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VOLTANDO PARA CASA

O fim da era de ouro das multinacionais

Com os lucros em declínio, multinacionais já davam sinais de que pretendem voltar para seus países de origem muito antes da ascensão do populismo em 2016

O fim da era de ouro das multinacionais
As empresas multinacionais floresceram no início da década de 1990 (Foto: Natural Blaze)

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Entre as muitas coisas que Donald Trump detesta, estão as empresas multinacionais, os maiores agentes por trás da globalização. Elas são acusadas por ele de promover uma “carnificina” no mercado de trabalho americano, ao levar para o exterior suas fábricas e postos de trabalhos.

Trump pretende domesticar tais empresas beneficiando com impostos menores aquelas que permanecerem nos EUA e impondo altas taxas às que deixarem o país. Para evitar a punição, “tudo o que você tem de fazer é ficar”, disse ele esta semana.

A declaração protecionista de Trump, no entanto, está obsoleta. As empresas multinacionais já davam sinais de que pretendem retornar para seus países muito antes dos protestos populistas de 2016. Isso porque o desempenho e lucro dessas empresas caíram tanto que elas não estão mais superando suas rivais que permaneceram locais. Muitas multinacionais exauriram sua capacidade de cortar custos e taxas. Logo, Trump está atacando empresas que estão surpreendentemente vulneráveis e, em muitos casos, retornado para os países de origem. Essa tendência terá um impacto profundo nas relações comerciais globais.

As empresas multinacionais floresceram no início da década de 1990, quando a China começou a abrir seu mercado e a Europa se integrou com a Rússia após o fim da União Soviética.

Foi uma era de ouro. Firmas como IBM, McDonald’s, Ford, H&M, Lenovo e Honda se tornaram uma referência de sucesso para gestores empresariais. Sem raízes, elas influenciaram o que bilhões de pessoas em todo o mundo comiam, vestiam e assistiam. Somadas, suas cadeias de produção passaram a representar 50% de todo o comércio global e um terço do valor do mercado de ações global. Além disso, elas detêm uma grande fatia da propriedade intelectual de produtos que vão de design de roupas íntimas a produtos de realidade virtual, passando por medicamentos contra diabetes.

Do auge ao declínio

Junto com a ascensão das multinacionais, veio o argumento de que este tipo de empresa é uma máquina de fazer dinheiro. Porém, esse argumento caiu por terra. Nos últimos cinco anos, os lucros registrados pelas multinacionais caíram, em média, 25%. O retorno do investimento feito chegou ao patamar mais baixo em duas décadas. Em parte, o fortalecimento do dólar e a queda no preço do petróleo explicam esse declínio. A fatia do lucro global obtido pelas multinacionais caiu de 35%, há uma década, para atuais 30%. Para muitas dessas empresas, o avanço global deixou de ser uma vantagem e se tornou um fardo.

Em contraponto, empresas locais se tornaram mais sofisticadas, sem precisar abrir fábricas de alto custo no exterior. Do setor de exploração de gás de xisto americano, passando por bancos brasileiros e empresas de comércio online chinesas, as firmas de melhor desempenho atualmente são locais, não globais. E a mudança no cenário político que vem alimentando o nacionalismo tornou as coisas ainda mais difíceis para as multinacionais.

A chegada de Trump à Casa Branca apenas acelerará um processo de reestruturação das multinacionais que já está em vigor. Uma saída para essas empresas seria se tornar virtual, a exemplo de estrelas do Vale do Silício como a Uber. Porém, esse tipo de firma também é atacada por populistas, pois elas geram poucos empregos diretos, pagam poucos impostos e não obedecem a leis criadas para empresas físicas.

Outra questão é que o fim da era de ouro das multinacionais também encerrará a era de ouro da livre escolha do consumidor e da eficiência. O retorno das multinacionais para seus países de origem não trará consigo todos os empregos que pessoas como Trump desejam. Para piorar, terá como efeito colateral o aumento de preços, a redução da concorrência e da inovação. É possível que um dia o mundo olhe para a era das multinacionais e se arrependa de seu fim.

Fontes:
The Economist-The multinational company is in trouble

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