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CRISE ECONÔMICA

O que está acontecendo na Argentina?

Fatores internos e externos vêm minando o empenho de Mauricio Macri para fazer o país tornar a ser uma economia de mercado

O que está acontecendo na Argentina?
Crise enfureceu a população e culminou numa greve geral nesta semana (Foto: Flickr/Magalí Iglesias)

Quando Mauricio Macri foi eleito presidente da Argentina, em outubro de 2015, renovou a esperança no país vizinho. Após anos sob o comando de Cristina Kirchner – cujo governo fez do país um trem descarrilado rumo a uma profunda crise econômica – a eleição de um economista experiente e amigável ao mercado levou a crer que a segunda maior economia sul-americana finalmente seria posta de volta nos eixos.

No entanto, quase três anos após tomar posse – em dezembro de 2015 – Macri vê sua promessa de trazer o país de volta à normalidade frustrada. O peso argentino já desvalorizou 40% frente ao dólar; a inflação acumulada entre janeiro e agosto deste ano foi de 24,4%, levando os preços ao consumidor registrarem, em agosto, uma alta de 34,4% em relação ao mesmo período do ano passado.

A continuação da crise enfureceu a população e na última terça-feira, 25, culminou numa greve geral. Mas o que deu errado nos planos de Macri?

Raízes da crise

Há pouco mais de dez anos, em 2006, a Argentina colhia os frutos do boom das commodities, que permitiu ao país quitar a dívida que contraiu com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O pagamento da dívida era um objetivo do então presidente Néstor Kirchner (2003-2006). As raízes da dívida com o fundo remetem ao governo de Carlos Menem (1989-1999), que na década de 1990 implantou um regime de conversibilidade cambial, que fracassou e culminou na crise de 2001.

O pagamento da dívida trouxe alguma estabilidade para a economia argentina, e após o término do governo Kirchner a população elegeu sua esposa, Cristina Kirchner, como sucessora. Durante sua gestão, de 2007 a 2015, Cristina elevou os gastos públicos, nacionalizou companhias, impôs pesados subsídios do governo a itens da vida cotidiana, desde serviços públicos a transmissões de futebol na televisão. Seu governo passou a controlar a taxa de câmbio, o que criou uma série de problemas – como a criação de um mercado negro de dólares e a distorção de preços.

Em 2015, quando chegou ao poder, Macri se comprometeu a reverter esse cenário de caos, que levou a Argentina a ser listada em relatórios de observação do FMI – uma vez que o órgão não confiava nos dados econômicos divulgados pela Casa Rosada. A proposta de Macri era cessar as distorções de dados e fazer da Argentina novamente uma economia de mercado, onde a demanda e a oferta, não o governo, definiriam os preços.

Esforço por parte de Macri para consolidar suas propostas não faltou. Logo em seus primeiros dias como presidente, ele iniciou conversas com credores para renegociar a dívida argentina e recuperar a confiança dos investidores. Ele também passou a reduzir gradualmente os subsídios para reduzir o déficit fiscal.

O que deu errado?

O corte de subsídios de fato melhorou as contas públicas, mas contribuiu para o aumento da inflação, o que enfureceu a população – que enfrentou um aumento de cerca de 24% na conta de luz; 27,5% no gás; e 50% nas tarifas dos transportes. O furor da população deu início a uma série de greves, organizadas por sindicatos.

Com a inflação fora de controle e o corte nos gastos públicos, o salários não conseguiram acompanhar a alta nos preços, o que resultou em aumento da pobreza. Somado a isso está uma política econômica implantada nos EUA, pelo presidente americano Donald Trump, cujos efeitos extravasam as fronteiras americanas devido ao papel central do dólar no mercado global. O Federal Reserve (o banco central americano) vem aumentando a taxa de juros, o que torna os EUA mais atraente para investidores internacionais, que, por sua vez, podem migrar suas aplicações para o país. No entanto, essa política somada ao dólar fortalecido tem pressionado a economia de países emergentes, como a Argentina, que tem grande dependência do dólar em suas transações, como apontou um recente artigo da revista Foreign Affairs.

“Muitas economias emergentes estão sob pressão, mas a Argentina e a Turquia estão em situação pior. Esses dois países compartilham algumas características importantes que os tornam particularmente vulneráveis a taxas de juros mais altas nos EUA e a um dólar em alta. Eles não poupam muito. Eles não são grandes exportadores. Eles têm longos históricos de inflação em alta. E eles têm muitos empréstimos estrangeiros em dólares, em parte porque seus bancos não têm capacidade para financiar um rápido crescimento sem acesso ao financiamento externo”, diz o texto.

No momento, a equipe econômica de Macri aposta no recente empréstimo de US$ 50 bilhões tomados do FMI. No entanto, o governo enfrenta dificuldades para cumprir as metas impostas pela instituição, uma delas cortar ainda mais os gastos públicos.

Além disso, há divergências dentro da própria equipe econômica de Macri. Na última terça-feira, 25, por exemplo, Luis Caputo renunciou à presidência do banco central argentino, após passar apenas três meses no cargo, substituindo Federico Sturzenegger, que em junho deste ano também pediu demissão. O órgão afirmou que a saída de Caputo se deu por motivos pessoais, mas a mídia local aponta divergências sobre a condução da economia entre Caputo e o ministro da Economia, Nicolás Dujovne.

Caputo foi substituído no cargo por Guido Sandleris, experiente economista que já atuou no Minneapolis Federal Reserve, no banco central do Chile e no FMI. Ao assumir o posto, Sandleris declarou que seu principal objetivo será reduzir a inflação. “É uma honra para mim assumir a presidência do Banco Central da República Argentina e quero agradecer a confiança que o presidente Macri depositou em mim para enfrentar esta nova etapa. O principal objetivo do Banco Central é reduzir a inflação. Trabalharemos para recuperar a estabilidade e a previsibilidade dos preços que a economia argentina tanto precisa”, disse Sandleris.

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