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MANIPULAÇÃO

Fake news: quando as imagens mentem

Avanço de casos de manipulação de fotos e vídeos torna cada vez mais improvável a máxima popular de que ‘uma imagem vale mais que mil palavras’

Fake news: quando as imagens mentem
Prática está sendo usada com maior frequência nas redes sociais (Foto: Flickr/Mike MacKenzie)

O fenômeno das fake news está em alta nas redes sociais. Não é incomum ver notícias sem fontes comprovadas ou de sites obscuros circularem em diferentes plataformas digitais. Com esse alastramento, uma outra prática vem preocupando os usuários da rede: as imagens e vídeos falsos.

Se já é difícil saber quando uma notícia é verdadeira ou falsa, imagine o quão complicado deve ser descobrir se determinada imagem é verídica ou não. Com o avanço dos programas de manipulação de fotos e vídeos, seja ele o Photoshop ou Adobe Premiere, fica cada vez mais complicado acreditar no ditado popular “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

Ao que tudo indica, os vídeos continuarão em ascensão na internet. Segundo uma pesquisa Cisco, o tráfego de vídeo em dispositivos móveis foi responsável por 60% do tráfego de dados apenas em 2016. Além disso, até 2021, o tráfego de dados móveis apenas para vídeos será de 78%. O CEO da produtora Matilde Filmes, Viktor Waewell, apontou a tendência, se baseando na mesma pesquisa, admitindo que isso não vai diminuir.

“A tendência é usarem cada vez mais vídeos. As pessoas simplesmente adoram vídeos. Toda empresa, governo, partido ou organização precisa de vídeos para comunicar e esta é uma grande tendência da comunicação atual. Então, se não estivessem usando vídeos para fake news é que seria estranho, e não vai diminuir”, apontou o diretor geral da produtora em entrevista ao Opinião e Notícia.

Aliado a isso, outra prática que ganhou espaço na internet foram as imagens reais com informações falsas. Como, por exemplo, as diferentes fotos que estão se espalhando nas redes sociais para ilustrar a guerra na Síria, quando, na verdade, pertencem a outros conflitos armados que aconteceram em outros lugares.

“Acho que o nível de consciência sobre as fake news ainda está baixo. Resumindo, a ficha ainda não caiu. Acredito que o limiar será quando os próprios governos ou a grande mídia souberem diferenciar o que é falso. Do ponto de vista do cidadão comum, em vários assuntos e para várias pessoas essa diferença já não existe. O público deve se informar, mas penso que os profissionais de comunicação também deveriam assumir uma posição mais ética”, explicou Waewell.

Dessa forma, o Opinião e Notícia dividiu as principais práticas de imagens e vídeos falsos em quatro categorias.

Leves alterações

O Photoshop já é usado há anos para tratar melhor as imagens, principalmente de pessoas famosas. Por isso, sempre que pegamos uma revista vemos um homem ou mulher normalmente com um padrão de beleza inalcançável. No entanto, até as leves alterações já começaram a ser criticadas, inclusive no próprio meio dos famosos.

Um dos casos mais conhecidos foi da atriz ganhadora de Oscar Lupita Nyong’o, que, em novembro de 2017, fez uma postagem em suas redes sociais criticando a publicação da revista britânica Grazia, que cortou um pedaço de seu cabelo na foto de capa simplesmente por estética.

Outros nomes famosos como de Manu Gavassi, Meghan Trainor, Ana Hickman e Preta Gil também já criticaram o uso de práticas de manipulação de imagens em publicações de revistas, que vão desde o clareamento da pele, até o uso exagerado de “corretores”, deixando as imagens superficiais.

Em maio de 2017, um pontapé inicial foi dado para que essa prática deixe de ser comum. Na França, as revistas passaram a ser obrigadas a avisar caso sejam realizados retoques digitais nas fotos.

Já em fevereiro deste ano, a revista esportiva Sports Illustrated apresentou imagens de mulheres sem programas de manipulação de imagem pela primeira vez na sua história, quebrando um paradigma.

