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O produto mais quente na fronteira entre Macau e China continental

O correspondente Evan Osnos descobre o que os chineses mais compram quando viajam a Macau

O produto mais quente na fronteira entre Macau e China continental
Resposta de Macau ao escândalo do leite foi estocar leite de fórmula (Reprodução/NewYorker)

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Semana passada a China se mobilizou em torno da história de uma criança chamada Yueyue, atropelada por dois carros e em seguida, ignorada na beira da estrada por mais de uma dúzia de pedestres. A criança morreu na última sexta-feira, 21, mas o debate persiste sobre que tipo de sociedade é capaz de permitir tamanho descaso.

Esta semana estou em Macau, a antiga colônia portuguesa no canto do continente chinês. Macau ainda se comporta como um Estado independente (a península é considerada uma “região administrativa” pela China), e durante a viagem fui lembrado de como é possível aprender muito sobre uma sociedade observando o que seu povo compra quando está fora do país. Nos anos setenta, os soviéticos iam a Macau atrás dos jeans da Levi’s. Nos anos noventa, acadêmicos chineses estocavam parafernália da Disney para presentear suas crianças. Estes dias o turista da China continental que viaja até  Macau está em busca de quê?

Leite de fórmula para crianças.

Onde se imaginaria encontrar a habitual panóplia de negócios fronteiriços como joalherias, cambistas e vendedores de eletrônicos baratos, o turista se depara com milhares de farmácias enfileiradas em todas as direções. E as prateleiras estão empilhadas até o teto com latas enormes de leite de fórmula infantil.

Para tirar vantagem sobre a concorrência, lojistas exibem os seguintes avisos nas janelas: “Mercadorias Verdadeiras Guarantidas”. Quando a demanda atinge picos, as lojas são obrigadas a limitar os consumidores a algumas latas cada, para evitar uma corrida desenfreada e violenta pelas fórmulas de bebê.

Como explicar essa demanda? Como os chineses sabem muito bem estes dias, o leite de fórmula para crianças vendido no continente tornou-se símbolo de um debate fervoroso sobre a bússola moral da nação. Em 2008, fabricantes chineses foram acusados de alterar  a quantidade de proteínas nas fórmulas infantis, misturando o alimento com um produto tóxico conhecido como melamina. Cerca de 300 mil crianças apresentaram sinais de intoxicação. Seis delas morreram de doenças renais, e outras 860 precisaram ser internadas. Eventualmente, dois fabricantes e distribuidores foram executados e outros 19 enviados à prisão.

O escândalo do leite e outros problemas de segurança alimentar na China levaram a população a começar a se perguntar que tipo de corrosão moral tolera uma sociedade na qual fabricantes conscientemente acrescentam produtos químicos perigosos em alimentos destinados aos menos preparados para se defender contra essas substâncias.

Existem explicações das mais variadas: alguns fabricantes disseram que não sabiam que o químico seria prejudicial; outros que não tinham escolha a não ser cometer o ato se quisessem competir no mercado. Quase quatro anos depois do incidnete, o povo chinês ainda não está convencido de que sua fórmula infantil é segura.

É uma realidade sombria. Com todo o debate sobre a fraqueza da economia chinesa, a aposta mais segura para os chineses é estocar leite de fórmula comprado em Macau.

Fontes:
New Yorker - The hottest commodity at the Chinese border

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3 Opiniões

  1. Roberto Santiago disse:

    O ante-penúltimo parágrafo da matéria, diz: O escândalo do leite e outros problemas de segurança alimentar na China levou a população a começar a se perguntar que tipo de corrosão moral tolera uma sociedade na qual fabricantes conscientemente acrescentam produtos químicos perigosos em alimentos destinados aos menos preparados para se defender contra essas substâncias.”

    E aqui, no Brasil, que tipo de corrosão moral tolera uma sociedade na qual fabricantes, conscientemente, acrescentam produtos químicos perigosos em alimentos tais como o leite longa-vida? É fato que até hoje o caso não foi bem explicado à opinião pública, nem se os culpados foram punidos.

    Um outro caso – emblemático e talvez pior do que o leite longa-vida -, de, digamos, tolerância desta mesma sociedade brasileira, diz respeito à falsificação de remédios. Este, também, nunca foi suficientemente divulgado ao povo do Brasil. Fica a pergunta, às nossas “autoridades”: “O quê suas excelências fizeram para punir os culpados, e acabar com a falsificação dos remédios e do leite longa-vida, no nosso País???” Respondam, aqueles que souberem (ou imaginarem!).

  2. Peter Pablo Delfim disse:

    Na China a punição é curta e certa. Não importa se o ladrão e assassino seja rico ou pobre. Por aqui, ações criminosas, principalmente de ricos e endinheirados vão parar na justiça e todos já sabemos, e muito bem, os resultados.

  3. Carlos U. Pozzobon disse:

    O Brasil tem toda uma cultura em relação ao leite. No tempo de Vargas, foi criada uma estatal no Rio (chamada CEL) só para administrar a logística da distribuição do leite. Logo o Brasil ficou conhecido como o país da água no leite, e a roubalheira era tal e a desordem tamanha que o próprio Ministério do Trabalho se viu obrigado a multar a estatal. O Posto 3 da CEL em Copacabana vendia leite com 50% de água adicionada, segundo conta Affonso Henriques em sua biografia sobre Vargas (Ed. Record, 1977, vol 2. pg. 140). O escândalo só veio a tona com a queda de Vargas em 1945. O inquérito apurou que a diretoria era toda protegida do velho ditador, e que as firmas distribuidoras que reclamavam eram ameaçadas de suspensão do fornecimento.

    Recentemente vivemos episódio semelhante com as vitaminas adicionadas. No país da propina, em que qualquer fiscal enriquece em poucos anos de carreira, o maior perigo é um produtor tentar ser honesto sem um escritório de advocacia de respaldo. Pode ser obrigado a entrar no esquema. E a sociedade vociferar contra os produtores, com os políticos de sempre prometendo com sua habitual estridência solucionar o problema com a estatização das vacas.

    Na China, por sua vez, o problema existe porque é velho. O leite e seu beneficiamento ainda mantém a herança comunista, porque está naquela categoria de produtos que levam consigo a tradição do passado, a ancestralidade. Setores de alta tecnologia já se livraram dessa carga, até porque são umbilicalmente ligados ao capital estrangeiro. Mas o mesmo não acontece com as vacas, que ainda persistem em manter as tetas produzindo com os ensinamentos do livro vermelho de Mao-Tse-tung. Resultado: uma correria pelo leite, o mumú e a ambrosia importados. Pensando bem, alguém poderia aconselhar Orlando Silva, recém desempregado, a pensar na possibilidade de fazer negócios com a China na área do leite. Só exportando, é claro. Pensando bem, não: Orlando Silva poderia querer cantar música chinesa.

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