Início » Vida » Comportamento » Como escapar da mentira na era da desinformação
FAKE NEWS E PÓS-VERDADE

Como escapar da mentira na era da desinformação

Na era da pós-verdade, onde a emoção se sobrepõe à razão, notícias falsas ou deturpadas tornam difícil discernir verdade de mentira

Como escapar da mentira na era da desinformação
Imprensa precisa assumir seu papel no combate à desinformação (Foto: Public Domain Images)

“No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso”. A frase, do filósofo francês Guy Debord, faz parte do livro “A Sociedade do Espetáculo” (1967), um dos ícones das manifestações político-sociais da França de maio de 1968, ano marcado por protestos, rebeldia estudantil, contracultura e transformações políticas.

Hoje, décadas depois, o mundo atravessa um novo período de ebulição. Crises financeiras, políticas e humanitárias, o freio na globalização e o avanço do nacionalismo criaram um ambiente caótico, de opiniões polarizadas, onde a emoção se sobrepõe à razão, tornando difícil discernir verdade de mentira.

Foi assim que entramos na era da pós-verdade, na qual crenças pessoais têm mais importância que fatos em si. Para entender esse fenômeno, o Opinião e Notícia conversou com o filósofo Pedrinho Guareschi, professor de psicologia e comunicação da UFRGS.

Guareschi explica que na era da pós-verdade a pessoa busca aquilo que ela já acredita. A informação é válida contanto que seja um retrato das próprias opiniões. Somado a isso, está o imediatismo contemporâneo e o bombardeio diário de informações, que gera uma sensação de indiferença e desinteresse em aprofundar algum assunto. “Tudo está em situação de passagem. Tudo vale para este momento. Então, diante dessa avalanche, desse bombardeio de informações, as pessoas ficam apenas na ‘primeira água’. Não se detêm mais em querer conferir as coisas”.

Segundo o filósofo, as ferramentas de inteligência artificial têm um papel crucial nisso. Hoje, as empresas de tecnologia dispõem de mecanismos, conhecidos como algorítimos, capazes de rastrear os termos mais buscados na internet, analisar o perfil dos usuários online e oferecer a eles conteúdos alinhados a sua personalidade. É o chamado “filtro-bolha”, fenômeno analisado pelo escritor americano e cofundador da avaaz.org Eli Pariser, no livro “O Filtro Invisível – o Que a Internet Está Escondendo de Você” (2011).

0-v1aCMXoCJBzQz68K-O isolamento do filtro-bolha 

Em uma análise resumida, o fenômeno do filtro-bolha parte de algorítimos de sites de busca, que memorizam as pesquisas feitas para oferecer em buscas futuras conteúdos alinhados com a personalidade do usuário. Esse mesmo algorítimo capta buscas feitas por amigos próximos da pessoa, oferecendo conteúdos que “talvez sejam de seu interesse”. Além dos sites de busca, esse filtro também é alimentado por informações pessoais fornecidas pelo próprio usuário em redes sociais.

Logo, a internet não é um território tão livre quanto se apresenta, pois cada consulta é previamente balizada pelo filtro-bolha. Assim, recebemos diariamente uma carga de conteúdo que reafirma convicções e paixões, ocultando conteúdos que vão contra as mesmas ou apresentando apenas a parte deles que não nos incomodaria, alimentando assim o fenômeno da pós-verdade.

Guareschi alerta que, no campo da política, isso gera danos alarmantes, pois inviabiliza o debate. “Estereótipos, preconceitos e ideias políticas são reproduzidos repetidamente todos os dias, várias vezes, deixando as pessoas ainda mais confirmadas em suas convicções e difíceis de mudar de ideia. Foi o que aconteceu no Reino Unido, no caso do Brexit, e aqui no Brasil, na paixão e ódio em torno de um partido, o PT”.

