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CRISE HUMANITÁRIA

O custo humano das sanções dos EUA à Venezuela

Ativistas de direitos humanos e economistas discutem as implicações das sanções econômicas dos EUA no agravamento da crise na Venezuela

O custo humano das sanções dos EUA à Venezuela
As opiniões de economistas sobre a contribuição das sanções para a crise se dividem (Foto: HRW)

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À medida que aumenta o êxodo de refugiados da Venezuela, ativistas de direitos humanos questionam até que ponto as sanções econômicas dos EUA estão agravando as condições terríveis de vida da população da Venezuela privada de alimentos, bens de consumo básicos e medicamentos.

Os Estados Unidos bloquearam os ativos da empresa estatal de petróleo PDVSA no país, cancelaram as transações financeiras com o Banco Central da Venezuela e proibiram a venda de petróleo e ouro.

As sanções impostas ao setor de petróleo representam um duro golpe para o governo de Nicolás Maduro. A exportação de petróleo é responsável por 95% das receitas do país. Com a queda na exportação de petróleo, a Venezuela tem cada vez menos recursos para importar alimentos, medicamentos e outros produtos. Segundoestimativas, a produção atual de petróleo situa-se entre 740 mil e 850 mil barris por dia, números bem inferiores à produção de 2,3 milhões por dia em 2016.

Em um novo estudo, o venezuelano Francisco Rodriguez, economista do banco de investimento Torino Capital, com sede em Nova York, mostrou que as sanções econômicas dos EUA foram responsáveis por uma queda de 797 mil barris por dia na produção de petróleo, o que representa uma perda de US$ 16,9 bilhões por ano de receitas de exportação.

“Em um país que cultiva apenas um terço dos alimentos que consome, a redução das receitas de exportação de petróleo é desastrosa. A escassez de alimentos atingiu as principais cidades e povoados da região rural do país. Um número alarmante de crianças subnutridas tem problemas de desenvolvimento físico e mental. Em breve, a situação irá se agravar com a diminuição da importação de alimentos”, advertiu Rodriguez.

Diante da crise econômica e do colapso do sistema de saúde, milhões de venezuelanos estão buscando refúgio em outros países. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados,  mais de 5 milhões de pessoas sairão do país até o final deste ano. A Organização dos Estados Americanos prevê um êxodo de 8 milhões até o final de 2020.

No entanto, o agravamento da crise humanitária em consequência das sanções econômicas é uma preocupação de segundo plano para os EUA. O objetivo do governo é derrubar o regime de Maduro. Em abril, em um discurso para veteranos da fracassada tentativa de invasão de Cuba apoiada pela CIA em 1961, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, disse que a “troika da tirania ─ Cuba, Nicarágua e Venezuela ─ começara a desmoronar”.

Autoridades americanas atribuem a crise econômica à corrupção, à administração pública ineficiente e à falta de investimento no setor de petróleo.

As opiniões dos economistas se dividem. Um estudo de Jeffrey Sachs e Mark Weisbrot do Center for Economic and Policy Research culpou os EUA pela “punição coletiva” da Venezuela e o consequente caos econômico e social. No entanto, para uma equipe do instituto de pesquisa Brookings, a deterioração da economia e das condições de vida da população são anteriores à imposição das sanções em 2017.

Na visão de Moises Naím, escritor venezuelano e membro do Carnegie Endowment for International Peace, as sanções deveriam se concentrar em aplicar medidas punitivas contra membros importantes do governo de Maduro, como bloqueio de ativos e proibição de viagens.

“Nicolás Maduro se mantém no poder apesar da crise econômica e humanitária no país. Mas ataques a alvos individuais enfraqueceriam o cerne da força do regime”, disse Naim.

Rodriguez concorda que a ineficiência do governo é responsável pela queda da produção e exportação de petróleo, e não as sanções econômicas. Mas, em sua opinião, o mais urgente é obter ajuda humanitária para evitar a fome em massa na Venezuela. Cita, como exemplo, o programa da ONU no Iraque intitulado “petróleo por comida”, que permitiu a venda de quantidades limitadas de petróleo em troca de comida e medicamentos. 

Nas palavras de Thomas Shannon, um antigo diplomata de carreira que ocupou cargos importantes no Departamento de Estado dos EUA, “o mundo assiste à destruição progressiva da Venezuela como país e sociedade.Essa deterioração econômica e social da Venezuela, um dos países mais ricos da América Latina até o início do governo de Hugo Chávez em 1999, terá efeitos profundos na América do Sul e na região do Caribe. O êxodo dos refugiados venezuelanos se assemelhará à terrível crise migratória na Europa em 2015”.

Fontes:
Financial Times-Worries mount over human cost of US sanctions on Venezuela

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