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Capital intelectual

A nova aristocracia dos Estados Unidos

Para os que têm uma excelente formação cultural e profissional as chances de sucesso são muito maiores

A nova aristocracia dos Estados Unidos
O capital intelectual estimula a economia baseada no conhecimento (Reprodução/Alamy)

Quando os candidatos republicanos à presidência dos EUA se apresentarem para o primeiro debate em agosto, pelos menos três parlamentares terão pais que também concorreram à presidência. Quem quer que vença as chamadas primárias republicanas enfrentará a esposa de um ex-presidente, Hillary Clinton, na próxima eleição. Mas é estranho que um país criado segundo o princípio de hostilidade ao status herdado seja tolerante em relação ao poder das dinastias. Porém em razão de os Estados Unidos nunca terem tido reis ou senhores feudais, os sinais da predominância de uma elite às vezes passam despercebidos.

Thomas Jefferson fez uma distinção entre a aristocracia natural dos virtuosos e talentosos, que eram uma bênção para a nação, e a aristocracia artificial baseada na riqueza e no nascimento e que, aos poucos, sufocou a verdadeira aristocracia. Jefferson era um produto desses dois grupos. Um advogado brilhante que herdou 11 mil hectares de terra e 135 escravos do sogro, mas manteve a firmeza de suas convicções liberais.Quando os magnatas acumularam fortunas que causaram inveja aos príncipes europeus, a mistura da filantropia deles, a excentricidade do comportamento de seus filhos e a falência das políticas governamentais significaram que os americanos nunca viveriam em um país onde haveria uma elite hereditária.

Mas agora não há como negar que as pessoas ricas estão transmitindo uma herança aos seus filhos, que não pode ser dilapidada em algumas noites em um cassino. Essa herança é muito mais útil do que o dinheiro, além de ser isenta de impostos hereditários. São cérebros que recebem uma educação excepcional de seus pais.

O capital intelectual estimula a economia baseada no conhecimento e, portanto, para os que têm uma excelente formação cultural e profissional as chances de sucesso são muito maiores. E muito mais do que nas gerações anteriores, homens inteligentes e bem-sucedidos casam-se com mulheres também inteligentes e bem-sucedidas e, em consequência, têm filhos com mais chances de terem um nível de escolaridade incomparavelmente melhor.

Segundo uma estimativa, esses casais prósperos aumentam a desigualdade social em 25%, porque têm uma renda muito maior, o que lhes permite criar seus filhos em lares estáveis, com uma preocupação crescente na educação. Essas crianças ouvem mais de 32 milhões de palavras aos 4 anos do que crianças de pais que vivem da previdência social. Os pais mudam-se para bairros de alto poder aquisitivo com ótimos colégios, gastam dinheiro em aulas de flauta, e esforçam-se para que os filhos estudem nas melhores universidades do país. Como evitar então essa hegemonia da nova aristocracia nos EUA?

Fontes:
The Economist-America’s new aristocracy

2 Opiniões

  1. angeli rose disse:

    Ainda que tenhamos políticas públicas educacionais direcionadas para combater tal desigualdade,há que se lembrar que esta “nova aristocracia” também estará ocupando postos estratégicos na educação,por exemplo, como vem acontecendo no ensino superior há uns 8 anos de modo silencioso.O processo de precarização em curso de profissionais da educação,mesmo qualificados(como também das áreas de saúde e segurança)é um fator contrário, suficiente para que a linearidade e a progressão esperadas/desejadas não aconteçam nessa linha de raciocínio que ainda acredita ser possível reverter o plano de desigualdade.Sou um caso desses:professora,de família que gerou menos de “32 mil palavras” na formação cotidiana,depois de anos de investimento na carreira docente e descobrindo o prazer intelectual da pesquisa,vi-me em curva descendente mesmo com 25 anos de profissão.Todos os mecanismos de exclusão,pela discriminação(etnia,crença,classe social,gênero,idade), por exemplo,tem sido experimentadas. Mas sem aprofundar,tento há 7 anos fazer pós-doutorado sem sucesso;e no último concurso p/ professor adjunto do qual participei,nenhuma carteira de destro na sala,além de nenhum colega pardo de cabelos crespos,como os meus;enfrentei recentemente 4 anos de absoluto DESEMPREGO;e fui parar no MA,onde experimentei igual exclusão por razões diversas.Profa.Dra.Angeli Rose

  2. André Luiz D. Queiroz disse:

    Como evitar então essa hegemonia da nova aristocracia nos EUA?” — não há como evitar, nem nos EUA, nem na China, ou em lugar algum. A divisão de classes sociais irá, de um jeito ou de outro, se manifestar. Nos países capitalistas, a elite é formada pelos detentores de capital (banqueiros, industriais, latifundiários, etc), enquanto em regimes comunistas, onde o Estado efetivamente detenha toda a propriedade, a elite é formada pela ‘nomenklatura’ política que ocupa a alta administração; e em todos os casos o natural será que as famílias queiram passar aos filhos todo o ‘patrimônio’ acumulado, tanto material quanto intelectual.

    Que haja elites, isso em si não é problema; o problema é o tamanho da diferença entre os mais ricos, material e intelectualmente, e os mais pobres! Portanto, é necessário elevar o nível da camada menos favorecida, e é importantíssimo que haja políticas de educação pública, universal e gratuita, que permita aos mais capazes também adquirirem escolaridade, capacitação profissional, e assim ascenderem socialmente, na medida de seus méritos!

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