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PLANO GEOPOLÍTICO

‘Um Cinturão, Uma Rota’, da China, é o novo Plano Marshall?

A iniciativa da China, que também tem uma finalidade geopolítica, está sendo comparada ao programa dos EUA de recuperação da Europa pós-Segunda Guerra

‘Um Cinturão, Uma Rota’, da China, é o novo Plano Marshall?
Assim como o Plano Marshall, a iniciativa de Xi Jinping também tem finalidade geopolítica (Foto: Wikimedia)

Há setenta anos, os Estados Unidos criaram o Plano Marshall. Inspirado em um discurso de George Marshall, secretário de Estado dos EUA, na Universidade de Harvard, o programa tinha o objetivo de recuperar a economia dos países europeus devastados pela guerra.

Há quase cinco anos, em uma instituição mais obscura de ensino superior, a Universidade Nazarbayev, no Cazaquistão, o presidente da China, Xi Jinping, descreveu seu plano ambicioso de cooperação econômica. A iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” (UCUR) refere-se a uma série de projetos de investimentos em infraestrutura, comércio, energia, entre outros, em parceria com mais de 70 países, da região do Báltico ao oceano Pacífico.

A iniciativa de Jinping, que também tem uma finalidade geopolítica, está sendo comparada ao programa de recuperação europeia dos Estados Unidos. Alguns sugerem que tem uma abrangência ainda maior. Será possível? O Plano Marshall é sinônimo do pleno exercício da liderança política e da visão de um estadista como George Marshall. De acordo com o sucessor de Marshall, Dean Acheson, o suprimento de alimentos, matérias-primas e equipamentos dos EUA foi descrito por Winston Churchill como o “ato mais generoso da história”. Na época do discurso em Harvard, o caos econômico dominava a Europa. Quando o plano foi concluído, o continente europeu estava prestes a realizar um milagre econômico.

Em termos de recursos financeiros, o Plano Marshall foi modesto, como os historiadores econômicos Alan Milward, Brad DeLong e Barry Eichengreen mostraram. De 1948 a 1951, os países europeus receberam cerca de US$ 13 bilhões dos EUA por meio de doações e empréstimos. Hoje, essa quantia equivale a US$ 130 bilhões calculados com base na inflação dos preços ao consumidor, ou menos de US$ 110 bilhões, com base no aumento dos preços. Dividido entre 16 países, a média foi inferior a 2,5% do PIB dos beneficiados.

A ajuda financeira dos EUA aumentou os investimentos e as importações na Europa. Mas Eichengreen calcula que o impacto direto no crescimento econômico foi de apenas 0,3% ao longo da duração do plano. Nem foi o “ato mais generoso da história”. Na verdade, a frase de Churchill referiu-se à Lei de Empréstimo e Arrendamento dos EUA, que ajudou os Aliados de 1941 a 1945.

De acordo com dados oficiais, o investimento da China nos países beneficiados pelo UCUR, com exceção do setor financeiro, foi de US$ 56 bilhões de 2014 a 2017. Na estimativa de Derek Scissors do American Enterprise Institute os novos investimentos chegam a US$ 118 bilhões. Porém, essas cifras não incluem empréstimos do China Development Bank no valor de US$ 180 bilhões no final de 2017 e do Export-Import Bank of China de US$ 110 bilhões no final de 2016.

Esses investimentos ​​já superam os bilhões do Plano Marshall. E o UCUR está começando. Um fórum promovido pelo governo em maio de 2017 avaliou que a China irá investir US$ 150 bilhões nos próximos cinco anos. Segundo as autoridades chinesas, o investimento total é superior a um US$ 1 trilhão.

Mas o Plano Marshall foi concebido com uma visão bem diferente da cooperação econômica do UCUR. Mais de 90% dos recursos destinados ao programa de reconstrução da Europa consistiram em doações do governo dos Estados Unidos e não em empréstimos. Os investimentos do UCUR, por sua vez, originam-se de diversas fontes, inclusive de instituições privadas, com a previsão de retorno para os investidores.

Além disso, de acordo com DeLong e Eichengreen, o programa de recuperação econômica da Europa não se limitou à ajuda financeira e envolveu uma mudança na política econômica. Como requisito para receber ajuda, os países europeus se comprometeram a restaurar a estabilidade financeira e a eliminar as barreiras comerciais.

O Plano Marshall também incentivou os governos a diminuir a inflação e a reduzir os déficits fiscais, com a eliminação dos controles de preços e das barreiras à importação. Antes de 1948, devido ao medo da inflação e da cobrança de impostos elevados, os fazendeiros alemães alimentavam o gado com suas colheitas, em vez de vender os produtos nos mercados locais. As fábricas pagavam os operários em espécie, como lâmpadas ou sapatos fabricados em suas linhas de montagem. Com a estabilidade monetária, a produção e o comércio retomaram o crescimento.

Apesar de ser o cerne da política externa de Xi Jinping, com um volume enorme de recursos financeiros, a iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” não terá o mesmo impacto social, econômico e moral do Plano Marshall na reconstrução da Europa destruída pela Segunda Guerra Mundial.

Fontes:
The Economist-Will China’s Belt and Road Initiative outdo the Marshall Plan?

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