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A efervescência política e cultural da década de 1960

Livro faz um retrospecto dos ideais utópicos e ingênuos de uma década marcante que influenciou todas as gerações seguintes

A efervescência política e cultural da década de 1960
Para os franceses, a lembrança mais marcante é o conturbado mês de maio de 1968 (Foto: Reprodução/Amazon)

“Se você se lembra dos anos 1960 é porque não viveu esses anos.” Essa frase é atribuída a inúmeras pessoas, de Pete Townshend, guitarrista da banda The Who, a Timothy Leary, o famoso defensor do uso do LSD. Na verdade, como Richard Vinen escreveu em seu livro The Long ’68: Radical Protest and Its Enemies, muitos se lembram da década de 1960, mas não do mesmo modo.

Para os franceses, a lembrança mais marcante é o conturbado mês de maio de 1968, quando os estudantes que atiravam pedras e incendiavam carros quase derrubaram a Quinta República. Cinquenta anos depois, para a geração nascida após a Segunda Guerra Mundial, maio de 1968 evoca as ideias utópicas tão diversas como a liberação sexual e os sonhos ilusórios de igualdade social. Mas Vinen, historiador do King’s College London, observou que a revolta estudantil na França foi, na realidade, um movimento político e social que afetou a maior parte do Ocidente durante a década de 1960 e 1970, o período que ele intitula de The Long ’68.

Quais foram os fatos que uniram os diferentes movimentos que abalaram e ridicularizaram a ordem ideológica, econômica e política da sociedade de Berkeley a Londres, de Paris a Berlim em 1968? Vinen sugeriu várias respostas. Uma delas foi a revolta contra a Guerra do Vietnã, que culminou com a Ofensiva do Tet dos vietcongues em janeiro de 1968, um ataque fatal para os EUA. A outra foi uma reação às consequências do colonialismo. Na França, as lembranças da guerra da Argélia, que terminara em 1962, ainda eram muito presentes e dividiam a opinião pública. No Reino Unido, o discurso “Rivers of Blood” do deputado do Partido Conservador Enoch Powell contra a imigração enfureceu os estudantes.

Além disso, as lutas de diferentes grupos em defesa dos direitos civis repercutiram em diversos lugares. Segundo um ativista da Queen’s University Belfast, a “luta dos negros nos EUA, dos trabalhadores na França, a resistência dos vietnamitas, e a Primavera de Praga na Tchecoslováquia”, influenciaram a turbulência política na Irlanda do Norte. A televisão era o principal canal de ligação desses movimentos. Como Vinen escreveu: “As filmagens em Berlim ou em Berkeley mostravam as mesmas imagens de violência, sem o risco de uma guerra real. A televisão suavizava os contornos da violência para que todas as cenas tivessem o mesmo impacto”.

No entanto, nenhuma dessas respostas é satisfatória. Jovens rebeldes e trabalhadores não tinham uma proposta radical. Apesar de alguns estudantes sonhadores, sobretudo na França, terem defendido uma mudança drástica na organização social, a mentalidade da maioria dos trabalhadores, como dos mineradores em greve no Reino Unido, era, em sua essência, conservadora.

A geração pós-guerra, que viveu a efervescência da década de 1960, ficará impressionada com a pesquisa minuciosa de Vinen sobre personagens marcantes dessa época, como os Panteras Negras dos EUA, a Fração do Exército Vermelho, mais conhecido como o Grupo Baader-Meinhof, da Alemanha, e as Brigadas Vermelhas da Itália.

O mundo ainda vive em um regime capitalista e de divisão de classes. Alguns militantes seguiram carreiras políticas importantes, como Daniel Cohn-Bendit, ex-deputado franco-alemão do Parlamento Europeu e membro do Partido Verde da Alemanha, um dos principais líderes da revolta estudantil na França. Outros optaram por um estilo de vida burguês, como Tariq Ali, antigo editor dos jornais marxistas Black Dwarf e Red Mole, muito influentes nos anos 1960, hoje, um membro respeitado do meio literário britânico.

Apesar do rigor acadêmico e da pesquisa cuidadosa, o autor não conseguiu captar a convicção inebriante da juventude da época de que tudo era possível. Em retrospectiva, os sonhos do ano de 1968 expressos nas músicas “Give Peace a Chance”, de John Lennon, ou “San Francisco (Be Sure to Wear Flowers in Your Hair)”, de Scott McKenzie, parecem ingênuos. Mas não para a geração pós-guerra. Vinen é jovem demais para ter sentido o perfume das flores nos cabelos das mulheres.

Fontes:
The Economist-1968 was no mere year

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