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Os mitos e verdades da nova classe média brasileira

André Torretta, em entrevista a Época Negócios, falou sobre mitos e verdades da classe C

Os mitos e verdades da nova classe média brasileira
Torretta: "A gente não se admite. A gente se recusa a ser pobre" (Reprodução/Época)

O consultor de mercado consumidor da classe C e fundador da consultoria “A Ponte Estratégia”, especializada em estudar e desenvolver projetos para a classe média brasileira, André Torretta, falou sobre mitos e verdade deste público durante entrevista para a Época Negócios.

Torreta é considerado um dos maiores conhecedores da classe C brasileira, que é composta por 170 milhões de cidadãos e chama a atenção de empresas de todos os portes.

Para Torretta, a classe C ainda é um grande desafio para qualquer empreendimento.

Na sua opinião, além da renda, o que diferencia as classes C e D das A e B?
O Brasil das classes C, D e E ainda não está formatado. Já o Brasil da classe A, da nossa ilha de Manhatan, é todo formatadinho.

O que é a nossa Manhattan?
É o centro expandido de São Paulo, que a gente acha que é Brasil. São Paulo não é Brasil. São Paulo é um lugar mais parecido com Nova York do que com o Brasil. A diferença fica clara quando se vai para Salvador, Porto Velho e Ribeirão Preto. Se você vai num restaurante aqui na ilha de Manhattan e em outro, em Presidente Prudente, a diferença do serviço é absurda. Em Salvador então, você chora. Aqui não é referência. Não é parâmetro. E aí começam os problemas, porque o processo decisório está em São Paulo e isso cria um processo de não reconhecimento do Brasil.

O que São Paulo tem que o Brasil não tem ou vice-versa?
A realidade é muito diferente em São Paulo. Quando eu montei a minha empresa tinha gente que me falava: “André, bom esse nicho aí que você está trabalhando”. Mas eu não trabalho com nicho. A classe C é formada por 170 milhões de brasileiros. As classes A e B são apenas 30 milhões. Elas é que são um nicho. O problema é que a gente não se admite. A gente se recusa a ser pobre. Mas a gente é pobre. Pobre no sentido de que não somos os Estados Unidos e não somos a Europa. A Tiffany do Brasil é a única Tiffany do mundo que vende parcelado. Até o nosso rico é pobre.

Essa falta de (re)conhecimento do Brasil atrapalha os negócios das empresas?
Sim. Tem empresário que fala que não quer vender para a classe C para não sujar a sua marca. Eu tenho um cliente que falou que estava na dúvida se ia para a classe C. Aí eu falei: “nos Estados Unidos, você vende para rico ou para todo mundo? No Japão, você vende para rico ou para todo mundo? Por que no Brasil você quer vender só para rico?” Vivemos num país meio maluco. O povo de Higienópolis diz que não quer pobre no bairro. Tem uma conta no Twitter contra pobre no avião da Gol. E esse cara que reclama não é rico. Ele é de classe média alta. Porque se fosse rico mesmo ele andava de jatinho. Durante anos, essas pessoas fingiram que os mais pobres não existiam e nunca fizeram nada para ajudá-los. Em 1928, o energúmeno do Mário de Andrade escreveu Macunaíma e disse que o brasileiro era preguiçoso, malandro e sem caráter. Só que ele era um filósofo. Para ser filósofo hoje a pessoa já tem que ser rica. Para ser filósofo em 1928 a pessoa tinha que ser multimilionária. Os endinheirados queriam contratar os mais pobres por um salário de fome e ainda queriam que o cidadão acordasse de manhã feliz da vida para trabalhar. Agora, esses ricos não têm escolha e vão ter que pagar pela omissão dos últimos 500 anos.

Você acredita que é no Nordeste que está a verdadeira classe C?
É lá que está a nova classe C. É a classe D que virou classe C. A região do Brasil que possui a maior concentração de classe C é o Sul, mas é a classe C que já está lá há 40 anos estagnada. O Nordeste está renascendo. Era a terceira região de maior consumo no país e agora é a segunda. E isso muda demais o jogo para as empresas, porque nenhum empresário de São Paulo deu importância para o Nordeste nos últimos 500 anos.

Mas você acha que as empresas estão mais interessadas em investir no Nordeste?
Agora elas precisam investir lá. O problema é que os executivos não sabem como é lá. Acham até que todo mundo tem sotaque igual. Para o paulista, acima de Minas é tudo baiano. Para o carioca, é tudo Paraíba.

E esse consumidor nordestino é muito diferente?
Demais. E as empresas estão tentando se adaptar a essas diferenças. Algumas companhias abriram filiais em estados nordestinos. Agora estamos começando a ver os produtos se adaptarem ao gosto desse brasileiro. O Tang criou sucos com sabores de frutas locais, a Nestlé criou embalagens menores. Outro exemplo interessante: no Brasil inteiro, 98% da população consome embalagem de sabão em pó de papelão. Mas no nordeste não, é apenas 3%. Lá é diferente, porque as pessoas ainda lavam a roupa no rio e no tanque. E quando a água bate no fundo da caixa, ela dissolve. Nordestino prefere as embalagens de plástico.

As empresas já se adaptaram a esses traços regionais?
As companhias estão mais preocupadas em entender esse fenômeno. A Nestlé criou um departamento para estudar essa classe C. A Coca-Cola também. Tem uma festa em Petrolina chamada “Vai Tomar no Fusca”. É uma festa aonde todo mundo vai para no final participar do sorteio de um Fusca cheio de caixas de cerveja dentro. Tem outra, em Salvador, chamada Apertadinha. É uma festa que começa às dez da noite só com mulheres, que podem beber à vontade, mas não podem fazer xixi. Quando a primeira mulher faz xixi, a cerveja deixa de ser de graça e os homens, que estão esperando do lado de fora, são liberados para entrar. Até pouco tempo, nenhuma empresa queria patrocinar essas festas. Agora isso está mudando, assim como aconteceu nos Estados Unidos, na década de 50. Nat King Cole foi o primeiro apresentador negro da televisão e durante anos ninguém queria patrocinar, com medo de sujar sua marca. No Brasil, durante 500 anos, ninguém quis patrocinar a “Apertadinha”, a “Vai Tomar no Fusca” e outros eventos da periferia, que chegam a ter 30 mil participantes.

Fontes:
Época Negócios - Os mitos e verdades sobre a classe C

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1 Opinião

  1. Jorge Hidalgo disse:

    Gostei muito do artigo. Brilhante pois toca no preconceito que todos temos…eu, inclusive. Mudei-me há pouco para são josé dos campos, que fica a aproximadamente 90 km da capital (são paulo) e tive e tenho choques “culturais” até agora…
    Concordo plenamente, o Brasil não é São Paulo que acha que é Manhattan…mas com tanta ignorância e pobreza não é nem nunca foi nem será Europa ou América do Norte…

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