O Facebook como uma fogueira de vaidades                                                                                           facebook copy

Segundo Guareschi, a vaidade também tem um papel na reafirmação da própria opinião. Tal fato é agravado por redes sociais, em especial o Facebook, que tornam qualquer debate o mais espetaculoso possível. “Acho que a dimensão da vaidade, do querer ser maior, ser visto, é algo presente em todos os seres humanos. O Facebook explora isso de uma maneira extraordinária e até, diria eu, criminosa. Porque você só recebe do Facebook aquilo que interessa a você, o que já agrada narcisisticamente o ego”.

Sem acesso a opiniões diferentes por conta do filtro-bolha, e convicto nas próprias opiniões, o mundo acaba sendo o próprio umbigo e qualquer opinião contrária é rejeitada ou recebida como insulto, gerando debates infantiloides que chegam a ceifar amizades.

fake-newsA popularização das fakes news

Os males causados pelo filtro-bolha são agravados pelo algorítimo do Facebook, que usa o modelo de compartilhamento direto. Enquanto o hiperlink, analisado pelo filósofo Pierre Lévy, nos fazia navegar por diferentes sites, podendo ir de “aluguel de casas em Saquarema” a “tipos de raças equíneas”, em apenas alguns cliques, o compartilhamento traz a notícia pronta para ser repassada, muitas vezes sem sequer ler o conteúdo ou checar se a informação é verídica, criando um terreno fértil para a disseminação das fake news.

As fake news são notícias que usam conteúdo falso para chamar o acesso do leitor para um determinado site ou reafirmar alguma ideia. Capazes de destruir reputações de candidatos políticos, elas se tornaram uma arma para campanhas eleitorais. Se um boato criado sobre um candidato é excessivamente compartilhado, acaba tido como verdade, mesmo se o conteúdo for totalmente falso. E uma imagem manchada, mesmo que injustamente, nunca é totalmente recuperada.

Segundo Guareschi, elas também servem para reafirmar uma determinada ideologia. “Por exemplo, a nossa Janaína Paschoal quando disse que o Putin estava para invadir o Brasil. Claro, como o anticomunismo é forte ainda em muitos brasileiros, nada melhor que dizer que o presidente da Rússia vai invadir o Brasil”


Fugindo do filtro                                                                                                                                              00-popping-the-bubble

E como se proteger da mentira em plena era da desinformação? Em seu livro, Pariser afirma que, para fugir do filtro bolha, deve-se diversificar ao máximo as fontes de informação, evitando entrar sempre nos mesmos sites ou buscar sempre os mesmos assuntos. Outra forma é pesquisar debates com ideias que não necessariamente estejam de acordo com a própria opinião. Tais dicas ajudam a ampliar a visão e a capacidade de debate.

Guareschi também ressalta que é necessário que a imprensa assuma sua responsabilidade no combate à desinformação e resgate seu papel como ferramenta da sociedade. Ele cita duas medidas apontadas em seu livro “O direito humano à comunicação” (2015).

“Primeiro, eu almejaria uma mídia sem patrões, onde os jornalistas fossem livres para estabelecer debates, em vez de escrever conteúdos que agradem os patrões para garantir o próprio emprego. Outro ponto são os chamados formadores de opinião. Jornalistas devem levantar o debate para a população discutir e não ficar dando as respostas. Claro que a imparcialidade é impossível, pois trata-se de um ser humano com visões e valores próprios, mas é preciso chegar o máximo possível dela. Os blogs, em parte, começaram a ‘furar’ isso, pois muitos jornalistas foram constituir o seu espaço para poder dizer o que queriam sem serem subordinados”, argumenta Guareschi.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

2 Opiniões

  1. Márcio Costa disse:

    Viver no mundo midiático já é um problema, daqueles bem qualificados, porém, viver no mundo midiático – totalmente manipulado – é, sem dúvida, um daqueles problemas que fazem Kant se revirar no caixão. E o maior problema é que nossos jovens, meus alunos, filhos de muitos amigos, estão inseridos neste universo sem a devida roupa adequada de astronauta. São alvos fáceis para a incidência dos “raios imorais”. Ótima reportagem e interessante indicação bibliográfica. Fiquei feliz por encontrar este espaço!

  2. Guto disse:

    Parabéns Mel, excelente texto, ótima redação.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *