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Informações de usuários de rede social são disponibilizadas para anunciantes

Há risco de dados serem usados inclusive em campanhas políticas, causando distorções em eleições

Informações de usuários de rede social são disponibilizadas para anunciantes
Disponibilizamos inconscientemente diferentes dados pessoais nas redes sociais (Foto: Flickr)

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Idade, endereço, estado civil, nível de instrução, renda, e-mail, tipo físico, orientação sexual, preferências políticas, gostos musicais, últimas leituras e destinos turísticos, séries e filmes preferidos: todas estas informações pessoais, em maior ou menor grau de detalhamento, são disponibilizadas por nós mesmos em nossos perfis nas redes sociais na internet.

Ao contrário do que muita gente imagina, contudo, o acesso a estes dados não é exclusivo aos nossos amigos e seguidores: empresas e agências de marketing, muitas vezes protegidas pelo anonimato e sem o nosso consentimento explícito, negociam estas e outras informações junto ao Facebook, que faz da suspensão de nossa privacidade o seu principal produto.

“No agregado, esse tipo de informação tem muita utilidade no que especialistas chamam de ‘psicometria’ – estudos de psicologia que se baseiam em dados de muitas pessoas para traçar tendências”, explica Altieres Rohr, especialista em segurança cibernética, ao portal G1.

“A partir disso, são criadas campanhas de publicidade direcionadas para vender produtos, ideias ou candidatos políticos”, conclui.

Quando surgiu, em 2004, o Facebook rapidamente ultrapassou seus principais concorrentes, alcançando em pouco tempo centenas de milhões de usuários. No princípio, o foco da rede estava mais no aumento do número de usuários e no desenvolvimento de ferramentas de interação entre eles, sem se preocupar muito, naquele momento, com a geração de receitas.

Em 2012, no entanto, quando a empresa abriu suas ações para vendas públicas – arrecadando impressionantes US$ 104 bilhões -, Mark Zuckeberg e seus engenheiros de algoritmos desenvolveram formas de monetizar – fazer dinheiro – utilizando justamente os dados destes usuários, que são, hoje, mais de 2 bilhões no mundo todo. Os anunciantes, por sua vez, já ultrapassaram a marca dos 5 milhões.

“A solução foi disponibilizar a montanha de informações que o Facebook reúne sobre seus usuários, de modo a permitir que os anunciantes direcionassem suas mensagens com um grau de especificidade sem precedente em qualquer meio de comunicação”, explicou o jornalista John Lanchester em reportagem publicada pela revista Piauí em 2017.

Eis a explicação de, com tanta frequência, produtos – por exemplo, passagens aéreas para localidades que estamos de fato buscando – nos serem oferecidos em pop ups nas abas de nossos e-mails e no próprio Facebook.

Mas se nesse caso alguns poderiam considerar o marketing da rede até conveniente – qual o mal de oferecer algo que as pessoas precisam e querem comprar? Poderiam argumentar os publicitários -, em outros casos nossos dados são utilizados para finalidades bem mais escusas.

Para começar, na maioria das vezes as pessoas não fazem ideia de que seus dados estão sendo vendidos, para quem ou com que propósito. Um caso famoso foi o de testes no Facebook sobre “com que famoso você se parece?” ou sobre “como você seria se fosse do sexo oposto?”.

No mesmo momento em que os usuários da rede aceitavam os termos de uso destes aparentemente ingênuos testes, concordavam em liberar seus dados para empresas transnacionais que, por sua vez, venderam estes dados para companhias de marketing difíceis de sondar e, em última análise, anônimas.

“Existem várias empresas que usam os testes como ferramenta de coleta de dados de pessoas que estão interessadas em determinada coisa. A partir do momento que eu tenho pessoas que se interessam por esse tema, eu vendo essa base de dados”, explicou à BBC Brasil a especialista em marketing digital Camila Porto.

E essas informações podem vir a serem usadas, por exemplo, em campanhas políticas, direcionando informações para eleitores potenciais e manipulando o resultado final das eleições. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos, na eleição de Donald Trump à presidência da República, e na Inglaterra, no referendo que selou a saída do país do Reino Unido.

Nos dois casos, a empresa britânica especializada em meta-dados (isto é, uma quantidade massiva de informações) Cambridge Analytica foi contratada por políticos para construir o perfil daqueles mais sensíveis a serem convencidos por determinados tipos de argumentos.

Assim, nas eleições presidenciais de outubro, um candidato pode se valer destas mesmas ferramentas para direcionar notícias sobre, digamos, as supostas vantagens da liberação do porte de armas, a necessidade do calote à divida externa ou da importância de se aumentar a idade mínima da previdência para 65 anos, fazendo-as chegar a eleitores predispostos a acreditar nestes argumentos – sejam eles verdadeiros ou não.

Lei quer proteger usuários

Cientes dos riscos implícitos na exposição dos dados de usuários das redes sociais, um grupo de deputados apresentou ao Congresso projetos de leis para regulamentar a atuação do Facebook junto a empresas de marketing.

Os Estados Unidos e alguns países europeus já possuem legislação nesse sentido. Na Espanha, a empresa de Zuckeberg chegou inclusive a ser multada em 2017 em R$ 4,5 milhões por violar dados de usuários – prática que, no Brasil, acontece impunemente.

De autoria do deputado Nelson Marchezan Junior (PSDB), o PL 5276/2016 dispõe sobre as regras que as redes sociais devem seguir ao lidar com dados de usuários.

Ele prevê, entre outros, que nenhuma informação poderá ser utilizada sem o conhecimento dos usuários, que devem ser notificados também sobre a finalidade da coleta de dados. Ainda, o Facebook deverá garantir o livre acesso ao titular das informações sobre o que foi coletado sobre ele e porquê. Em caso de descumprimento destas regras, empresas poderão ser multadas, como ocorre já na Espanha.

Na contramão dessa proposta, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), já negocia com empresas a liberação dos dados dos usuários do Bilhete Único na cidade, que somam cerca de 15 milhões. A ideia da prefeitura é vender as informações para empresas de publicidade, como faz o Facebook, usando o dinheiro para financiar parte do sistema de transporte de São Paulo.

Dúvidas sobre a fiscalização do processamento das informações e com os fins que a elas serão dados, contudo, apontam para as muitas polêmicas que envolvem a proposta de Doria.

 

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