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A crise habitacional da Irlanda

A Irlanda, um país que se orgulha de seus princípios de justiça social e de ideias progressistas, enfrenta uma grave crise de moradia

A crise habitacional da Irlanda
Quase 700 famílias perderam suas casas em Dublin este ano (Foto: Public Domain Pictures)

A enorme oferta de empregos atrai imigrantes. Os preços dos imóveis estão subindo. Restaurantes sofisticados têm reservas com semanas de antecedência. A televisão RTÉ exibe programas com pessoas ricas da Irlanda, como empresários do setor de tecnologia, um dono de uma concessionária de carros Ferrari e outros vendedores de artigos de luxo.

Antes um dos países mais pobres da Europa Ocidental, hoje a Irlanda tem uma economia próspera, com um crescimento anual de 5,6% do Produto Interno Bruto (PIB), um dos melhores desempenhos entre os países membros da União Europeia (UE). Mas o Brexit, mudanças na legislação tributária e ameaças de uma bolha imobiliária estão causando um problema social grave.

Dados do governo irlandês divulgados na última semana de agosto mostraram que 6.024 adultos e 3.867 crianças estavam vivendo em centros de assistência social em julho, um aumento de cerca de um quarto em relação ao mesmo mês em 2017.

Quase 700 famílias perderam suas casas em Dublin este ano, com uma média de quatro por dia, de acordo com a organização sem fins lucrativos Focus Ireland.

“É uma situação de emergência”, disse Tommy Gordon, que administra o Wicklow Homeless Five Loaves, um centro de atendimento a desabrigados no sul de Dublin. “Estamos dando tendas, sacos de dormir e comida para os moradores de rua”.

Cerca de 40 pessoas usam as instalações do centro por dia, um aumento de um quarto em comparação com o ano passado. Na visita de jornalistas do The Guardian ao centro, vários homens e mulheres, com aspecto envelhecido e pobremente vestidos, almoçavam carne ao curry e arroz. Um chuveiro recém-instalado tem um uso quase contínuo, disse Gordon.

Uma moradora de rua chamada Margaret Cash, de 28 anos, foi notícia de manchetes de jornais em agosto, depois de postar em redes sociais fotos de seis de seus filhos dormindo em cadeiras em uma delegacia de polícia, em Tallaght.

Ativistas e assistentes sociais atribuem a culpa da crise habitacional aos aumentos crescentes dos aluguéis e a falta de moradias com preços acessíveis em Dublin.

“O número de funcionários de multinacionais com salários altos, sobretudo de empresas de tecnologia, pressiona o mercado imobiliário e o aumento dos aluguéis”, disse Niamh Randall, porta-voz da instituição beneficente Simon Communities.

Mas ativistas de defesa de direitos humanos iniciaram um movimento de apoio aos desabrigados. Com as hashtags #homes4all e #TakeBackTheCity, em agosto um grupo de ativistas ocupou um prédio de quatro andares no centro de Dublin, que estava vazio há três anos. Eles continuam a ocupar o espaço em sinal de protesto, apesar da ordem judicial para se retirarem.

Se a polícia obrigá-los a sair, os ativistas ocuparão outro prédio vazio no centro da cidade, disse Michelle Connolly, membro do grupo Dublin Central Housing Action.  “Existem vários prédios desabitados na cidade”, acrescentou.

O grupo de ativistas reúne também o Brazilian Left Front, uma organização de brasileiros e outros estrangeiros que protesta contra aluguéis caros, moradias em péssimo estado e despejos em Dublin.

“A ideia do retorno do boom imobiliário que terminou com a crise financeira mundial em 2008, não se reflete nas experiências vividas pelas pessoas locais. Os aluguéis estão aumentando, mas os salários não acompanham esses aumentos”, disse Connolly.

Os ativistas estão em contato com a Acorn, um grupo britânico que defende os direitos dos locatários, e com os voluntários do Anti-Eviction Mapping Projecto, um projeto de proteção aos locatórios de imóveis em São Francisco.

No início de setembro, uma coalizão formada por sindicatos, estudantes, ONGs e partidos políticos de esquerda irá lançar a iniciativa “Raise the Roof” de incentivo à construção de moradias populares. Em 3 de outubro, o grupo irá fazer uma manifestação em frente à Câmara de Deputados.

Os ativistas estão mais preocupados em encontrar acomodações para os moradores de rua, como um pai e um filho vistos dormindo na calçada ao lado de um hotel de luxo em Dublin, do que com a mobilização contra a visita de Donald Trump à Irlanda em novembro.  “É mais urgente e importante”, disseram.

Fontes:
The Guardian-Dublin's homelessness crisis jars with narrative of Irish economic boom

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