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Trump e a montanha-russa econômica dos EUA

Por um lado, país registra recorde de empregos. Por outro, enfrenta um Congresso paralisado e o impacto da guerra comercial com a China chega a Wall Street

Trump e a montanha-russa econômica dos EUA
Para analistas, a incerteza política e econômica podem levar ao impeachment (Foto: Flickr/Creative Commons)

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O impasse envolvendo a paralisação do Congresso americano ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira, 4, quando o presidente Donald Trump e líderes do Congresso se reuniram para discutir a negociação envolvendo o orçamento deste ano.

Sem chegar a um consenso sobre o orçamento, o Congresso já completou uma semana com um quarto de suas atividades paralisadas – o que afeta cerca de 800 mil servidores federais.

A negociação está travada por conta da insistência de Trump em exigir US$ 5 bilhões para a construção de um muro na fronteira com o México, uma de suas promessas de campanha. Quando concorreu à presidência, Trump prometeu que ergueria o muro e que o México pagaria pela obra – algo que o país vizinho se recusou a fazer.

Segundo noticiou a Reuters, na última quinta-feira, 3, Trump elevou a pressão sobre os democratas em postagens no Twitter. “Construam o muro”, escreveu o presidente americano. No mesmo dia, em comentários feito a repórteres, ele voltou a tocar no assunto. “Vocês podem chamá-lo de barreira. Podem chamá-lo do que quiserem. Mas, essencialmente, precisamos de proteção em nosso país”, disse Trump.

A pressão, no entanto, não afetou os democratas, que seguem rejeitando a inclusão do muro no orçamento. “Não faremos um muro. […] Não tem nada a ver com política. Tem a ver com o fato de o muro ser uma imoralidade entre países. É uma maneira antiga de pensar. O custo não compensa”, disse a deputada democrata Nancy Pelosi, ao tomar posse como presidente da Câmara – onde os democratas ganharam maioria nas últimas eleições legislativas. O Senado, no entanto, segue com maioria republicana.

Também na noite de quinta-feira, os democratas aprovaram dois projetos de lei para reabrir imediatamente as agências do governo fechadas pela paralisação. O senador Mitch McConnell, líder da maioria republicana do Senado, criticou os projetos de lei, afirmando tratar-se de um “teatro político, não uma criação produtiva de leis”. No entanto, segundo a Reuters, há um mês o Senado aprovou uma legislação idêntica.

O impasse envolvendo o Senado é apenas mais um dos problemas atuais de Trump. Em outro front, o presidente americano enfrenta a ameaça à economia gerada por sua guerra comercial com a China.

Por enquanto, o mercado de trabalho americano segue com o crescimento constante observado desde 2014. Nesta sexta-feira, o Departamento de Trabalho dos EUA anunciou que foram criados 312 mil novos postos de trabalho em dezembro e a taxa de desemprego está em 3,9%. O percentual representa um aumento em relação aos último meses, especialmente em comparação com setembro, quando a taxa de desemprego ficou em 3,7%, o menor patamar desde 1969.

Para, o economista chefe da consultora RSM, Joseph Brusuelas, o aumento no patamar não deve gerar alerta. “As pessoas estão voltando para o mercado de trabalho. E isso é bom”, disse Brusuelas, ao jornal Washington Post.

Porém, Brusuelas afirma que, se a questão da guerra comercial não for resolvida, pode comprometer este progresso. “Você começará a observar uma desaceleração nos investimentos e nas contratações, especialmente por parte de grandes empresas. As grandes multinacionais obtêm aproximadamente metade de suas receitas do setor global”, disse o economista.

Um vislumbre disso foi observado na quinta-feira. A gigante americana de tecnologia Apple registrou uma queda drástica em suas ações, que caíram 9%, um dia após o chefe executivo da empresa, Tim Cook, divulgar um incomum relatório que reduziu a projeção de receita da empresa para o ano fiscal de 2019 de US$ 93 bilhões para US$ 83 bilhões.