Imagens com informações falsas ou fora de contextos

Outra prática comum nas redes sociais são as fotos com as informações incorretas, categorizando o encontro entre a imagem falsa e as fake news. O caso das fotos da guerra da Síria ganharam grandes proporções na rede, quando o jornal Globo resolveu fazer uma matéria contando a história por trás de algumas figuras que viralizaram nas redes sociais. Na reportagem, algumas das principais fotos que circulavam nas redes foram desmentidas, com as reais informações sendo divulgadas.

O físico Stephen Hawking, que morreu no último dia 14 de março, também não se viu livre de imagens com informações falsas. Circulou nas redes sociais uma suposta foto do físico britânico participando de um protesto, em Londres, contra a Guerra do Vietnã em 1968. No entanto, a foto também foi desmentida.

Um outro exemplo envolve a vereadora assassinada Marielle Franco (PSOL-RJ), alvo de uma onda de fake news espalhadas pelas redes sociais. Uma foto estava sendo divulgada indicando um antigo namoro entre a vereadora e o narcotraficante carioca Marcinho VP. Comprovadamente falsa, a imagem foi compartilhada, principalmente, no Facebook e no WhatsApp. E embora tenha sido rapidamente desmentida, algumas pessoas continuam repassando a foto como se fosse verdadeira.

Rafael Dantas, designer da Dinâmica 360, atento a essa prática, aconselha que os internautas que desejam compartilhar ou divulgar uma imagem de fontes duvidosas pesquisem e procurem maiores informações antes de passá-la adiante. Dessa forma, um efeito fake news é evitado.

“Uma boa dica é procurar notícias sobre a imagem, pessoas ou coisas envolvidas na mesma que realmente ratifiquem a veracidade do que se está vendo e, a partir daí, verificar se a mesma está dentro do contexto veiculado ou se foi usada de forma leviana”, destacou Dantas, em entrevista ao O&N.

Já em relação aos vídeos, não é incomum encontrar gravações cortadas ou com leves edições nas redes sociais. O simples fato de se cortar a fala de um político, por exemplo, já pode mudar totalmente o contexto da linguagem. Para ilustrar a situação, Waewell relembra um caso ocorrido durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

“Durante o processo de impeachment da Dilma havia um discurso corrente sobre a Dilma ser burra ou ter algum problema cognitivo real, então circularam vários vídeos totalmente fora de cotexto, cortes que levavam a esse entendimento. Eu me lembro de um em específico que eu vi no Facebook que mostrava Dilma falando uma frase, interrompendo a si própria e balbuciando, como se tivesse algum problema sério com ela. Porém, no vídeo completo Dilma interrompeu o que estava falando, pois começou a chover muito no lado de fora do galpão em que ela estava discursando e pediu para as pessoas que estavam fora entrarem, uma situação normal do momento. Claramente, a edição foi feita daquela forma por alguém que viu a cena inteira e foi gerada uma notícia falsa”, explica Waewell.

De acordo com o CEO da Matilde Filmes, é fácil criar uma narrativa falsa através de cortes feitos, até mesmo, em diferentes vídeos, e retirá-los do contexto original, confundindo a cabeça de quem visualiza. Dessa forma, Waewell exaltou a importância de sempre pesquisar a respeito do vídeo antes de compartilhar e correr o risco de aumentar um boato.

“Desta maneira, a primeira coisa que a pessoa tem de olhar, quando vê um vídeo, é se ele realmente faz parte daquele contexto, se está fora de contexto, se aparece apenas uma parte específica ou se há alguma mistura de vídeos que não deveriam estar juntos. Pois o uso de partes de vídeos fora de contexto é de longe o jeito mais fácil e comum de gerar um vídeo para fake news, o que é usado com diferentes níveis de sutileza tanto na internet quanto na grande mídia”, destaca Waewell.

