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Resposta para o sistema financeiro está na biologia

Sistemas hierárquicos como os encontrados na natureza ajudariam a melhorar as interconexões e diminuir os riscos do mundo das finanças

Resposta para o sistema financeiro está na biologia
Organização das células poderia servir de modelo pra as ligações do sistema financeiro (Jason Polan)

Ao longo das últimas três décadas, o sistema financeiro global tornou-se mais dinâmico e interligado, mais concentrado e complicado do que nunca. A engenharia financeira parece não conhecer limites para a criação de novos instrumentos que conectam as instituições de novas formas.

Isso é bom? Ou será que a rede resultante financeira é muito complexa? Ou, talvez, complexa no caminho errado? A biologia – que analisa projetos de rede há bilhões de anos – sugere que a resposta à última pergunta provavelmente é “sim”.

Em A Arquitetura da Complexidade, um extraordinário estudo publicado há 50 anos, o economista, psicólogo e pioneiro da inteligência artificial Herbert Simon perguntou: “Por que a natureza, de forma tão consistente, se organiza em hierarquias? Por que tantas de suas criações são concebidas como sistemas de sistemas?”.

Por um lado, ele apontou, estruturas como essa são mais fáceis de fazer e também mais passíveis de alterações benéficas. A hierarquia, em outras palavras, é uma forma de limitar a complexidade no interesse tanto da estabilidade quanto da capacidade de evolução. Simon argumentou que sistemas estruturados desta maneira dispõem de uma simplicidade básica e competitiva.

O crescimento das finanças modernas parece ter violado o princípio de estruturas hierárquicas, e com entusiasmo. Duas tendências nos últimos 30 anos – a fusão dos bancos em instituições enormes, e a explosão dos derivados que os ligam ao redor do mundo – tornaram a rede muito menos modular. Criamos uma vasta trama de interligações com extrema complexidade, mas pouca organização. E ela parece ter tornado o sistema menos resiliente.

Ao contrário de organismos, os sistemas financeiros não foram submetidos à competição evolutiva, da qual apenas os mais fortes emergiram. Nós temos poucas razões para esperar que o que existe seria qualquer coisa próxima do ideal, ou mesmo algo racional.

Para equilibrar estes desenvolvimentos, poderíamos tentar gerir a maneira como os empréstimos ocorrem, de modo a impedir o contágio perigoso. Mais corajosamente, poderíamos tentar estabelecer restrições sobre a própria concentração de nossas redes, em quem está ligado com quem e com que intensidade.

Tanto a alta concentração quanto a alta interconexão contribuem para a ideia de que “tudo está ligado a tudo”, que é o oposto da modularidade, e uma receita para a instabilidade. A engenharia financeira deve aprender a evitar essa arquitetura, tal como a biologia tem feito.

Fontes:
Bloomberg View - Living Cells Show How to Fix the Financial System

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2 Opiniões

  1. cesarious disse:

    A diferença é que os sistemas biológicos se distribuem por funções, que assumem determinadas finalidades.
    Ninguém pergunta por que existe o coração, mas para que serve um coração. Todas as células participam do sistema, cada qual com a sua finalidade. A finalidade substitui a causa e efeito, sem os fins justificarem os meios.
    Não seria a filosofia do ‘cada um por si e Deus por todos’, ou ‘é dando que se recebe’, mas sim, a proposta de cada um com a sua responsabilidade, dentro da sua possibilidade, para o bem comum.

  2. acm disse:

    Muito interessante esse artigo.
    A segunda lei da Termodinamica ja mostrou de ha muito q todo sistema abandonado a si mesmo entra num processo caotico (aumento da entropia).
    E o sistema financeiro, com sua mao invisivel (A.Smith), mostra q de tempos em tempos (ciclos de Kondratiev) a economia degringola (a ultima foi em 2008 e a proxima talvez em 2012 devido aos PIIGS).
    Hoje a mao invisivel de Smith se tornou aquela q bate a carteira dos pagantes de impostos e dos comput do bco central (quant easing).
    Mas os 41 comentarios dos leitores do artigo original (Bloomberg) sao tb muito interessantes.
    Alias, sempre me chamou a atencao a gritante diferenca de nivel entre os comentarios no brasil e em veiculos como Bloomberg, Economist, Le Monde, NYT, WSJ, Reuters etc.
    E continua muito util o O&N divulgando aqui assuntos de bom nivel q correm worldwide.
    Porque neste 3o. mundo os temas principais (diarios) sao os ladroes no governo e nas ruas (e a imprensa esta’ correta ao mostrar como ficou este pais).

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