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Pessimismo da inovação

A máquina de ideias pifou?

A ideia de que a inovação e novas tecnologias pararam de impulsionar o crescimento está recebendo cada vez mais atenção. Mas tal concepção não está bem fundamentada

A máquina de ideias pifou?
Inovações estimuladas pelo barateamento da capacidade de produção estão decolando (Fonte: Reprodução/The Economist)

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Um pequeno, mas cada vez maior número de economistas acredita que o impacto econômico das inovações de hoje em dia é muito pequeno em comparação ao impacto do passado. Alguns suspeitam que a estagnação econômica dos países ricos possa estar fundamentada em uma paralisia tecnológica de longo prazo. Em um livro eletrônico de 2011, Tyler Cohen, economista da Universidade George Mason, argumentou que a crise financeira estava mascarando uma “Grande Estagnação” mais profunda e perturbadora. Isso explica porque o crescimento da renda real e do emprego nos países ricos vêm desacelerando há muito tempo e, desde 2000, mal aumentou.

Pela maior parte da história humana, o crescimento do produto e bem-estar econômico geral foi lento e hesitante. Ao longo dos dois últimos séculos, primeiro na Grã-Bretanha, Europa e EUA, e em seguida em outros lugares, o crescimento decolou. Gordon especula que os dois últimos séculos de crescimento econômico possam na verdade ter constituído apenas “uma grande onda” de mudanças radicais em vez de uma nova era de progresso ininterrupto, e que o mundo está voltando a uma época em que o crescimento é sobretudo do tipo extensivo.

Gordon considera possível que só tenham sido criadas apenas algumas inovações realmente fundamentais – a habilidade para usar energia elétrica em larga escala para manter as residências confortáveis apesar da temperatura exterior, ir de qualquer A a qualquer B, falar com qualquer pessoa que se deseje – e que estas, em sua maior parte, já foram efetuadas. Haverá mais inovação – mas esta não mudará o modo de funcionamento do mundo da mesma maneira que a eletricidade, motores de combustão interna, sistemas de encanamentos, produtos petroquímicos e o telefone o fizeram. Cohen tem mais disposição para imaginar grandes ganhos tecnológicos futuros, mas ele acredita que não há mais frutas ao alcance das mãos. Transformar terabytes de conhecimento genômico em benefícios médicos é muito mais difícil que descobrir e produzir antibióticos em massa.

O crescimento no número de pessoas que trabalham com pesquisa e desenvolvimento pode parecer contradizer este retrato de uma economia menos inventiva, mas Pierre Azoulay do MIT e Benjamin Jones da Universidade Northwestern descobriram que, embora haja mais pessoas no setor de pesquisas, essas estão gerando menos benefícios.

A taxa de progresso recente parece lenta quando comparada com aquela do início e meio do século XX. Para aqueles sortudos o bastante para se beneficiar do melhor que o mundo pode oferecer, o fato deste não poder oferecer ainda mais pode decepcionar.

Contudo, uma análise mais demorada dos dados recentes sugere que há razão para otimismo. Na economia como um todo, a produtividade de fato desacelerou em 2005 e 2006 – mas o crescimento da produtividade no setor manufatureiro se sai melhor. A crise financeira global no fim da década de 90 dificulta a interpretação dos dados mais recentes. Quanto ao forte crescimento de produtividade ao fim da década de 90, pode ter sido prematuro encará-lo como o efeito das melhorias geradas pela tecnologia de informação. Hoje em dia tal fenômeno parece estar relacionado somente aos setores que de fato estavam fabricando os computadores, telefones celulares e afins. Os efeitos sobre a produtividade das pessoas e empresas que compraram as novas tecnologias parecem ter começado a aparecer nos anos 2000, mas é possível que esses ainda não tenham se manifestado completamente. Pesquisas feitas por Susanto Basu, do Boston College e John Fernal do Federal Reserve de San Francisco, sugerem que a defasagem entre investimentos em tecnologias de informação e comunicação e melhorias de produtividade vá de 5 a 15 anos. A queda de produtividade em 2004, sob esse ponto de vista, refletiu um estado de tecnologia definitivamente pré-Google, e muito possivelmente pré-internet.

A exploração total de uma tecnologia pode levar mais tempo que isso. E a inovação informativa ainda está em sua infância.

Em todos as áreas, inovações estimuladas pelo barateamento da capacidade de produção estão decolando. Os computadores estão começando a entender a língua natural. As pessoas estão controlando vídeo games apenas por meio de movimentos – uma tecnologia que em breve poderá ser aplicada em boa parte do mundo empresarial. A impressão 3D é capaz de produzir um conjunto de objetos cada vez mais complexos, e pode em breve avançar para tecidos humanos e outros materiais orgânicos.

A ascensão dos países emergentes está entre as maiores razões para otimismo. Quanto maior o tamanho do mercado global, maior o benefício gerado por uma ideia nova, uma vez que esta pode ser aplicada em mais atividades e mais pessoas.

Todavia, o período de ajuste pode ser difícil. No fim, o principal risco para economias avançadas pode não ser que o ritmo do desenvolvimento é lento demais, mas sim que as instituições tenham se tornado rígidas demais para assimilar mudanças realmente revolucionárias – o que pode ser muito mais provável que carros voadores.

Fontes:
The Economist - Innovation pessimism

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2 Opiniões

  1. carlos a a gameiro disse:

    Que impacto do passado é este ? As coisas surgem espalhadas ao longo do tempo e a primeira e a segunda guerra mundial derão a impressão que impulsionaram o prograsso mas é uma balela, o que surgiu delas teria surgido de qualquer forma. Invenções importantes relativamente recentes surgiram fora da época das guerras como o transistor e o laser. Agora é a vez da nanotecnologia, plasmônica, etc com os novos materiais e fenômenos. Basta acompanhar o noticiário de ciência e tecnologia para observar que está ocorrendo uma evolução contínua. Um bom site para se atualizar sobre ciência e tecnologia é inovacaotecnologica.com.br

  2. Sander Fridman disse:

    Interessante o artigo, mas a nosso ver amplamente equivocado, menos pelo que disse do que pelo que não disse. E o erro é analisar a expansão do mercado de consumo sem analisar concomitantemente a expansão da oferta de trabalhadores (o mercado de trabalho), ao mesmo tempo em que os Estados se tornam cada vez mais imperiais, e os políticos mais ábeis em manipular os setores de poder das sociedades, gerando ciclos sucessivos e agravantes de concentração de renda, perda de poder de consumo, e perda de liberdade, que só podem resultar em uma derrocada econômica progressivamente mais grave. Ou seja, contra-se por menos, desemprega-se, destrói-se a categoria de consumidores que sustentava a economia, e a nova categoria de trabalhadores opera em condições de semi-esclavagismo, sem capacidade de consumo. Sobra apenas, e cada vez mais, o mercado de luxo, dos cada vez mais ricos, cada vez em menor número, e com mais poder de consumo. Vc vê sinais disso?

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