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OBITUÁRIO

A escritora negra que transformou a literatura americana

Morreu nesta semana, aos 88 anos, a escritora americana Toni Morrison. Em 1993, ela se tornou a primeira escritora negra a ganhar um Nobel da Literatura

A escritora negra que transformou a literatura americana
Obras de Toni Morrison se destacam pelo caráter humanitário (Foto: Flickr/Christopher Drexel)

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A escritora americana Toni Morrison morreu na última segunda-feira, 5, aos 88 anos, em Nova York. Segundo um comunicado emitido pela família, a escritora “morreu após uma breve doença”.

“Apesar de sua morte representar uma tremenda perda, estamos gratos por ela ter tido uma vida longa e bem vivida”, diz a nota.

Primeira escritora negra a ganhar um Nobel, Morrison tem um lugar de destaque na literatura americana. Com uma carreira de décadas, ela construiu seu legado com obras que se destacam pelo caráter humanitário.

Vinda de uma infância pobre em Ohio, Morrison começou a escrever após se tornar mãe solteira. Ela colocou afro-americanos, particularmente mulheres, no coração de sua escrita, numa época em que eles eram amplamente marginalizados nos EUA tanto na literatura quanto na vida.

Com a linguagem celebrada por seu lirismo, Morrison foi exaltada por transmitir de forma tão poderosa, ou talvez mais do que qualquer romancista antes dela, a natureza da vida negra nos EUA, da escravidão à desigualdade.

Entre suas obras mais conhecidas está Amada (1987), o romance laureado com um prêmio Pulitzer e mais tarde transformado num filme estrelado por Oprah Winfrey. A obra gira em torno de Sethe, uma mãe escravizada assombrada pela memória da criança que ela havia assassinado, por julgar que a morte era melhor que a vida na escravidão. Como muitos dos personagens de Morrison, Sethe teve uma vida dolorosa, mas se manteve nobre.

Além de sua própria literatura, Morrison foi responsável por dar voz a histórias negras através de seu trabalho como editora da Random House, começando no final dos anos 1960. Havia um “péssimo preço a pagar”, observou ela certa vez, por deixar Lorain, a cidade de Ohio onde ela crescera, para iniciar uma carreira em uma sociedade branca e não amistosa. Mas ela queria participar da criação de um “cânone trabalho negro”, ela disse. Enquanto criava dois filhos, e seguia com seus próprios escritos nas horas antes do amanhecer, Morrison dedicou-se a trabalhos de impressão, incluindo autobiografias do pugilista Muhammad Ali e da ativista política Angela Davis.

Morrison também ajudou a antologizar os escritos de autores africanos, incluindo Chinua Achebe e Wole Soyinka. Ela supervisionou a publicação de The Black Book (1974), que documentou a vida negra nos EUA, incluindo anúncios para a venda de negros escravizados, fotografias de linchamentos e imagens de igrejas e outros lugares espirituais que ajudaram a sustentar comunidades negras.

Além dos deveres profissionais nas universidades de Yale e Princeton, Morrison era ensaísta e palestrante.

Toni Morrison nasceu Chloe Ardelia Wofford, em Lorain, Ohio, em 1931. Ela tinha outros três irmãos. Seus pais foram transferidos para o sul dos EUA. Um de seus avós nasceu no período da escravocrata dos EUA. O pai de Morrison ocupava vários cargos, inclusive trabalhando como lavador de carros, soldador e operário da construção civil. A família se mudava com frequência. Aos 12 anos, Morrison converteu-se ao catolicismo, a fé seguida por sua família, e tomou “Anthony” como seu nome de batismo. Daí, veio o apelido “Toni”.

Ela cursou a Howard University, em Washington, se tornando bacharel em inglês em 1953. Dois anos depois, obteve mestrado em inglês pela Cornell University. Posteriormente, ela se juntou ao quadro de professores da faculdade de Howard, onde teve entre seus alunos o ativista de direitos civis Stokely Carmichael.

Enquanto trabalhava em Harvard, ela se casou com um arquiteto jamaicano, Harold Morrison. Eles tiveram dois filhos, mas o casamento era infeliz, em parte, dizia ela, porque “as mulheres na Jamaica são muito subservientes em seus casamentos”. Depois de se divorciar, Morrison mudou-se com os filhos para Syracuse, em Nova York, onde se tornou editora de livros didáticos antes de ingressar na sede da Random House, em Nova York.

Ela fez da escrita um refúgio da infelicidade que a atormentava. Uma das primeiras histórias que escreveu era sobre uma garota negra que desejava ter olhos azuis. A história formaria a base de seu primeiro romance O olho mais azul (1970). O próximo livro de Morrison foi Sula (1973), sobre duas mulheres de uma comunidade negra chamada Bottom, que divergem em suas décadas de amizade. Nessa e em outras obras, Morrison disse que tentou capturar a irmandade negra.

Morrison aventurou-se na experiência de personagens negros masculinos em Song of Solomon (1977), um épico familiar centrado em Macon Dead, conhecido como Milkman, que procura sua identidade através de sua linhagem familiar. Amplamente aclamado, o romance foi comparado a Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez.

Depois de Song of Solomon veio a obra Tar Baby (1981), que se passa em uma ilha caribenha. Em seguida, Morrison escreveu Amada. O romance foi inspirado na história de uma verdadeira escrava fugitiva, Margaret Garner, que foi capturada quando fugiu de Kentucky em busca da liberdade em Ohio, na década de 1850, e cortou a garganta de sua filha de três anos antes de ser devolvida ao seu senhor.

Amada foi elogiada como uma das obras mais significativas do século. Em 1988, 48 escritores negros – entre eles Maya Angelou, Alice Walker e Ernest J Gaines – publicaram uma carta aberta no jornal New York Times protestando contra o fato de que Morrison ainda não havia recebido o National Book Award ou o prêmio Pulitzer. Naquele ano, o Pulitzer foi para Amada. Em 1993, veio o Nobel da Literatura.

Fontes:
The Independent-Toni Morrison: Nobel laureate who transformed American literature

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