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COSTURANDO ALIANÇAS

Xi Jinping vai a Portugal para reforçar laços com o país

Viagem faz parte da estratégia de Pequim de costurar alianças e estreitar laços num momento que seu principal rival, os EUA, se fecham

Xi Jinping vai a Portugal para reforçar laços com o país
China quer integrar o porto português de Sines à iniciativa ‘Um Cinturão, Uma Rota’ (Foto: Xinhua)

O presidente chinês Xi Jinping desembarcou em Portugal na tarde da última terça-feira, 4, para sua primeira visita oficial ao país.

Feita a convite do presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, a visita tem como objetivo aprofundar os laços econômicos e diplomáticos entre os países. Xi Jinping foi recebido por Souza na sede da presidência da República, o Palácio de Belém, em Lisboa.

Os líderes assinaram acordos bilaterais e deram declarações a jornalistas, que não foram autorizados a fazer perguntas. “Bem-vindo quase 40 anos depois do estabelecimento das nossas relações diplomáticas”, disse o presidente português, que, em seguida, destacou a cooperação cultural, acadêmica e econômica entre os países.

O presidente chinês, por sua vez, afirmou que Portugal é “um grande amigo e parceiro da China” e citou um antigo ditado português para ilustrar as relações entre os países: “Vinho, azeite e amigo, quanto mais antigo melhor”.

China e Portugal completam 40 anos de relações diplomáticas em 2019 – quando será celebrado o Ano da China em Portugal e do Ano de Portugal na China. E o interesse mútuo entre os governos é notório.

Portugal enxerga na China um grande parceiro investidor, que auxiliou o país a atravessar as agruras econômicas geradas pela crise financeira que abalou o mundo após 2008.

Em 2010, quando o antecessor de Xi Jinping, Hu Jintao, visitou Portugal, encontrou um país afundado em dívidas e em recessão. Na época, enquanto outros evitavam investir, a China viu em países em crise uma grande oportunidade para compra de ativos. Portugal foi um deles. O país recebeu quase 6 bilhões de euros em investimentos chineses desde a visita de Hu Jintao, e, segundo informações da AFP, a China, hoje, domina a maior empresa portuguesa de ativos, a Energias de Portugal (EDP), o maior banco privado do país, o BCP, a maior seguradora, a Fidelidade, e a gestora da rede de energia elétrica, REN.

Na visita atual, o presidente chinês mira os interesses em projetos de infraestrutura em Portugal, especialmente a integração de portos. Pequim tem como alvo o porto português de Sines, que deseja integrar a sua iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota”. A iniciativa tem como objetivo reviver a antiga Rota da Seda, conectando o comércio e a integração, através de portos e ferrovias. Com uma expectativa de investimento na casa dos US$ 900 bilhões, em um período de 30 anos, a iniciativa é o maior investimento estrangeiro já tocado por um único governo, e abrange 65 países cortados pela rota.

A proposta de integração de Sines é vista com bons olhos pelo governo português, uma vez que os investimentos chineses dariam ao porto português vantagem sobre seus concorrentes – o porto grego de Pireu, que já está sob controle chinês, e o porto espanhol de Valência. Tal vantagem faria de Sines a principal rota alternativa ao porto de Roterdã, este o principal porto de águas profundas da Europa, previsto para ser o ponto final da nova Rota da Seda chinesa.

Como costuma fazer em viagens internacionais, Xi Jinping enviou à mídia local um artigo onde fala sobre sua visita ao país. Intitulado “Uma amizade que transcende o tempo e o espaço, uma parceria voltada para o futuro”, o texto inicia com uma referência ao poeta português Luís de Camões. No artigo, o presidente chinês aborda a troca cultural entre os países, destacando que é mais antiga que os 40 anos de relações diplomáticas.

“Embora China e Portugal se situem nos dois extremos da Eurásia, a amizade entre os seus povos remonta a longa data, e torna-se cada vez mais sólida com o decorrer do tempo. Centenas de anos atrás, a porcelana azul e branca da China atravessou os mares e chegou a Portugal, onde, combinada com as técnicas locais, deu origem ao azulejo português, que tem um encanto próprio”, diz Xi Jinping no texto.

No artigo, o presidente chinês destacou a necessidade de reforçar o multilateralismo, a abertura e a inclusão. Embora não cite diretamente, a mensagem faz clara oposição à agenda protecionista do presidente americano Donald Trump.

Na contramão da tendência anti-globalização que vem tomando alguns países, como os EUA, a China vem costurando alianças, estreitando laços com outros governos e aproveitando o vácuo deixado por grandes potências para expandir sua zona de influência.

Em julho deste ano, por exemplo, Xi Jinping iniciou um estratégico tour pela África, continente mais populoso do mundo, que vem sendo ignorado pelos EUA, seu principal rival econômico.

Muitos países veem com desconfiança essa movimentação chinesa. A própria União Europeia (UE) tem planos para controlar o fluxo de investimentos chineses em países europeus, algo que Portugal é contra. A proposta de controle foi alvo de debate no bloco nesta semana.

Na ocasião, o primeiro-ministro português, Antonio Costa, se disse aliviado pelo fato da proposta da UE não prever direito de veto aos investimentos. “Nunca fomos muito favoráveis [à proposta]. Felizmente, a versão final deste acordo não prevê nenhum direito de veto. Em Portugal, não estamos preocupados com a origem do investimento estrangeiro. A UE não deve tomar o caminho do protecionismo para regular a globalização”, disse Costa.

 

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