Início » Internacional » A busca de Evo Morales pela perpetuação no poder
BOLÍVIA

A busca de Evo Morales pela perpetuação no poder

Apesar da escassez de água, das greves e da economia em recessão, os partidários do presidente Evo Morales da Bolívia querem mantê-lo no cargo por tempo indeterminado

A busca de Evo Morales pela perpetuação no poder
Aliados de Morales querem mantê-lo no cargo por tempo indeterminado (Foto: Flickr/Enzo de Luca)

No final de 2016, uma carta de renúncia do presidente da Bolívia, Evo Morales, agitou as redes sociais. Era uma brincadeira divulgada no Día de Los Santos Inocentes, uma versão latino-americana do dia 1º de abril, ou o Dia da Mentira em vários países ocidentais, comemorado na Bolívia em 28 de dezembro. Para a ministra das Comunicações, Marianela Paco, o boato foi “um ataque ao direito das pessoas de terem acesso a informações confiáveis e verdadeiras”.

Na verdade, os aliados de Morales querem mantê-lo no cargo por tempo indeterminado, apesar do resultado do referendo realizado em fevereiro, no qual os bolivianos votaram a favor da proibição de sua candidatura ao quarto mandato em 2019. Em 17 de dezembro seu partido, Movimento para o Socialismo (MAS), indicou seu nome como candidato à presidência na próxima eleição.

O crescimento econômico, que garantiu a popularidade de Morales em grande parte dos 11 anos em que preside o país, sofreu um retrocesso. Escândalos, greves e confrontos entre manifestantes e policiais criaram um ambiente de oposição ao seu governo. No entanto, Morales, o primeiro presidente da Bolívia de origem indígena, ainda é muito mais popular do que seus concorrentes. Quase metade dos eleitores aprova seu desempenho. Ninguém no MAS tem condições de sucedê-lo e a oposição está fragmentada.

Como resultado, segundo a previsão do FMI o PIB deve crescer 3,9% em 2017, um pouco mais do que em 2016, mas bem inferior à taxa máxima de 6,8% em 2013 (ver gráfico). A moeda supervalorizada da Bolívia está prejudicando os produtores de bens de consumo e de matéria-prima, alertou o FMI em dezembro. Os déficits de conta corrente e orçamentários corresponderam a cerca de 8% do PIB em 2016.

A relação de Morales com os sindicatos e os movimentos sociais, que antes lhe deu apoio incondicional, desgastou-se em razão de disputas referentes a projetos de infraestrutura e benefícios concedidos a pessoas com deficiência física. Um conflito sobre a regulamentação da mineração com cooperativas causou a morte de quatro mineiros e o assassinato de um vice-ministro.  A Central Obrera Boliviana, o maior sindicato do país, rompeu com o governo. O MAS perdeu o controle de El Alto, o principal reduto político de Morales, nas eleições regionais de 2015.

Nenhum desses problemas impede que seus aliados conspirem para mantê-lo no poder. Uma opção, sugerida pelo vice-presidente, Álvaro García, seria a renúncia de Morales acompanhada de uma reforma na Constituição. Assim, Morales poderia alegar que seu atual mandato, cumprido sob uma Constituição ultrapassada, não contaria para um dos dois mandatos que lhe é permitido. Ele usou esse artifício em 2014 para concorrer à reeleição.

Mas o presidente diz que seu desejo é retomar a atividade de cultivador de coca, um estimulante tradicional usado como matéria-prima na fabricação de cocaína. Só pessoas inocentes acreditariam em suas palavras.

Fontes:
The Economist-Bolivia’s president chafes against term limits

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. Beraldo disse:

    Se escassez de água, greves e economia em recessão, constituíssem motivo para a queda de um governo, aqui no Brasil…

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *