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Relação comercial antiga

China e os novos investimentos na África: neocolonialismo ou mudanças na arquitetura global?

Por Fernando Brancoli

China e os novos investimentos na África: neocolonialismo ou mudanças na arquitetura global?
China investe cada vez mais na África

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CAIRO, Egito e GENEBRA, Suíça – Ao se observar um mapa comum do continente africano, observam-se linhas de fronteiras extremamente retas, em uma categoria claramente matemática. O motivo óbvio para tal disposição é justamente a divisão imposta pela Europa, no século XVIII e XIX, ao estabelecer suas colônias e áreas de influência.

Atualmente, as penetrações no Continente Negro são menos claras e as demarcações menos fáceis de serem calculadas. Contudo, é notável a crescente participação da China nos países da região, que vem causando receio em especialistas na área.

A China tem uma história bastante vasta de envolvimento com a África, que remonta aos primórdios dos movimentos de independência na década de 1960. Nesse período, Pequim se limitou a influenciar através da diplomacia – com poucos investimentos diretos.

Contudo, o investimento decolou na década de 1990, atrelado ao crescimento vertiginoso da China e sua crescente demanda por commodities, principalmente petróleo.

“O interesse maior na África está nas fontes de energia, devido à dificuldade de acesso ao petróleo do Oriente Médio, destinado prioritariamente ao Ocidente”, afirma Gustav Broom, especialista em Segurança Energética.

No campo do ‘ouro negro’, Pequim mantém estreitas ligações com inúmeros países africanos, muitos com sistemáticos problemas relacionados, por exemplo, aos direitos humanos. O Sudão, por exemplo, foi financiado na década de 1990 para expandir sua indústria petroleira, atualmente com uma receita de quase US$ 2 bilhões por ano – metade para a China. Na Nigéria, a potência asiática colocou US$ 2,7 bilhões na compra dos direitos de exploração. Por sua vez, Angola, que é atualmente a maior fornecedora de petróleo para a China, recebeu investimentos que passam os US$ 2 bilhões nos últimos 5 anos.

Recentemente, a revista Economist publicou uma lista que demonstra que quatro dos dez maiores exportadores de óleo bruto para a China se encontram na África – o continente já corresponde a 30% de todo o petróleo importado por Pequim.

“Na lista de importações também estão o algodão bruto do Oeste do continente, além de cobalto, cobre, minério de ferro e platina. Além disso, há casos de arrendamentos de terras no leste para a produção de alimentos”, acrescenta Broom.

Efeitos colaterais

A grande diferença dos investimentos chineses, apontam os especialistas, está justamente em certas particularidades ainda difíceis de serem calculadas. Em primeiro lugar, Pequim não atrela nenhuma prerrogativa para efetuar tais ações. Enquanto países ocidentais – e até mesmo órgãos multinacionais, como o FMI e o Banco Mundial – exigem que as nações cumpram pré-requisitos em pontos como direitos humanos e participação privada. Pequim, por outro lado, não cita tais questões.

“Isso provoca receios em certas regiões. Pode ser considerado um sinal para que ditadores continuem suas ações, porque sempre haverá investimento de algum lugar”, afirma Elisabeth Montmerry, especialista em Direitos Humanos da Universidade de Gotland, na Suécia.

Outro ponto interessante é a venda e compra de grandes somas de terras. No sul da Etiópia, por exemplo, há casos em que Pequim arrendou grandes áreas e as cercou. Por se tratarem de países instáveis e com governos ainda não consolidados, teme-se que tais zonas tornem-se literalmente protetorados. “Não há aparelhos jurídicos para se esclarecer realmente quais são as intenções e direitos nesses pontos”, conclui Montmerry.

Com o crescimento apontado nos últimos anos pela China e os indicadores de que irá demandar cada vez mais de commodities, é de se esperar que os investimentos em território africano cresçam substancialmente. “Podemos estar presenciando o surgimento de novas relações comerciais estratégicas que excluem totalmente o Ocidente”, aponta Broom.

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10 Opiniões

  1. Thomas disse:

    Se os Estados Unidos e a União Européia permitirem, o continente africano irá se tornar o celeiro dos chineses. Com todos os malefícios para os direitos humanos que isso provoca.

  2. Helio disse:

    Pena que o leitor Thomas está certo. O bom seria que o dinheiro chines fosse e frutificasse, mas Bashir responsável pelos massacres de Darfur vai vencendo as eleições, avançando mais de uma década no poder

  3. Markut disse:

    Parece claro ser o neo colonialismo em ação, não mais com forças armadas, nem com agressivas invasões militares, mas, sim, com investimentos, sempre à procura de riquezas, como sempre foi: especiarias, pau brasil, prata e ouro,escravos,diamantes, petróleo, metais estratégicos e assim por diante.
    O peixe grande comendo o pequeno.
    Pelo visto, a China é forte candidata a ser o império da vez , nem precisará pedir licença aos EEUU , ou à UE.Nestes casos, não se pede permissão, abocanha-se.