O comunicado aponta como motivo direto para o corte de projeção a desaceleração da economia da China, bem como a queda nas vendas de iPhone (carro-chefe da Apple), no país.

Mas, conforme apontou um artigo publicado na revista Foreign Policy, a mensagem principal do comunicado foi a de que a guerra comercial dos EUA com a China finalmente chegou a Wall Street. E o temor de que a queda de ações da Apple se alastre para outras empresas é forte, uma vez que a gigante de tecnologia tem fornecedores e empresas de serviço parceiras que seriam afetados por qualquer turbulência em suas receitas.

A guerra comercial vem afetando tanto a China quanto os EUA. Pesquisas recentes, feitas com base no índice Caixin/Markit Manufacturing Purchasing Managers, mostraram que a atividade industrial da China desacelerou pela primeira vez em 19 meses. Os gastos dos consumidores também caíram desde o final do ano passado. Os EUA também experimentaram uma desaceleração no setor industrial. Segundo o índice Institute for Supply Managemen (ISM), o setor cresceu muito menos que o esperado no mês passado. O índice ISM, que controla a quantidade de atividade industrial que ocorreu no mês anterior, caiu para 54,1 no mês passado, o patamar mais baixo desde novembro de 2016.

O setor de tecnologia não é o único apreensivo. Em novembro do ano passado, a montadora americana General Motors (GM) anunciou que pretende suspender a produção em pelo menos cinco fábricas da montadora na América do Norte e cortar 14 mil postos de trabalho – o que representa mais de 10% do total de 124 mil trabalhadores da GM.

A medida foi anunciada pela chefe executiva da empresa, Mary T. Barra, como uma plano de reestruturação necessário diante da mudança nas preferências dos consumidores e dos impactos gerados pela queda nos lucros decorrente da guerra comercial. Ao anunciar a medida, Barra disse se tratar de um ajuste de velas num momento de ventos contrários.

Para analistas, a incerteza política e econômica pode tornar o impeachment de Trump algo inevitável. Após uma campanha calcada em verborragia, passados dois anos na presidência, Trump ainda não conseguiu absorver o conceito da Realpolitik, no qual noções ideológicas e controvérsias são substituídas por negociações diplomáticas e pragmáticas.

Em um artigo publicado no New York Times, a jornalista Elizabeth Drew, que cobriu o escândalo do Watergate, afirmou que até mesmo o partido republicano – legenda da qual Trump faz parte – está chegando à conclusão de que Trump se tornou um fardo muito pesado para o partido ou uma ameaça muito grande para o país. Segundo a jornalista, se Trump não optar pela renúncia, a pressão por seu impeachment apenas crescerá neste ano.

Drew ressalta que, embora ainda não esteja concluída, as investigações sobre irregularidades nas eleições de 2016 já envolveram Trump, aliados próximos e familiares em escândalos. E a aura de corrupção pessoal envolvendo Trump – e mesmo afetando sua política externa – se fortaleceu, o que contribuiu para a derrota dos republicanos nas eleições legislativas.

A jornalista afirma não crer na teoria de que um impeachment aprovado na Câmara seria barrado no Senado, por conta da maioria republicana na Casa. Isso porque Trump já perdeu o apoio de aliados no partido.

“Republicanos que antes eram firmes aliados de Trump já criticaram publicamente algumas de suas ações recentes, incluindo seu apoio à Arábia Saudita apesar do assassinato de Jamal Khashoggi, e sua decisão referente à Síria [de retirar as tropas americanas do país]. Eles também já lamentaram a saída de [James] Mattis do governo”, disse Drew.

Drew finaliza o artigo afirmando que o caso de Trump é mais grave que o de Richard Nixon, alvo do escândalo do Watergate. Segundo ela, os perigos iminentes de manter um presidente fora de controle na Casa Branca podem levar políticos dos dois partidos, não sem alguma controvérsia, a querer um acordo para retirá-lo de lá.

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