Início » Economia » Por trás da alta do dólar
Economia

Por trás da alta do dólar

Muito além de um 'fenômeno mundial', valorização da moeda americana frente ao real se deve a duas crises internas que abalam a economia, diz especialista

Por trás da alta do dólar
Dólar ultrapassou os R$ 3,12 nesta segunda-feira, 9 (Reprodução/Internet)

Os economistas que chegaram mais perto de acertar os rumos da moeda americana rodavam modelos que capturavam, no final do ano passado, uma tendência de alta entre R$2,60 e R$2,80 para o primeiro semestre de 2015. Superando qualquer expectativa, na segunda-feira, 9, o dólar fechou a R$ 3,129, sua maior cotação desde junho de 2004. Um dos economistas que chegaram perto da marca, Vitor Wilher, especialista do Instituto Millenium, conversou com o O&N sobre os fatores por trás da rápida desvalorização do real, por que os modelos econométricos acertaram a tendência de valorização do dólar mas erraram o alvo e o que esperar da taxa de câmbio nos próximos meses.

Ao contrário do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que em entrevista à última edição do jornal O Globo caracterizou a valorização do dólar como um “fenômeno mundial”, omitindo qualquer ligação com o cenário doméstico, Wilher vê dois vetores internos como os maiores responsáveis pela deterioração da moeda brasileira: de um lado a crise hídrica, que gerou um forte risco de racionamento duplo de água e energia entre abril e setembro deste ano, o chamado período seco. De outro, a crise política, agravada pela lista de Janot com políticos envolvidos no escândalo da Petrobras.

“É muito nítido que o câmbio segue uma trajetória de desvalorização em função desses dois choques principais. Não dá para ignorar isso nesse momento”, diz Wilher. “O vetor político e o vetor econômico se complementam pra gerar essa deterioração muito forte das expectativas. A taxa de câmbio é particularmente afetada por conta de sua liquidez”.

Fator Lava-Jato

Os últimos desdobramentos da Lava-Jato afetaram profundamente o Congresso Nacional, ameaçando a aprovação do ajuste fiscal, a única manobra capaz de sanar as contas públicas e recuperar a confiança dos investidores no curto prazo, diz Wilher. Diante desse cenário, a economia e suas variáveis estão nas mãos do legislativo, mais precisamente, dos parlamentares do PMDB, que romperam com a presidente, fragilizaram a base de apoio do governo, e que hoje mantém o país em suspense quanto à aprovação do ajuste fiscal. Com tantas incertezas, é difícil prever onde o dólar vai parar.

“Os modelos econométricos não conseguem capturar o problema político que a taxa de câmbio está refletindo hoje”, diz o economista. “A presença de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, por exemplo, na lista do procurador-geral é um fator imprevisível. É muito difícil jogar dentro de um modelo econômico para fazer uma previsão”.

Wilher se arrisca, no entanto, e prevê a continuação desse movimento de desvalorização nos próximos meses. Só não se sabe até quando:

“A estimativa atual é que o dólar encontre um patamar perto de R$3,20, e que continue oscilando nessa linha. A tendência é de forte volatilidade”.

 

2 Opiniões

  1. Igor Alves Ferreira disse:

    Acho que a reportagem deveria ter aprofundado mais sobre a questão do racionamento também. Fiquei interessado em saber qual seria o trajeto da economia durante o período de seca e como afetou o dólar.

  2. Beraldo Dabés Filho disse:

    Vitor Wilher do Instituto Milenium??? Quem está com a palavra é o Joaquim Levy, Ministro da Fazenda.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *