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CRISE BOLIVIANA

A Bolívia está prestes deixar de ser plurinacional?

Cenas de justiçamento, aversão à bandeira whipala e constantes menções à bíblia pela oposição geram temor de um governo menos plural e mais intolerante

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A crise política que tomou a Bolívia nas últimas semanas tem colocado o país no centro do debate internacional.

De um lado, a oposição acusa o ex-presidente Evo Morales de fraudar as eleições do dia 20; do outro Morales e seus apoiadores acusam a oposição de perpetrar um golpe de Estado. Nesse embate, a oposição saiu vencedora, com a ascensão de Jeanine Áñez à presidência – a senadora se autoproclamou presidente na última terça-feira, 12, sendo reconhecida pelo Tribunal Constitucional da Bolívia em seguida.

Em meio ao imbróglio, dois fatores despertaram a atenção em especial: o justiçamento e a aversão à bandeira whipala, que simboliza os povos indígenas da região do Atacama.

A princípio, cabe destacar o conceito de justiçamento: trata-se de fazer a chamada “justiça” com as próprias mãos, recorrendo a métodos bárbaros e violentos, no intuito de matar ou punir fisicamente uma pessoa.

No último dia 6, um exemplo disso ocorreu em Vinto, uma pequena cidade na província de Cochabamba, região central da Bolívia que se tornou palco de confrontos entre manifestantes pró e contra Morales.

Naquele dia, a notícia da morte de um jovem de 20 anos, em um confronto com apoiadores de Morales, enfureceu um grupo de manifestantes que bloqueava as estradas que davam acesso a Vinto.

O grupo marchou até a cidade e responsabilizou a prefeita local, Patricia Arce Guzmán, pela morte. Filiada ao MAS, Guzmán integrava a base aliada de Morales. O grupo invadiu a sede da prefeitura, ateou fogo ao prédio e dominou Guzmán. Ela foi forçada a se ajoelhar, teve os cabelos cortados à força, foi pintada da cabeça aos pés com tinta vermelha e obrigada a assinar um termo de renúncia. Em seguida, ela foi obrigada a caminhar descalça por quilômetros, dentro de um cordão de isolamento formado por homens mascarados, sob os gritos de “assassina”. Tudo foi filmado e divulgado nas redes sociais.

Outro que foi alvo de ato violento foi o presidente da Câmara, Víctor Borda, que renunciou após ter a casa invadida, incendiada e seu irmão, Marco Antonio Borda, feito refém por um grupo de manifestantes de oposição a Morales. Ao anunciar sua renúncia, Borda pediu por respeito à vida do irmão. “Meu irmão não tem nada a ver com esse assunto, ele tem sua vida à parte [da política]”, disse Borda.

Também tiveram as casas incendiadas a irmã de Morales, Esther Morales Ayma, residente da cidade de Oruro, e os governadores Esteban Urquizu (de Chuquisaca) e Víctor Hugo Vásquez (de Oruro).

Por sua vez, a aversão à bandeira whipala eleva o temor de racismo contra indígenas no país. Quando Morales chegou ao poder, em 2006, se tornou a primeira liderança indígena da história da Bolívia.

A população indígena, que por décadas foi marginalizada, foi integrada nas reformas implementadas na Bolívia, que na Constituição promulgada em 2009 deixou de ser uma República para se tornar um “Estado plurinacional”.

A ideia era unir todos os povos e etnias em torno de um único objetivo: alavancar a economia e reduzir a desigualdade. O objetivo foi alcançado: o país cresceu, desde 2006, a um ritmo de 4,5% ao ano, e a pobreza extrema caiu de 63%, em 2005, para 35%, em 2018. Tais conquistas, porém, foram ofuscadas pela recusa de Morales em deixar o poder.

Nos protestos contra Morales, cenas da bandeira whipala sendo queimada se tornaram comuns.

Além disso, militares apareceram em um vídeo recortando a bandeira whipala de seus uniformes, mantendo apenas a bandeira da Bolívia.

Outra cena que chamou a atenção foi a entrada do líder de direita Luis Fernando Camacho – que usa a religião como propulsor de sua carreira política – no Palácio Quemado, sede do Executivo boliviano, pouco antes da renúncia de Morales.

Acompanhado de outros dois homens, Camacho invadiu o prédio, estendeu uma bandeira da Bolívia no chão, colocou sobre ela uma bíblia aberta e se ajoelhou diante das duas. Juntamente com Carlos Mesa, que disputou as eleições com Morales no dia 20, Camacho foi um dos que mais pressionou pela renúncia de Morales. Nas últimas semanas ele fazia constantes menções ao “poder de Deus” e repetia que “a bíblia vai voltar ao Palácio do Governo”. A estratégia política de Camacho é comparada à utilizada pela bancada evangélica do Brasil, que ganhou força no governo atual. A própria igreja evangélica brasileira acompanha a crise boliviana, segundo noticiou o jornalista Guilherme Amado, da revista Época.

Somada à imagem da autoproclamada presidente Jeanine Áñez, com a bíblia em mãos enquanto fazia seu primeiro discurso como presidente interina, o temor de que o país se voltará para a igreja, se tornado uma espécie de Estado evangélico, se alastrou.

Áñez, no entanto, se posicionou a favor de manter a pluralidade boliviana, em um vídeo compartilhado na conta oficial do Senado, no último dia 12. No entanto, a grande proximidade de Áñez com Camacho lança dúvidas sobre essa declaração.

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3 Opiniões

  1. Dinarte da Costa Passos disse:

    Não há como permitir que um estado de opressão continue! É preciso que os organismo internacionais da ONU intervenha a favor da população boliviana. O que se vê lá é uma elite muito pequena e barulhenta que está tomando o poder de assalto na tentativa de instalar um Estado Fundamentalista. A única coisa que esta bestial Senadora devia fazer é jurar em cima da Constituição do país e não usar uma Bíblia como modelo de governo para as pessoas de diferentes crenças e opinião.

    O Papa tem que intervir, afinal existe lá uma massa grande católicos que não vão dobrar o espinhaço para esses covardes evangélicos. Estamos vivendo tempos de horrores onde se não for tomada medidas cabíveis para conter o fundamentalismo religiosos, em pouco tempo teremos uma espécie de “Inquisição ao avesso” desta vez comandado pelos evangélicos contra as demais denominações.

    Se eles continuarem avançando, logo começaram a decapitar infiéis como fazem os fundamentalistas muçulmanos e aí é tarde demais para segurar estes loucos. A sociedade precisa estar preparada para lutar, impedir e controlar estas ideias xiitas e fundamentalistas que está partindo das maiores empresas religiosas de cada país. O capitalismo encontrou outra forma nova de expandir seus lucros, criar e manter empresas religiosas onde a captação de renda em favor de uma pequena elite está sendo planejada, querem criar uma nação de sacerdotes onde todo o poder seja emanado dos religiosos.

    É MELHOR LUTAR ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS. DEPOIS NÃO RECLAME QUE EU NÃO AVISEI.

  2. Roberto Henry Ebelt disse:

    Quem escreveu este artigo??? O autor n~]ao é mencionado, portanto a fonte não deve ser confiável. Foi escrito com strong leftist bias.

  3. Carlos disse:

    Dinarte, à esquerda é e sempre será a pior solução para América Latina.

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