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O Oriente Médio foi superado pelo Ocidente porque não criou instituições comerciais, diz Timur Kuran
Economia

A “longa divergência” entre Ocidente e Oriente Médio

Livro tenta entender por que região islâmica teve declínio econômico no último milênio

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Em 2002, um grupo de estudiosos árabes produziu um corajoso relatório, sob a proteção das Nações Unidas, sobre os dois principais déficits do mundo árabe: liberdade e conhecimento. O relatório foi seguido de um produtivo debate. Agora, Timur Kuran, um economista turco-americano da Duke University, escreveu um igualmente corajoso livro sobre “como a lei islâmica atrasou o Oriente Médio”. A esperança é de que o resultado dessa publicação seja um debate igualmente produtivo.

Na maior parte de sua história, o Oriente Médio foi tão dinâmico quanto a Europa. Os grandes bazares de Istambul e Bagdá estavam repletos de pessoas em busca da fortuna, fossem elas locais ou viajantes de terras distantes. Mercadores muçulmanos levaram sua fé aos mais distantes cantos do mundo. Em 1770, Edward Gibbon teve pouca dificuldade em imaginar a teologia islâmica sendo ensinada em Oxford e por todo o Reino Unido – se ao menos a batalha de Tours-Potiers em 732 tivesse tido um resultado diferente.

Mas mesmo antes de Gibbon, o equilíbrio do poder já havia mudado. Angus Maddison calculou que no ano 1000, a porção do Oriente Médio no PIB mundial era maior que a da Europa – 10% contra 9%. Em 1700, a porcentagem do Oriente Médio havia caído para 2% e a da Europa, aumentado para 22%.

As explicações tradicionais para esse declínio são todas insatisfatórias. Uma delas é a de que o espírito do islã é hostil ao comércio. No entanto, as escrituras muçulmanas são mais pró-negócios que os textos cristãos. Maomé era um mercador, e o Alcorão é repleto de passagens elogiosas ao comércio. Uma segunda explicação é a de que o islã combate a usura, mas a Torah e a Bíblia também o fazem. Uma terceira explicação – popular no mundo islâmico – é a de que os muçulmanos foram vítimas do imperialismo ocidental. Mas por que uma civilização que detinha tanto poder sucumbiria ao Ocidente?

Em “The Long Divergence” (“A Longa Divergência”), Kuran apresenta uma razão mais plausível. O Oriente Médio foi superado pelo Ocidente porque não criou instituições comerciais – em especial empresas de capital aberto – que fossem capazes de mobilizar grandes quantidades de recursos produtivos e sobreviver ao teste do tempo.

Europeus herdaram a ideia da corporação da lei romana. Usando-a como base, eles também fizeram experiências com parcerias mais complicadas. Em 1470, o clã dos Medici contava com uma equipe permanente de 57 funcionários espalhados por oito cidades europeias. O mundo islâmico não foi capaz de produzir inovações similares. Sob a vigente “lei de parcerias”, negócios podiam ser dissolvidos com um simples impulso de um único parceiro. A combinação de leis generosas de herança e da prática da poligamia significava que a fortuna era distribuída entre vários herdeiros.

Nada disso importava quando os negócios eram simples. Mas a vantagem ocidental cresceu quando eles se tornaram mais complicados. Enquanto instituições dos negócios no mundo islâmico permaneceram atomizadas, o Ocidente produziu corporações cada vez mais resilientes – riscos limitados se tornaram amplamente disponíveis na metade do século XIX – assim como uma série de tecnologias como o método veneziano e os mercados de ações.

O quanto isso importa para os negócios modernos? Desde o fim do século XIX em diante, políticos do Oriente Médio tomaram emprestadas instituições ocidentais para estimular o crescimento econômico. Hoje, o mundo islâmico tem companhias fortes e mercados de ações frenéticos (a capitalização de mercado dos três maiores países da região, Turquia, Egito e Irã, dobrou entre 2003 e 2008). Dubai estende um tapete vermelho para as companhias mundiais, enquanto a Turquia cresce muito mais rapidamente que a Grécia.

No entanto, a “longa divergência” continua a moldar o ambiente dos negócios na região. Obviamente, o Oriente Médio ainda tem um longo caminho a percorrer. A receita per capita ainda é equivalente a apenas 28% das médias norte-americana e europeia. Mais de metade das firmas da região afirma que os acessos limitados à eletricidade às telecomunicações e ao transporte são um problema para os negócios. Os números na Europa estão abaixo de um quarto.

Há sinais mais sutis. Negócios na região permanecem ligados ao Estado, enquanto a sociedade comercial mais ampla é fraca. O Monitor do Empresariado Global sugere que os índices de empresas privadas são particularmente baixos no Oriente Médio e no Norte da África. O índice de percepção da corrupção da Transparency International sugere que a corrupção é amplamente difundida: em 2010, em uma escala de um (que indica o pior nível de corrupção) a dez, os cinco países mais populosos da Europa Ocidental receberam, uma média de 6,5, enquanto os três mais populosos do Oriente Médio registraram uma média de 3,2 (A Turquia registrou 4,4, o Egito 3,1, e o Irã, 2,2).

A sombra cultural

A “longa divergência” também ajuda a explicar um pouco da fúria islamita contra o capitalismo. Sociedades tradicionais dos mais diferentes tipos se sentiram desconfortáveis com corporações que, de acordo com Edward Thurlow, um jurista britânico do século XVIII, “não têm corpos a serem castigados ou almas a serem condenadas”. Mas essa insatisfação ficou particularmente marcada no Oriente Médio. Corporações e outras instituições capitalistas foram importadas por governos progressistas que acreditavam que a região estava frente a frente com uma escolha entre Meca e a modernização. Negócios locais – em particular as de capital intensivo como transporte e manufatura – eram dominadas por judeus e cristãos que tinham a opção de ignorar a lei islâmica.

Os argumentos de Kuran têm amplas implicações para o debate sobre como promover o desenvolvimento econômico. Ele demonstra que a longa ascensão do Ocidente foi baseada em sua habilidade de desenvolver instituições que combinassem trabalho e capital de maneiras inovadoras. A ética do trabalho protestante e a revolução científica sem dúvida fizeram a diferença, mas podem ter sido menos importantes do que se imaginava. Pessoas que querem garantir que o desenvolvimento econômico acaba com raízes profundas nas sociedades emergentes estarão bem aconselhadas para criar o ambiente institucional no qual a instituições desalmadas de Thurlow poderão prosperar.

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  1. jaderdavila the small shareholder disse:

    eu acrescentaria que a ideia branca de fazer menos filhos, acumula capital.
    eu tenho tropa de irmaos, ninguem herdou nada.
    minha filha unica vai herdar tudo que eu juntei.
    comercio todo mundo faz.
    mas a acumulaçao de capital necessaria pra faxer algo grande só é possivel com menos tropa.
    essa briga no cairo agora é pura super populaçao.

  2. Carlos U. Pozzobon disse:

    Creio que a principal diferença entre o Ocidente e o Oriente Médio é que no Ocidente tivemos um desenvolvimento industrial e científico baseado no conhecimento e no empreendimento. Isto constitui um sistema chamado de capitalismo avançado, ou high-tec, em que a sociedade é regida por normas democráticas e as pessoas são educadas no individualismo como forma de progresso, e na cooperação como forma de convivência social.

    O Oriente islamista ficou para trás, porque seu sistema é o semicapitalismo, um sistema onde a atividade econômica se restringe ao mercantilismo e a atividade política tem o carimbo do fascismo. O mercantilismo permite uma certo desenvolvimento, em função do aquecimento das transações e demandas de mercadorias e produtos, mas para por aí. O grande propulsor do desenvolvimento é a pesquisa científica aliada a produção industrial dentro dos ciclos de inovação. Mas isso implica em uma cultura e um conjunto de ideias sociais predominantes, onde a sociedade é regida pelo mérito e o desenvolvimento científico premiado como o destino mais promissor para os jovens.

    No Brasil, como no Oriente Médio, estas ideias são minoritárias, em razão de termos um semicapitalismo estatal que sozinho é responsável por 50% do PIB. Com isso, o melhor negócio não é um PHD, ou doutorado em ciências, mas um cargo político ou um emprego na aristocracia estatal e similares. Com a formação em massa de asnos e todas as variantes de quadrúpedes nas nossas universidades, dificilmente o capitalismo avançado se implantará por aqui. Por enquanto o mercantilismo vai bem, com a demanda aquecida. Nossa vocação é para os produtos brutos, como nos tempos da colônia, tal qual os países islâmicos. Por esta razão o falecido Samuel Huttington dizia que a América Latina não pertence a Civilização Ocidental (O Choque de Civilizações).

  3. Genivaldo disse:

    Além de tudo isso acima narrado ainda existe a loucura religiosa que leva ao terrorismo solapador de vidas o islamismo por onde passa deixa suas vitimas e sua opressão, para uma abertuda dessa como as economias ocidental fica mais dificil.