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Férias soviéticas

A Crimeia na imaginação russa

Quando a maior parte dos russos pensa na Crimeia, o que lhe vem à mente são praias e estâncias que representavam para cidadãos soviéticos algo próximo ao nirvana

A Crimeia na imaginação russa
Quinze dias na ensolarada Crimeia era um privilégio para a elite soviética (Reprodução/RIA)

Abecásia em 1998; Crimeia em 2014: ambos os territórios foram bruscamente tomados pela Rússia – a Abecásia da Geórgia e a Crimeia da Ucrânia. Vladimir Putin anexou formalmente a Crimeia, embora mantenha a Abecásia em um limbo de semi-independência. Mas os dois lugares têm algo a mais em comum: ambos eram destinos de férias da elite durante a existência da União Soviética. Isso pode ser mais do que uma coincidência trivial.

Quando a maior parte dos russos pensa na Crimeia o que lhe vem à mente são praias e estâncias termais do Mar Negro, os quais representavam para muitos cidadãos soviéticos algo próximo ao nirvana.

Para muitos russos do período soviético, as férias significavam uma temporada em estações de retiro próximas às suas cidades natais (ainda é possível visitar esses prédios no entorno de Moscou e em outros lugares, e imaginar como eram essas férias). Quinze dias na ensolarada Crimeia – ou na agradável Abecásia, do outro lado do Mar Negro – era um privilégio reservado na maior parte das vezes a autoridades de alto nível ou trabalhadores empenhados e bem comportados que recebiam tais viagens como prêmio. Havia acampamentos especiais para crianças nos quais os filhos de tais pessoas eram doutrinados de acordo com os fundamentos do materialismo dialético, mas onde também curtiam as delícias inebriantes do flerte da juventude e da liberação da supervisão paterna. Para todos eles, ambos os lugares significavam exotismo, calor e liberdade. Mesmo aqueles que nunca tinham ido à Crimeia ou à Abecásia conheciam a reputação desses lugares e desejavam frequentá-los.

Impressiona o fato de essa relação ter sobrevivido na era pós-soviética, quando russos abastados passam férias na Côte D’Azur e muitos outros na Turquia e Itália, onde as atrações costumam ser muito mais atraentes. Mesmo as pessoas mais sofisticadas ainda ficam com os olhos cheios de lágrimas quando descrevem como costumavam roubar tomates das instalações das autoridades do Partido Comunista na Crimeia dos anos 1970. Seus sentimentos em relação à península são determinados não pelas circunstâncias contemporâneas, mas sim pela escassez das alternativas na era soviética. Como outros objetos da nostalgia soviética – receitas queridas, músicas antigas e até a vitória contra os nazistas, a mais sagrada das conquistas russas – essa nostalgia da Crimeia revela o quão escassas são as boas memórias da Rússia do século XX. Em outras palavras, trata-se menos de uma reflexão sobre o passado distante e imperial da Rússia, com seus príncipes e conquistas, e mais sobre a aridez do passado recente.

E talvez haja outro aspecto mais universal para essa nostalgia, tanto pela Crimeia quanto pela Abecásia, algo íntimo e vulnerável por trás da retórica belicosa e dos homens ameaçadores de Putin: a saudade da infância perdida e o desejo de manter vivas as lembranças de lugares e tempos perdidos – até mesmo por meio do implante brusco dessas lembranças no presente russo.

Fontes:
The Economist-In search of lost time

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1 Opinião

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