  4. Sérgio Mello disse:

    A China está repetindo passo por passo todas as medidas de um Império em expansão.

    Incrível

  5. Tiago disse:

    A África sempre foi um continente perdido, sob qualquer ponto de vista; A China, não faz mais que seus parceiros econômicos europeus fizeram nos séculos XVIII e XIX, mas com consequências mais sinistras que as de ontem, pois pelo menos naquela época os europeus investiam em um mínimo de infra estrutura e melhoria nas tenebrosas condições de vida daquelas pobres criaturas. Hoje, o petróleo jorra e o povo chora ao ver o resultado do ouro negro convertido em mais e mais corrupção e opressão.

  6. Kédma disse:

    É um fato nítido de interrelações econômicas, que beneficia ambas partes,países da África e China, com seus graus de lucro,logicamente.
    Mas perante tantos problemas antigos que perduram na África,ela está tendo uma oportunidade de mudar a hitória de uma África decadente relacionando a extração e os próprios nativos.

  7. Andréia P disse:

    O Brasil não faz isso em Angola, com a Odebrecht? A diferença é que a China possui um planejamento para longos anos, enquanto nós ainda somos totalmente indecisos sobre nosso papel no mundo

  8. Fabrício Leme Costa disse:

    O que me dá mais temor é a falta de conexão entre os investimentos e Direitos Humanos. Enquanto o fluxo de verbas se manter, as ditaduras africanas continuarão.

  9. Hélio Araújo Silva disse:

    VAMOS LUTAR PELA CRIAÇÃO DO MINISTÉRIO DOS ÍNDIOS!
    HÉLIO’S BLOG

    Divulgação Científica

    In English

    http://translate.google.com.au/translate?hl=en&sl=pt&

    MANIFESTO DOS ÍNDIOS BRASILEIROS

    O Brasil avançou muito nestes últimos anos. Por um lado, ele se transformou num exemplo de democracia para a América Latina. Por outro lado, ele conseguiu incorporar a luta pela equidade de gênero e pela promoção da igualdade racial. Mas ainda não conseguiu promover o resgate histórico dos nossos povos originários, ou seja, dos índios, que ainda se mantém, de certa forma, à margem do próprio processo de desenvolvimento como uma população tutelada.

    Qual é a razão deste atraso? O mundo mudou e o país também precisa mudar. Não adianta continuar discutindo sobre o futuro com resquícios do passado. O nosso país precisa de um novo desenho institucional e de um novo repertório de convivência cívica. Para a construção de uma nação forte e soberana, capaz de aglutinar, verdadeiramente (e não apenas retoricamente) pessoas, gêneros, raças, credos, etnias e nacionalidades, para a celebração da paz e da harmonia entre todos…

    Como um grande passo nesta direção, o Brasil precisa acordar e se lembrar de que a conquista da autonomia é o primeiro passo para o fortalecimento da cidadania em sua plenitude. Esta é uma das razões pelas quais os índios brasileiros querem falar por si mesmos, isto é, sem intermediários. Eles querem e têm o direito de participar desta nova etapa, até por uma questão de ancestralidade. Sendo parte constitutiva de nossa nacionalidade, eles não podem continuar a ser excluídos deste processo. Eles não podem ser deixados para trás, até porque a nossa história não pode ser órfã. Precisamos de todos os brasileiros, unidos e reconfigurados, para dar a nossa contribuição ao novo estágio civilizatório que se avizinha…

    http://www.organamerica-africa.com/149955.html

    VAMOS LUTAR PELA CRIAÇÃO DO MINISTÉRIO DOS ÍNDIOS!

    Passe um e-mail para o seu Deputado…

    HÉLIO’S BLOG

    http://helioaraujosilva.spaces.live.com/

  10. Emílio Mendonca disse:

    Se analisarmos a África a partir de nosso próprio exemplo, a exploração de recursos naturais por outros realizada não promove o crescimento econômico do continente.
    Isso ocorrerá quando os africanos puderem explorar e, em nível de igualdade, negociar seus produtos no mercado internacional.
    Exportar é a fonte do cresimento, e não a permissão de que outros extraiam recursos em seus lugares, que tem por consequência o agravamento da relação de dependencia.

    Acredito que de tal forma, não deixará a Africa de ser um país periférico, em relação à central China (entre outros).

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