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A MULHER PELA MULHER

Uma nova perspectiva sobre o feminismo

De pecadora bíblica ao seu próprio padrão de beleza. Como o feminismo mudou a forma como as mulheres enxergam umas às outras

Uma nova perspectiva sobre o feminismo
Controvérsias e desinformações geram confusão sobre os ideais feministas (Foto: Amanda Nakao)

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. A frase é da escritora francesa Simone de Beauvoir, um ícone global do feminismo. Com ela, a escritora quis dizer que a mulher é resultado de uma construção social, fundamentada em todos os processos aos quais foi submetida.

No Brasil, o feminismo se iniciou no século XX, com mulheres lutando pelo direito à educação, ao voto e pela abolição da escravidão, num país cuja sociedade tem raízes patriarcais. Hoje, no século XXI, as demandas são outras, mas, como aponta ao Opinião e Notícia a escritora e socióloga Marília Lamas, o feminismo continua sendo uma resistência “forte, articulada, potente e combativa” pelo direitos das mulheres.

Porém, antes da palavra “feminismo” ganhar destaque no vocabulário brasileiro, muitas mulheres já possuíam ideologias feministas, mas não participavam do movimento. O preconceito e o fato de ser uma ideologia, por vezes, tachada de “agressiva” contribuíram para essa adesão, digamos, extraoficial.

“Desde o início do século XX, mulheres marcharam para conquistar o direito de votar e para exigir melhores condições de trabalho. Hoje, as netas e bisnetas dessas mulheres se organizam, especialmente via internet, para lutar por temas como os direitos reprodutivos, a liberdade sexual, o fim do assédio. Lançam hashtags que viram movimentos, atos públicos, passeatas, petições, pressão. O discurso feminista se fortaleceu imensamente nos últimos anos e ganhou adeptas cada vez mais jovens”, explica Marília Lamas.

A socióloga ressalta que, apesar das muitas conquistas obtidas pelas mulheres, o caminho ainda é longo – e o cenário à frente gera receio de retrocesso. “O cenário nunca foi exatamente favorável à igualdade de gênero no Brasil. Tivemos importantes conquistas, é claro, mas ainda há muito caminho a percorrer. Por exemplo, dados do IBGE mostram que, em 2016, as mulheres dedicaram cerca de 73% a mais de horas aos afazeres domésticos que os homens. A diferença nos rendimentos mensais também preocupa: apesar de mais qualificadas – o percentual de população com ensino superior completo é maior entre as mulheres do que entre os homens –, as mulheres brasileiras têm rendimento médio de R$ 1.764, contra R$ 2.306 dos homens”, relata Marília Lamas.

Foto: Amanda Nakao

Foto: Amanda Nakao

Marília Lamas também destaca a importância da representação feminina na política, frisando que o tema ainda é um grande desafio para o Brasil e que a situação corre o risco de piorar no próximo governo. “A partir de 2019, seremos apenas 15% da Câmara – isso porque a presença feminina cresceu 51% no último pleito. Das 81 cadeiras do Senado, apenas 7 são ocupadas por mulheres. Além disso, é impossível falar em representação política sem ressaltar que, com a eleição de Jair Bolsonaro, torna-se ainda mais importante o debate sobre a igualdade de gênero no Brasil. Bolsonaro defende ideias conservadoras com veemência. O fato de uma pessoa com esse discurso ter alcançado o cargo máximo da gestão pública tem um forte peso simbólico, pois legitima o machismo na sociedade”, explica Lamas.

Lamas cita como exemplo o episódio envolvendo a apresentadora Fernanda Lima – que foi atacada por um apoiador de Bolsonaro após fazer um discurso feminista em seu programa “Amor e Sexo”, da Rede Globo. “Se isso aconteceu com Fernanda, que é uma mulher cercada de proteções por ser branca, famosa e pertencente a uma elite, o que não pode acontecer com as mulheres negras e periféricas que ousem protestar?”, questiona Lamas.

Ao falar sobre os tabus que envolvem a mulher, a socióloga destaca que a construção social em torno delas apresenta o sexo feminino como ruim, maléfico, traiçoeiro e destinado a competir. Ela ressalta que a construção dessa imagem começa desde a bíblia, onde Eva é apresentada como o fator que levou Adão à perdição. “Mas não foi apenas a Adão que Eva prejudicou: a narrativa do Gênesis tem profundas implicações sobre a imagem que se faz da mulher até hoje”, explica Lamas.

Lamas lembra que a sociedade exalta a chamada “solidariedade masculina”, enquanto relega às mulheres uma imagem competitiva, reforçada até mesmo por outras mulheres. “Desde pequenas, mulheres são incentivadas a competir umas com as outras: a serem mais bonitas, mais charmosas, melhores que as outras. Meninas que mal saíram das fraldas já participam de concursos de beleza e veem suas mães competindo com suas tias por motivos diversos. Não é só isso que aprendemos sobre nós mesmas desde a infância. Ouvimos também que não se pode confiar em mulher, enquanto os homens são amigos fiéis”.

Porém, o avanço do feminismo vem abrindo margem para a desconstrução dessa imagem. Hoje, as mulheres sabem que contam com o apoio uma das outras. “O feminismo, hoje, estimula esse sentimento entre as mulheres ao ressaltar a importância de cuidarmos umas das outras. Temos visto surgir um senso de coletividade e comunidade muito forte que se traduz em frases que se multiplicam pelas redes, como ‘Mexeu com uma, mexeu com todas'”, explica Lamas.

