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NIGÉRIA

A rádio que desafia o Boko Haram

Criada em 2015, a rádio nigeriana Dandal Kura se dedica a desmistificar a retórica extremista do Boko Haram e já recebeu ameaças por parte do grupo

A rádio que desafia o Boko Haram
Ao desmistificar a retórica do grupo, a rádio impede novos recrutamentos (Foto: Linus Unah/IRIN)

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Uma rádio nigeriana vem desafiando o grupo extremista Boko Haram. Trata-se da Dandal Kura, uma estação de rádio que tem como missão desmistificar a retórica extremista do grupo e impedir a radicalização de pessoas passíveis de serem recrutadas.

Lançada em 2015, no noroeste do estado de Kano, a rádio tem independência editorial e é uma iniciativa da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Ela tem o jornalista nigeriano Faruk Dalhatu como diretor de jornalismo, e David Smith como líder do projeto.

A Dandal Kura transmite sua programação em Kanuri, um idioma falado por cerca de 10 milhões de pessoas espalhadas pela Nigéria e pelos países no entorno da Bacia do Chade. Segundo Bello Sani, chefe de operação da rádio, a escolha do idioma foi proposital. “Se vamos combater a ideologia de Abubakar Shekau [líder do Boko Haram], temos de fazer isso em sua própria língua”, disse Sani.

Em 2016, a rádio mudou-se para Maiduguri, capital do estado nigeriano Borno. Diariamente, ela transmite informações sobre os esforços do governo nigeriano para combater o Boko Haram e informa seus ouvintes sobre as atividades dos extremistas.

“As pessoas telefonam durante nossos programas ao vivo e informam sobre um ataque em determinada cidade, isso ajuda a cidade vizinha a ficar alerta”, diz Sani.

A rotina da rádio conta com boletins diários, atualizações constantes, feitas por 30 correspondentes, e programas voltados à desradicalização e à educação. Participações de psicólogos, conselheiros e líderes islâmicos ajudam a desmistificar a ideologia do Boko Haram, fazendo com que pessoas propícias a se juntarem ao grupo desistam da empreitada.

“A Dandal Kura foi criada para reverter as narrativas do Boko Haram e produzir conteúdo de qualidade, que ajuda a desenvolver comunidades”, explica Dalhatu.

Porém, essa empreitada não está livre de ameaças por parte do Boko Haram. Em uma ocasião, um dos extremistas do grupo ligou para a rádio durante a transmissão de um programa ao vivo.

“Ele disse que o que fazemos é ruim e proibido. Estamos trabalhando para o governo e eles virão atrás de nós. Eu fiquei chocada. […] Tive medo naquela noite”, disse a radialista Hauwa Tiramisu, que apresentava o programa na ocasião.

Três meses antes da ligação, o líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, divulgou um vídeo ameaçando a rádio. “Escute! A estação de rádio chamada Dandal Kura, com as prostitutas que empregam como trabalhadoras. Que Alá amaldiçoe todos vocês!”, disse Shekau, em idioma Kanuri.

Tais ameaças fizeram redobrar os cuidados com a segurança. Atualmente, a rádio funciona em um apartamento, localizado em uma antiga e segura área residencial do governo, guardada por agentes de segurança armados. Não há qualquer coisa que identifique a rádio, como banners ou placas, e estagiários, colaboradores ou convidados somente entram na rádio acompanhados de membros efetivos da equipe.

Dalhatu afirma que, embora despertem preocupação, as ameaças do Boko haram estimulam o trabalho a continuar. “Significa que nossas mensagens estão alcançando as lideranças de alto escalão [do Boko Haram]”, diz Dalhatu.

Dalhatu diz que ainda não trouxe a família para Maiduguri. Ela ainda reside em Kano, e ele visita seus familiares regularmente. Segundo ele, saber que seus parentes estão distante da rádio alivia a pressão. “Eu nunca me senti confiante para trazê-los para cá. Saber que minha família está segura alivia a pressão. Mas eu não estou seguro”, finaliza Dalhatu.

Desde 2009, Boko Haram (nome que significa “A educação ocidental é um pecado”) vem impondo uma campanha de violência e radicalização nos quatro países banhados pelo Lago Chade (Nigéria, Chade, Camarões e Níger). Estima-se que o grupo já matou mais de 20 mil pessoas e forçou o deslocamento de pelo menos 2 milhões de pessoas. Além disso, mais de 5 milhões não têm acesso à água e comida por conta da campanha de violência do grupo.

 

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Fontes:
Al Jazeera-Despite threats, Nigerian radio station battles Boko Haram on air

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