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Netflix e Disney contra o estado da Geórgia

Gigantes de entretenimento ameaçam abandonar o estado em retaliação a projeto de lei antiaborto. Timidamente, Hollywood também começa a se posicionar

Netflix e Disney contra o estado da Geórgia
Geórgia tem sido bastante criticada por conta do posicionamento sobre o aborto (Foto: Divulgação/Netflix)

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Durante anos, Hollywood e o estado da Geórgia, nos Estados Unidos, se aproximaram. Devido aos incentivos fiscais, diferentes produções americanas migraram para cidades do estado, passando a serem filmadas em inúmeras locações. No entanto, a mais recente aprovação da lei antiaborto da Geórgia pode mudar isso.

No início de maio, o governador da Geórgia, o republicano Brian Kemp, assinou um projeto de lei chamado “Heartbeat”, que proíbe o aborto em todo o estado após seis semanas de gestação. Apesar de seguir uma espécie de “tendência” entre estados americanos – que têm endurecido as leis referentes ao aborto -, a medida tem gerado reações no setor de entretenimento.

O mundo cinematográfico é, tradicionalmente, liberal. Em 2016, a Disney e a Marvel já tinham se unido contra uma lei de liberdade religiosa na Geórgia, que foi apontada como homofóbica. Diante das repercussões, a legislação foi vetada. Agora, espera-se o mesmo sobre a nova legislação antiaborto, que ainda vai entrar em vigor, após, possivelmente, ser contestada nos tribunais.

Apesar de timidamente, Hollywood já começa a se posicionar sobre a decisão da Geórgia. Em um primeiro momento, o posicionamento aconteceu através de atores. Astros de séries da Netflix, os artistas Alyssa Milano, de Insaciável, e Jason Bateman, de Ozark, prometeram boicotar o estado.

O posicionamento dos atores foi seguido pela própria Netflix. Com diferentes produções filmadas na Geórgia, inclusive a terceira temporada de Stranger Things, o serviço de streaming prometeu repensar sua atuação no estado, caso a lei entre em vigor. No momento, enquanto a legislação ainda não vigora, as atividades permanecem inalteradas.

“Temos muitas mulheres trabalhando em produções na Geórgia, cujos direitos, juntamente com milhões de outros, serão severamente restringidos por essa lei. É por isso que vamos trabalhar com a ACLU [União Americana pelas Liberdades Civis] e outros para lutar no tribunal. […] Como a legislação ainda não foi implementada, continuaremos a filmar lá, além de apoiar parceiros e artistas que preferem não fazer isso. Se isso entrar em vigor, repensaremos todo o nosso investimento na Geórgia”, afirmou o diretor de conteúdo da Netflix, Ted Sarandos,  à Variety.

Seguindo os mesmos passos da Netflix, o CEO da Disney, Bob Iger, revelou que será “muito difícil” continuar filmando no estado, caso a nova lei antiaborto entre em vigor. O chefe executivo revelou ainda que acha “que muitas pessoas que trabalham para a empresa não vão querer trabalhar lá [na Geórgia]”.

A saída da Netflix e da Disney da Geórgia pode impor perdas econômicas gigantescas ao estado. Enquanto a Netflix já se consolidou como um grande serviço de streaming, a Disney acerta os últimos detalhes para lançar o Disney+ (Disney Plus), que atuará semelhantemente à Netflix. Ambos os estúdios podem tirar dezenas de séries e filmes que poderiam ser filmados no estado.

Segundo a Time, 15 dos 100 filmes de maior bilheteria dos Estados Unidos, em 2018, foram filmados na Geórgia. De uma forma geral, o estado foi o lar de 455 produções de cinema e TV, movimentando US$ 4,6 bilhões em salários totais apenas em 2018.

A ação, inclusive, pode prejudicar diretamente a população da Geórgia desde o primeiro momento. Isso porque é comum que cidadãos do estado façam serviços nas grandes produções. De acordo com o New York Times, há casos de pessoas do estado trabalhando em produções como Stranger Things e The Walking Dead.

O guia turístico Stephen Sweet, inclusive, atribui a The Waling Dead o sucesso da cidade de Senoia, onde a série é filmada. Em sua 10ª temporada, o seriado continua fazendo sucesso nos Estados Unidos. Sweet trabalha na produção que, até o momento, deve permanecer no estado.

No entanto, outras produções, que iriam ser filmadas na Geórgia, já afirmaram que não permanecerão no estado. É o caso de The Power, da Amazon, dirigida por Reed Morano, e Barb e Star go to the Vista del Mar, da Lionsgate, estrelada por Kristen Wiig.

Algumas produtoras, como a Monkeypaw Productions, do diretor Jordan Peele, e a Bad Robot, de J.J. Abrams, prometeram doar a receita recebida pelos episódios do próximo programa, Lovecraft Country, para os esforços legais da ACLU. A produção Hillbilly Elegy, por outro lado, será mantida no estado, por enquanto. Em um primeiro momento, serão feitas doações para a ACLU. Porém, caso a legislação seja aplicada, Ron Howard, responsável pela produção, afirma que não retornará ao estado.

Apesar do movimento de gigantes de Hollywood e de atores da indústria, outros estúdios não participam do “boicote”. É o caso do Pinewood e do EUE/Screen Gems, que representado, no estado, pelo complexo de estúdios do magnata Tyler Perry. A AMC, responsável por The Walking Dead, também não planeja deixar a Geórgia.

Incentivos da Geórgia

Apesar da instabilidade, o relacionamento entre Hollywood e Geórgia não é tão antigo, datando de 2008. Quando tentava se recuperar da crise econômica, o estado deu incentivos milionários ao setor cinematográfico. Eram oferecidos até 30% de créditos fiscais para cineastas.

Durante esses 11 anos, estima-se que o estado distribuiu mais de US$ 1 bilhão em créditos tributários. Por outro lado, atraiu produções gigantescas, como Stranger Things e a franquia Jogos Vorazes, além de filmes da Marvel, como Pantera Negra e Vingadores: Guerra Infinita.

“Vimos setores inteiros salvos – de floristas a fornecedores, de carpinteiros a eletricistas. […] Não importa de que lado do espectro político você esteja, a indústria cinematográfica é a única coisa em que todos estão na mesma página”, destacou Chris Escobar, diretor executivo da Atlanta Film Society, à Time.

Fontes:
Time-The First TV Show Is Leaving Georgia Over the New Abortion Law. The Local Film Industry Fears What Comes Next
The New York Times-Hollywood Invested Big in Georgia. A New Abortion Law Is Causing Some Tensions

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1 Opinião

  1. Leonardo disse:

    Nao consigo acreditar que empresas como a Disney, focada nas crianças, e a Netflix possam ser a favor do assassinato de futuros bebês pelo simples fato de ainda estarem no ventre de suas mães. Aborto = Assassinato.

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