(Foto: Amanda Nakao)

(Foto: Amanda Nakao)

A ideia de Lamas é compartilhada pela secretária executiva Rebeca Dias, da Match Latam. Dias reconhece que, antigamente, também compactuava da ideia de que mulheres são competitivas entre si, mas, aos poucos, identificou a raiz desse comportamento: a insegurança.

“Antes havia uma competição de mulheres, seja por beleza, status ou atenção, principalmente envolvendo homens. Nós fomos ensinadas desde muito novas a competirmos com mulheres. Fomos ensinadas a sermos inseguras”, diz Rebeca.

Hoje, ela diz perceber uma mudança no comportamento das mulheres, que deixaram de assumir a pecha de competitiva – por vezes estimulada em músicas e personagens de filmes caricatas – para se tornarem mais próximas.

“Com o avanço do feminismo, principalmente nas redes sociais, conseguimos cortar o mal pela raiz. Uma mulher segura não precisa competir com ninguém. O feminismo traz de volta a segurança de muitas mulheres, sem impor um padrão de beleza e mostrando que existem mil formas diferentes, e nenhuma delas precisa agradar ninguém”, diz Rebeca, que hoje se considera feminista.

Além de frases que exaltam a união, outras como “Meu corpo, minhas regras”, também compõem esse feminismo contemporâneo, onde o corpo é a questão central, e a mulher – a dona – pode fazer o que quiser com o mesmo. E isso também se estende ao direito de decidir sobre a própria vida.

A costureira Rafaela do Amor mudou completamente de vida quando se desligou da faculdade de Direito e, finalmente, foi fazer o que ama: costurar. “Fui doutrinada por anos, com gente dizendo como tenho de pensar, agir e até mesmo me vestir. Descobri que não tem de ser assim. Sou livre, tenho as minhas escolhas, decisões e ações, independentemente de alguém me dizer se é certo ou errado”, diz Rafaela.

“Bem Me Quero”, um projeto para todas

É necessário destacar também como a ditadura da beleza influenciou – e a ainda influencia – a vida das mulheres. O universo midiático ainda induz a ter o corpo perfeito, cabelos perfeitos, em suma, ser uma mulher “perfeita”. Porém, essa seria uma busca instintiva ou algo enraizado por ter a vida calcada na cobrança pela perfeição?

Foi para elucidar esta questão que a fotógrafa Amanda Nakao decidiu unir feminismo e fotografia. Com o projeto “Bem Me Quero”, que explora o eco-feminismo – movimento que une feminismo e ambientalismo –, ela retrata as mulheres vistas por elas mesmas, no intuito de mostrar que, juntas, elas são mais fortes.

Foto: Amanda Nakao

Foto: Amanda Nakao

“A vivência surgiu como projeto fotográfico para um ensaio coletivo no dia 8 de março deste ano, o Dia Internacional da Mulher. A intenção era fazer com que as elas se sentissem mais fortes quando juntas e olhassem mais para si com amor e acolhimento. A partir desse encontro, ficou claro para mim o quanto era importante essa união e o quanto precisamos desse espaço para trocas de experiências, conversas e acolhimento mútuo. Uma nova fotógrafa se juntou a mim, minha parceria Júlia, e transformamos o projeto em uma vivência de fortalecimento recíproco, com a fotografia como principal ferramenta para o autoconhecimento, e algumas atividades extras, como Yoga, pintura corporal e danças. As mulheres se conectam e se espelham umas nas outras ao perceberem que todas passam pelos mesmos atritos, mesmo com histórias diferentes”, diz a fotógrafa.

O projeto de Amanda logo chamou a atenção de outras pessoas que quiseram participar. O fato de ser fotografada, sem as amarras de um padrão de beleza imposto, chamou a atenção de muitas mulheres. As fotos não buscam exibir poses e ângulos perfeitos, mas sim retratar a felicidade da mulher com o seu corpo e com sua forma de pensar.

A produtora cultural Frances Will, uma das participantes, tinha ideias já formadas, até canalizá-las para a direção que gostaria. “Me deparei feminista na faculdade, onde entrei em contato e aprofundei meus estudos na internet e em grupos no Facebook. Terminei a faculdade com um Trabalho de Conclusão de Curso sobre mulheres na arte e arte feminista. Feminismo é teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica entre homens e mulheres, ou seja, esse assunto se estende para diversas áreas. O movimento feminista desenvolveu ideias de igualdade que já existiam na minha cabeça. Depois desse contato, meus olhos foram abertos às desigualdades e pressões sociais ligadas à mulher. Perceber que não somos obrigadas a seguir um padrão e ir em busca do verdadeiro autoconhecimento é o que me fez ser quem eu sou hoje”, diz Frances.

Algumas controvérsias e desinformações geram confusões sobre os ideais feministas. É preciso desmistificar tais equívocos, a fim de mostrar que o feminismo busca a igualdade social, política e econômica entre as pessoas. Cada mulher pode ser seu modelo feminino forte para viver.

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1 Opinião

  1. Patrícia Pimenta Brandão disse:

    Fiquei muito feliz com esse projeto fantástico, mulheres unidas realmente são fortes , solidárias e o mundo precisa mas do que deste olhar feminino

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