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AVANÇO POR MAR

Por que a China está comprando portos europeus?

Estatais chinesas do setor, que antes se mantinham nas proximidades de seu mercado interno, hoje controlam um décimo da capacidade portuária da Europa

Por que a China está comprando portos europeus?
Representantes da chinesa Cosco inauguram terminal no porto de Piraeus, na Grécia (Foto: Cosco)

As frenéticas aquisições de portos ao redor do mundo pela China vêm deixando potências ocidentais em alerta. De Cingapura ao Mar do Norte, na costa da Dinamarca, estatais chinesas do setor portuário vêm consolidando aquisições num ritmo agressivo que estão redesenhando o mapa do comércio global e da influência política.

Segundo um artigo publicado na revista Foreign Policy, as gigantes chinesas Cosco Shipping Ports e China Merchants Port Holdings vêm adquirindo vastas fatias de terminais portuários no Oceano Índico, no Mar Mediterrâneo e em países costeiros do Oceano Atlântico.

No mês passado, a Cosco finalizou a aquisição de 24% das ações do porto de Zeebrugge, o segundo maior da Bélgica, o que deu à China uma estratégica posição no noroeste da Europa. O negócio foi fechado por US$ 42 milhões. O acordo veio na esteira de outras aquisições na Espanha, Itália e Grécia, todas nos últimos dois anos. Com isso, a estatais chinesas, que antes se mantinham nas proximidades de seu mercado interno, hoje controlam um décimo de toda capacidade portuária da Europa.

O avanço chinês no setor portuário é a ramificação marítima da iniciativa chinesa “Um cinturão, uma estrada” e sinaliza a clara ambição de Pequim de ligar fisicamente a China à Europa, através do mar, de estradas, ferrovias e gasodutos. Em entrevista à Foreign Policy, Neil Davidson, analista sênior da consultora britânica de portos e terminais Drewry, afirma que, a princípio, os acordos parecem fazer sentido financeiramente, mas que “no fundo, há um fundamento político em tudo isso”.

A mesma opinião tem Frans-Paul van der Putten, especialista em China do Instituto Holandês de Relações Internacionais. “O objetivo fundamental parece ser reduzir a dependência da China de elementos estrangeiros e aumentar a influência da China no mundo”, explica Putten.

Esta crescente influência está incomodando muitos na Europa. Com o investimento chinês chegando a patamares absurdos, líderes europeus estão cada vez mais desconfiados de que o presidente chinês, Xi Jinping, esteja tentando transformar o peso econômico da China em propulsão política.

Desde que a Cosco adquiriu 70% do porto de Piraeus, na Grécia, por exemplo, Pequim passou a contar com o auxílio da Grécia para impedir condenações da União Europeia a Pequim por questões que vão desde direitos humanos à disputa territorial no Mar da China Meridional. E a Cosco não é a maior estatal chinesa que atua no setor. A China Merchants Port Holdings opera cargas ainda maiores em portos movimentados de países como Sri Lanka, Djibouti e Brasil.

Por vezes, o fator que leva à aquisição é mais geopolítico que financeiro. O Port de Djibouti, por exemplo, que teve 23,5% adquirido pela China Merchants no ano passado, por US$ 185 milhões, teve um desempenho negativo, quando todos os demais tiveram resultados positivos. Mas o Djibouti é vital para a China, pois é nele que fica a única base naval chinesa em território estrangeiro.

“Em casos de projetos que possam ter um grande valor estratégico para o governo, as firmas podem continuar a adquirir e investir em ativos mesmo quando há pouco ou nenhum valor comercial óbvio”, explica Turloch Mooney, que cobre a seção de portos na consultora IHS Markit.

Agora que as estatais chinesas marcham em direção a portos no Mediterrâneo, com investimentos paralelos no Centro e Leste Europeu, essa desconfiança ficou ainda maior. “A escala dos investimentos da iniciativa ‘Um cinturão, uma estrada’ em setores cruciais significa que a influência política da China nestes países vai aumentar”, diz Mooney.

O avanço chinês levou o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, a propor, no ano passado, um “marco” europeu de controle dos investimentos estrangeiros na União Europeia para proteger os setores estratégicos, como portos. Embora não tenha mencionado diretamente a China, a proposta foi recebida como uma clara resposta às preocupações referentes às aquisições chinesas.

O presidente francês, Emmanuel Macron, foi ainda mais longe em sua visita oficial à China no mês passado, se referindo diretamente às aquisições de Pequim de infraestruturas europeias cruciais e pedindo por um front europeu unido. “A China não vai respeitar um continente, uma potência, quando alguns Estados-membros deixam suas portas livremente abertas”, disse o presidente francês, segundo a agência Reuters.

 

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2 Opiniões

  1. Beraldo disse:

    A China está praticando o capitalismo ocidental.

    Nada mais do que isso.

    Novelinha sem vergonha da Globo: “tudo que você faz um dia volta pra você…”

    Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. carlos roberto silveira disse:

    A vergonha do brasil é ter uma estatal chinesa vir e comprar uma estatal brasileira de energia, pergunte ao temer? qual estatal é mau administra? sim estamos sendo muito mau administrado

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