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A história da Índia sob o ponto de vista do sul do país

Livro narra a história do sul da Índia, erroneamente considerado pelos colonizadores britânicos uma região sem chance de progresso

A história da Índia sob o ponto de vista do sul do país
Colonizadores viam o sul da Índia como uma área habitada por um povo indolente (Foto: Flickr/Ryan)

Segundo a lenda tâmil, quando os deuses do Himalaia reuniram-se para comemorar o casamento do deus Shiva a Terra começou a se inclinar perigosamente em direção ao norte. Por esse motivo, o sábio Agathya viajou para o sul da Índia a fim de restaurar o equilíbrio, trazendo com ele água para fertilizar a terra e a língua tâmil para o povo.

Coromandel: A Personal History of South India, o novo livro de Charles Allen, também é uma tentativa de resgatar esse equilíbrio. Para os membros do governo colonial britânico o sul da Índia era uma região habitada por um povo indolente, com poucas perspectivas de progresso. A história popular ignorou-a, preferindo acompanhar os acontecimentos mais dinâmicos dos mongóis ou da Índia britânica no norte. Mas em seu  livro, Charles Allen, um historiador inglês nascido na Índia, dirige seu olhar para o sul. A história começa com os primeiros migrantes do norte, que introduziram o hinduísmo, o jainismo e o budismo na região.

Os jainistas e budistas contribuíram para o florescimento cultural do século III a.C. ao século II d.C., com seus poetas e estudiosos, que deram início à literatura clássica dos tâmeis e à construção dos belos santuários escavados nas cavernas.

O hinduísmo se expandiu com a evolução de uma religião abstrata dominada por sacerdotes para um sistema de doutrinas, crenças e práticas rituais, nas quais os deuses eram representados como seres humanos. Os artistas da dinastia chola, que reinou no sudeste da Índia durante 1.500 anos, criaram esculturas extraordinárias esculpidas em pedra ou em bronze. A estátua de Shiva Nataraja, o deus da dança cósmica, uma das representações artísticas mais antigas do período chola, com uma perna levantada e os longos cabelos que se estendem pelo firmamento, hoje é uma das imagens mais conhecidas da religião indiana.

Além do comércio próspero com o Império Romano, mais tarde o sul da Índia atraiu um grande número de visitantes. Em 629, o célebre monge budista chinês Xuanzang partiu em peregrinação para o sul da Índia, de onde retornou com uma grande quantidade de textos budistas em sânscrito. Séculos mais tarde, comerciantes árabes e europeus visitaram a região em busca de especiarias; em troca, os portugueses trouxeram sementes de pimenta-malagueta que os europeus haviam descoberto nas regiões tropicais da América e que deram origem ao curry, um dos ingredientes básicos da culinária indiana.

A religião e o comércio foram acompanhados pelas lutas violentas por poder, como no combate implacável aos pagãos pelos portugueses.  Mas uma das histórias mais chocantes do livro é a de Nangeli, uma mulher de uma casta inferior da região de Kerala no século XIX, que mutilou os seios em protesto contra os impostos territoriais dos brâmanes e a discriminação contra as mulheres, que apesar de sua baixa posição social, cobriam os seios com os sáris.

O livro Coromandel atrai o leitor com suas histórias interessantes e um ritmo ágil da narrativa. Mas o fascínio de Allen pela maneira com que os estudiosos, tanto britânicos como indianos, construíram a história do país às vezes se sobrepõe à história da cultura, economia e política da Índia que durante milênios exerceu uma forte influência no Sudeste Asiático. O leitor também se interessaria em conhecer mais os relatos sobre o império vijayanagara do sul do país, que durante mais de 200 anos foi um grande incentivador do comércio marítimo, da arte, literatura e música, além da construção de templos e monumentos em sua capital, atual Hampi, Patrimônio Mundial da Unesco.

Fontes:
The Economist-A corrective to northern-focused histories of India

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