mesmos promotores.

O site Auto Esporte, especializado no setor automobilístico, informa que “a decisão dos promotores de não apresentarem acusações criminais remove uma possível dor de cabeça para a empresa, já que os executivos da companhia tentam resolver uma longa lista de investigações federais, processos judiciais e outros riscos legais antes do IPO [sigla em inglês para Oferta Pública Inicial, de ações] previsto para este ano”.

Elaine foi atropelada e morta numa rua do condado de Yavapai, no Arizona. Rafaela deve ser mais uma latina indo em cana nos EUA. Fernanda Melchionna, do Psol, comemorou no Facebook, celebrando vitória do “direito de escolha”, quando a câmara de Porto Alegre aprovou seu projeto de cota de mulheres, 20%, para motoristas da Uber na cidade:

“Dessa forma, as passageiras terão a opção de escolher serem conduzidas por mulheres motoristas! Pela segurança e conforto das nossas mulheres! Seguimos na luta para que políticas públicas nesse sentido sejam efetivadas! Pelo nosso direito de escolha!”.

Elaine, Rafaela, a ex-vereadora Fernanda, que em 2018 foi eleita deputada federal, com a melhor votação de uma mulher no Rio Grande do Sul. E ainda Kátia Valéria Nunes Bastos. Motorista da Uber, Kátia foi encontrada morta no último 8 de janeiro, no banco de trás do carro que usava para tirar algum. Foi estuprada e asfixiada por um passageiro em Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio de Janeiro. A Uber lamentou a morte da “motorista parceira”.

‘A vida dá voltas, força’

“Motoristas parceiros” disputando passageiros que não são os seus, mas do aplicativo, em vez de disputarem vagas de trabalho limitadas; flutuando dia e noite, sem turnos, numa pista global de carrinhos bate bate. A ideia de “exército industrial de reserva” foi ou não foi atualizada com sucesso, por assim dizer, pela Uber?

Com tanta gente de tantas diferentes profissões indo parar “fazendo Uber”, que dizer sobre as definições atualizadas pela Uber da própria transição da manufatura para o maquinário, quando os trabalhadores perderam seus ofícios e foram empurrados ao trabalho sob o ditame das engenhocas.

Na última segunda-feira, 11, foi lançado em Portugal o livro “Confidências: as minhas histórias como motorista da Uber”, da ex-apresentadora de TV portuguesa Felipa Garnel.

Numa entrevista sobre o livro publicada no Diário de Notícias, Felipa conta que, para virar “motorista parceira”, recebeu dicas de um motorista brasileiro da Uber em Portugal. Sua conclusão, após um mês ao volante, é que “na Uber tem de se trabalhar muitíssimo e ter sorte”. Quando, vez ou outra, amigos entravam no banco de trás, e viam que era Felipa a condutora, ela conta que lhe davam aquele abraço de “força”: “a vida dá voltas”.

Os motoristas de aplicativos também. Da maneira mais macabra, a morte de Kátia informa sobre os limites estreitos, em matéria de “segurança e conforto das nossas mulheres”, de projetos como o da cota de gênero para o trabalho ultra precário, onde é necessário, para ganhar algum, primeiro trabalhar muitíssimo; segundo, “ter sorte”.

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