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AUMENTO DO FRETE

A greve e a ‘guerra’ entre Correios e Mercado Livre

Precisando do e-commerce para respirar, Correios se veem em luta contra o maior operador do varejo online no Brasil

A greve e a ‘guerra’ entre Correios e Mercado Livre
Batalha entre Correios e Mercado Livre parece longe do fim (Foto: Wikimedia)

Os Correios do Brasil, empresa pública que presta serviço capital à população do país, detendo o monopólio da distribuição de cartas, telegramas e malotes, atravessa uma profunda crise, com suas contas fechando no vermelho nos últimos cinco anos, sendo que o prejuízo ultrapassou a casa dos bilhões nos últimos dois anos, em 2016 e 2017, e com seu pessoal reduzido em 20 mil pessoas nos mesmos últimos cinco anos; passa, por essas e por outras, e além do mais e agora mesmo, uma greve dos seus funcionários.

Há quase um ano, quando o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, levantava a hipótese de privatização da empresa – após uma série de reportagens na Rede Globo sobre a decadência dos serviços postais no Brasil -, este Opinião e Notícia publicava uma reportagem mostrando que a crise pela qual passava os correios de outros países por causa, em um grande resumo, da substituição da carta pelo e-mail, vinha sendo enfrentada precisamente pela via de outra realidade trazida pela mesma internet que lhe castigara a relevância: o e-commerce. Mostrávamos, naquela reportagem, como o caminho mais razoável a se seguir era o do investimento em soluções que acompanhassem o boom mundial do e-commerce, buscando o protagonismo nacional na prestação de um serviço que, cada vez mais, se revelava um sucesso financeiro.

Naquele feito, dizia a reportagem do O&N:

“Enquanto isso [enquanto os Correios do Brasil dormiam no ponto], os grandes operadores do e-commerce nacional voltam-se para as transportadoras. A B2W, empresa dona das lojas Submarino e Americanas.com, adquiriu há não muito tempo duas transportadoras especializadas em entregas de pequenos volumes. O WalMart tem seus centros de distribuição no Brasil operados pela FedEx. Nenhum grande varejista do comércio eletrônico brasileiro, com exceção do Mercado Livre, entrega mercadorias pelos correios”.

Pois agora, quase um ano depois, é justamente com o Mercado Livre que os Correios do Brasil se veem às voltas com um imbróglio colossal. No último 27 de fevereiro os clientes do maior operador do varejo online no país receberam um e-mail não de confirmação de entrega, não de convite para voltar ao site e finalizar uma compra que ficara pelo carrinho, mas sim de convocatória de luta contra a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, mais precisamente contra o “Frete Abusivo” que ela intentava impor, instando, o ML, seus usuários a espalharam internet afora a hashtag #FreteAbusivoNão.

“No próximo dia 6, os Correios vão fazer uma entrega que ninguém quer receber. Vão entregar um aumento abusivo que pode chegar a até 51% no frete dos produtos a todos que compram e vendem pela internet. Mas se a inflação do último ano foi em torno de 3%, como pode o aumento da taxa de entrega chegar a ser até dezessete vezes maior? Para dar uma ideia do abuso, este aumento fará o frete brasileiro ser 42% mais caro do que o da Argentina [onde o ML acaba de anunciar uma política de frete grátis], 160% mais caro do que o México e 282% mais caro do que o da Colômbia (países em que também operamos). Ao escolher repassar os custos da sua ineficiência operacional, os Correios causam um retrocesso na forma de comércio que mais cresce no mundo”, dizia a mensagem.

Atacar o problema ou atacar direitos?

Os Correios negaram que o PAC e o Sedex teriam aumentos que poderiam chegar a 51%, dizendo que “a média [de aumento] será de apenas 8% para os objetos postados entre capitais e nos âmbitos local e estadual, que representam a grande maioria das postagens realizadas”. Quatro dias mais tarde, em 2 de março, um novo e-mail disparado pelo Mercado Livre pedia que seus clientes imprimissem uma grande etiqueta preta e amarela com a hashtag da campanha para colar nas encomendas que fossem despachar nas agências da empresa:

“Como você já sabe, no próximo dia 6 os Correios vão aumentar em até 51% o valor dos fretes. Mas nós temos o poder de fazer os Correios espalharem mensagens de protesto contra eles próprios. Em todo produto que você for enviar, escreva ou cole a etiqueta com a hashtag #FreteAbusivoNão na embalagem. Dessa forma, colocamos o protesto dentro dos Correios. Apenas pressionando podemos fazer com que voltem atrás. Participe você também”.

No dia 5 de março, véspera da data prevista para entrada em vigor dos novos preços para PAC e Sedex, a juíza Rosana Ferri, da 2ª Vara Federal Cível de São Paulo, emitiu liminar, a pedido do Mercado Livre, suspendendo o reajuste. O ML comemorou com novo e-mail enviado à clientela: “Por causa da sua ajuda, o Mercado Livre conseguiu uma liminar provisória contra a imposição do aumento abusivo do frete pelos Correios, que aconteceria nesta terça-feira, 6 de março”.

O que o Mercado Livre não disse lá muito claramente é que a decisão judicial dizia respeito apenas às postagens de encomendas feita pela sua plataforma. O que a campanha do Mercado Livre não mencionou nem de raspão ao longo de todos esses dias, ao convocar um exército de consumidores para uma guerra aberta contra um índice de aumento do frete que os Correios dizem não ser real, é que a empresa, o ML, vem amargando quedas drásticas nos lucros (de 89% em 2017); que se vê, agora mesmo, acossada pela expansão dos nichos de vendas da Amazon no Brasil, que há poucos meses passou a disponibilizar, e deixa vendedores individuais disponibilizarem (o que é o próprio modelo de negócio do Mercado Livre) produtos como eletrônicos e utilidades domésticas; e o quanto um aumento dos custos de envio de encomendas, qualquer aumento, de 8% ou 51%, impactaria suas contas numa hora dessas.

Como guerra é guerra, já há relatos que dão margem à especulação de que os Correios já estariam partindo para o contra-ataque, boicotando a postagem de encomendas feitas pelo Mercado Livre. O caso é que, em vez daqueles investimentos para buscar a excelência e para consolidar uma liderança do mercado de entregas de mercadorias compradas pela internet, parece que os Correios do Brasil optaram por atacar a crise tomando atalhos como a redução de pessoal, a consequente redução dos dias de entregas, e o ataque, isto sim, ao direito conquistado por seus funcionários de incluir os pais no seguro saúde, o que desencadeou a greve que, agora, tende a comprometer ainda mais um serviço cada vez mais contestado pela população.

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3 Opiniões

  1. Diogo disse:

    O frete já é muito caro e com esse aumento já não vale mais apena comprar no mercado livre .PIS itens que vc paga 20 reais vc paga quase 30 de frete imagina agora

  2. Renê Henrique disse:

    “Nenhum grande varejista do comércio eletrônico brasileiro, com exceção do Mercado Livre, entrega mercadorias pelos correios.” – Discordo da posição. Moro no interior de Goiás e na realidade, o comércio eletrônico encaminha suas encomendas por transportadores até a capital Goiânia e de lá, despacham, utilizando os Correios, para as cidades do interior do Estado.

  3. Jeffwerson Tavares disse:

    Utilizo os serviços dos correios há muitos anos e foi rara as vezes que tive problemas, mas é triste saber que está em crise e não acompanhou a modernização de sua operação logística, isso é muito ruim para o país, em contra-partida, não sei porque o ML não faz como Submarino e Americanas, daí talvez a vaca dos Correios vá pro brejo de vez.

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