Grandes alterações

Enquanto os tópicos anteriores tratavam de assuntos mais comuns, as grandes alterações em imagens já têm um potencial maior de levar grandes problemas aos envolvidos. Isso porque pessoas más intencionadas realmente podem provocar um grande mal-estar dentro de um país caso usem a prática para o mal.

Foto: Pixabay

Foto: Pixabay

As alterações podem ir desde uma mudança em um ambiente, fazendo com que a pessoa que estava, por exemplo, em São Paulo, passasse a estar em Brasília de um segundo para o outro; até a troca do rosto de alguém, permitindo que a face de um presidente estivesse no corpo de outra pessoa, em uma situação totalmente diferente da real.

Felizmente imagem como essas não se perpetuam e são rapidamente desmentidas pela mídia e sites especializados em desvendar boatos criados. No entanto, até que isso aconteça, um grande mal-estar pode ser criado e consequências podem ocorrer.

Imagine, por exemplo, que um político, mesmo que indiretamente – através de terceiros -, queira usar de má-fé e apresente uma imagem suspeita do seu principal rival às vésperas de uma eleição. A chance de que os eleitores indecisos votem nesse “honesto” político será bem maior do que no candidato da oposição, mesmo que a imagem seja desmentida posteriormente.

Não foi incomum, durante um tempo, ver algumas personalidades famosas segurando uma placa com diferentes mensagens, aparentemente escritas à mão, como se a imagem não tivesse sofrido nenhum tipo de alteração. Porém, não é a realidade. Grupos de internautas usavam a mesma imagem, apagavam a mensagem na placa, ou folha de papel branca e escreviam uma nova mensagem.

Para evitar que os usuários das redes sociais sejam enganados por esse tipo de manipulação de imagem, Rafael Dantas chama a atenção para alguns detalhes técnicos básicos da figura, que podem diferenciar uma foto verdadeira de uma falsificada digitalmente.

“É muito importante reparar proporções, se há uma mesma definição em todo o âmbito da imagem, se não há algo distorcido ou que não se assemelhe à realidade do que se vê. Olhar com cautela cada canto da imagem para ver se não há distorção de realidade, desníveis e discrepância de tons e cores nos planos (primeiro e segundo plano) da imagem”, apontou Dantas.

Vídeos fakes

À medida que as imagens deixaram de ser confiáveis como fonte de informação nas redes sociais, os usuários passaram a apostar mais nos vídeos. Porém, nem mesmo eles podem ser mais vistos como totalmente seguros, já que alguns, verificadamente falsos, começaram a ser compartilhados como se fossem reais. Um dos casos mais famosos, que chegou a ser analisado em alguns programas de televisão, mostrava uma águia tentando carregar um bebê.

“Neste caso, dá para ver que a ave descola do vídeo em alguns frames. Também é comum diferenças de balanço de cor e de direção de iluminação. O problema é que o olho de quem faz um vídeo como este é muito mais detalhista do que o do público. Quem faz, vê quadro a quadro. Então pode realmente ficar bem difícil ver a diferença, mesmo para alguém acostumado com analisar vídeos”, explicou o CEO da Matilde Filmes.

Enquanto o exemplo acima parece inofensivo, visto que não tem a intenção de manipular ninguém politicamente, nem todos os casos de vídeos adulterados são feitos dessa forma. Um vídeo que ganhou debate nas redes sociais foi uma sequência de um discurso do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama. Isso porque, apesar do vídeo estar correto, a legenda foi falsificada, fazendo com que muitas pessoas sem conhecimento de língua inglesa fossem manipuladas a acreditar no que estava escrito.

“Este formato de manipulação sonora e legendas trocadas é bem mais fácil de ser feito. No caso de um vídeo, é importante procurar o vídeo original e verificar a sua origem. Além disso, assim como qualquer informação na web, é importante verificar se a informação procede em diferentes mídias, veículos que possuam alguma credibilidade e preferencialmente agências de checagem de fatos”, destacou Viktor Waewell.

