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Os perigos da demonologia

Ódio por banqueiros é um dos preconceitos mais antigos e perigosos do mundo

Os perigos da demonologia
Desprezo pelos banqueiros tem trajeto histórico (Reprodução/Economist)

Pedradas em banqueiros é um passatempo popular. O movimento de ocupação de Wall Street e as suas várias ramificações se queixam que 1% dos malignos, muitos deles banqueiros, estão prejudicando 99% dos virtuosos. Hollywood tem difamado financistas em “Wall Street”, “Wall Street 2”, “Grande demais para quebrar” e “Margin Call”. Montanhas de livros fazem o mesmo sem usar Michael Douglas. A raiva é compreensível. A crise financeira de 2007-08 produziu a mais profunda recessão desde a década de 1930. A maioria dos financistas saiu da crise ileso. Os maiores bancos estão maiores do que nunca. Bônus estão fluindo novamente. A velha implicância com os banqueiros, que nasce da ideia de que eles acreditam no capitalismo quando se trata de embolsar os lucros e no socialismo quando se trata de pagar as perdas, é válida. Mas é perigoso que essa reação vá longe demais? A crítica pode deixar de ser justa e acabar em prejuízo? E poderia esse prejuízo destruir governos? Um olhar sobre a história sugere que deveríamos estar preocupados.

O desprezo pelos banqueiros tem um longo trajeto. Jesus expulsou os cambistas do Tempo. Timóteo nos diz que “o amor ao dinheiro é a raiz de todo mal”. Muhammad proibiu a usura. Os judeus se referem aos juros como uma mordida. A Igreja Católica proibiu a ganância em 1311. Dante mandou os agiotas para o sétimo círculo do inferno, também povoado pelos habitantes de Sodoma e “outros praticantes do pecado”.

Durante séculos, o ódio de agiotagem, de o dinheiro gerar mais dinheiro, andava de mãos dadas com um ódio de afastamento das origens. Os governos reclamavam que era mais difícil conseguir os impostos dos agiotas do que dos proprietários de imóveis. Em uma crítica contra a família bancária Rothschilds, o poeta alemão Heinrich Heine, disse que o dinheiro é “mais fluido que a água e menos estável que o ar”.

Esse preconceito tem se mostrado perigoso. Sem dinheiro, as rodas do comércio viram lentamente ou param. Civilizações facilitaram a agiotagem enriqueceram. Aqueles que a retiveram estagnaram. O século XV, o norte da Itália cresceu quando as famílias de banqueiros encontraram maneiras de contornar as regras. Liderança econômica passada para a Europa protestante, quando Lutero e Calvino fizeram agiotagem aceitável. Como a Europa evoluiu, o mundo islâmico, que proíbe a usura, permaneceu na pobreza. Na Europa, o PIB global é de 11,1%, em comparação com 8,6% do Oriente Médio. Em 1700, a Europa detinha uma quota de 13,5%, comparado com 3,4% do Oriente Médio.

A ascensão bancária tem sido muitas vezes acompanhada por um florescimento da civilização. Artistas e acadêmicos que protestam contra os “agentes do Apocalipse” também podem aprender com a história. Grandes centros financeiros têm sido muitas vezes grandes centros artísticos, como Florença, no Renascimento em Amsterdã, no século XVII em Londres e em Nova York hoje. O que seria de Soho, em Nova York, sem a Wall Street? Ou das grandes universidades norte-americanas sem o fluxo de dinheiro em seus cofres?

O preconceito contra financistas pode causar danos não econômicos também. Ao longo da história, agiotas têm sido perseguidos. Minorias étnicas viram alvo de perseguição, o caso mais conhecido são os judeus na Europa e América, mas também os chineses na Ásia. Ás vezes, a contrariedade aos banqueiros adquiriu um tom de forte ódio étnico.

Na Europa medieval os judeus foram perseguidos não só porque eles não eram cristãos, mas também porque matá-los foi uma maneira rápida de eliminar dívidas. Karl Marx, que veio de uma família judaica, considerava os judeus a materialização do capitalismo que só poderiam ser resgatados de sua maldição ancestral através da revolução.  Os falsários dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, queriam que as pessoas acreditassem que os financistas judeus estavam envolvidos em uma conspiração diabólica global. Louis McFadden, um congressista norte-americano de 1930, afirmou que “os gentios têm as tiras de papel, enquanto os judeus têm o dinheiro lícito”. O mesmo tipo de argumento foi usado contra as minorias chinesas em toda a Ásia.

Isso não quer dizer que os manifestantes que ocuparam a Wall Street são culpados pelo preconceito étnico: eles pertencem a uma classe e uma geração que em grande parte é livre desse vício. Mas a demonização pode facilmente se tranformar e adquirir novas formas. Na edição de agosto do Journal of Business Ethics, Clive Boody argumenta que o setor financeiro tem sido tomado por psicopatas: “Por pessoas que, talvez devido a fatores físicos relacionados com a conectividade cerebral anormal e química, não possuem consciência, têm poucas emoções e apresentam uma incapacidade de ter qualquer sentimento de simpatia ou empatia por outras pessoas”.

Emoções enjauladas

Os protestos contra 1% da população – especialmente quando muitos deles trabalham em empresas com nomes como Goldman Sachs e NM Rothschikd – podem desencadear emoções difíceis de serem controladas. Uma pesquisa publicada no Boston Review em 2009 descobriu que 25% dos não-judeus norte-americanos culparam os judeus pela crise financeira, com uma porcentagem mais elevada entre os democratas do que republicamos. Ódios étnicos são ainda mais vis em partes da Ásia. A crise financeira asiática de 1997-98 provocou assassinatos de chineses ricos em lugares como a Indonésia. Hoje, a combinação de tempos difíceis e retórica dura também poderia produzir algo desagradável.

A crise de 2008 mostrou que as finanças globais exigem um remédio mais forte. Os bancos devem ser obrigados a manter reservas maiores. Armas de destruição em massa devem ser neutralizadas. A cultura de incentivos de curto prazo deve ser revista. Mas demonizar os banqueiros não vai resolver esses problemas e pode muito bem, se não for controlado, trazer um monte de feiúra antiga de volta à vida.

Fontes:
The Economist - The dangers of demonology

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