Outro caso mais atual tem chamado a atenção, inclusive pelo risco que pode trazer em escala global no futuro. Isso porque, no fórum Reddit, em dezembro de 2017, um usuário chamado “Deepfakes” compartilhou um aplicativo chamado FakeApp, que permite colocar o rosto de qualquer atriz no corpo de uma estrela pornô durante a cena de sexo. Artistas como Gal Gadot, Daisy Ridley e Jessica Alba foram algumas das vítimas.

A plataforma, usando um sistema de inteligência artificial e aprendizado, transformava o vídeo em ultrarrealismo, sendo possível que usuários desavisados acreditassem que determinada atriz estava fazendo uma cena de sexo explícito.

No entanto, o CEO da Matilde Filmes, Viktor Waewell, tranquiliza as preocupações sobre a plataforma ser usada como uma forma concreta de ludibriar os espectadores. Segundo Waewell, apesar do FakeApp já poder ser adaptado para a propagação das fake news, suas funcionalidades ainda seriam limitadas.

“Fique tranquilo, não vão começar a trocar cabeças de maneira a ficar minimamente crível tão cedo. Um efeito visual de troçar cabeças é algo bastante avançado e apenas empresas especializadas poderiam fazer. Você pode conferir o grau de complexidade em um making of de um filme de Hollywood que possua monstros ou em que o ator possua alguma marca, como cicatriz ou ferimento. Estúdios bastante especializados ficam por conta desses efeitos visuais e qualquer coisa pior do que isso gera risada em audiências modernas. Acho que não teremos este problema em um futuro previsível. Por outro lado, a tendência é sim que essas tecnologias se desenvolvam e pode ficar cada vez mais fácil e crível”, aponta Waewell.

Paralelo a isso, até como exemplo de sua grande variedade, o mesmo aplicativo permitiu que usuários colocassem o rosto do ator Nicolas Cage em diferentes filmes, fazendo parecer que o artista realmente estivesse imerso naquele universo.

Foto: Youtube/derpfakes

Foto: Youtube/derpfakes

Dessa forma, não é impossível pensar que, futuramente, usuários mal-intencionados seriam capazes de colocar o rosto de políticos em vídeos vexatórios, promovendo discursos de ódio, racistas ou convocando guerras contra outras nações.

Como recorrer 

O advogado Leonardo Ribeiro da Luz, do escritório Ribeiro da Luz Advogados, explicou que há alguns meios de recorrer caso um internauta veja a sua imagem relacionada a alguma imagem ou vídeo digitalmente manipulado. Segundo o advogado, há dois caminhos para resolver uma situação como essa.

“Um primeiro, que podemos considerar amigável, seria buscar diretamente junto ao responsável pela postagem a sua retirada. Um segundo caminho seria o caminho judicial. É possível o ajuizamento de uma ação cível buscar a imediata interrupção do ato ilícito. O problema é que, em alguns casos, sequer é possível identificar o autor do ato ilícito, já que a imagem pode ter sido postada de forma anônima em redes sociais. O caminho seria, nos termos do Marco Civil da Internet, buscar uma ordem judicial contra o “provedor de aplicações da internet”, uma vez que sua responsabilização só ocorre se, uma vez intimado judicialmente, não tomar as medidas cabíveis”, explica o advogado.

No entanto, Leonardo Ribeiro da Luz explica que alguns casos podem ser mais complicados quando não há ligação direta com o denunciante, como, por exemplo, quando um internauta vê uma imagem ou vídeo manipulados digitalmente, mas no qual ele não está inserido no contexto.

“Nesse caso, a resposta é mais complexa. Se a imagem, embora de outrem, causa a você algum dano – por exemplo, é uma imagem racista – creio ser possível [recorrer judicialmente]. Se a imagem falsa não o atinge diretamente, aí me parece não haver legitimidade no pedido. Caberia à pessoa prejudicada tomar as medidas cabíveis para cessar o dano. De qualquer forma, usar os mecanismos de ‘denúncia’ ou aviso das redes sociais sempre é possível, porém nem sempre efetivo”, finaliza Leonardo Ribeiro da Luz.

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