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China

A testemunha de uma loucura milenar

Um chocante relato chinês, em primeira pessoa, a respeito da grande fome de Mao Tse-tung

A testemunha de uma loucura milenar
"Tombstone" é uma análise detalhada da grande fome escrita por um autor chinês que a sentiu na pele (Reprodução/AP)

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Em 1959 um estudante de 18 anos chamado Yang Jisheng foi convocado para deixar seu internato na China central e voltar para casa por um amigo que lhe contou que seu pai estava morrendo de fome. Tang retornou imediatamente à sua vila a tempo de ver o seu enfraquecido pai antes de sua morte. O jovem idealista, membro da Liga Jovem Comunista, ficou profundamente abalado, mas nunca cogitou culpar o governo. “Comparado ao advento da grande sociedade comunista”, escreve, “o que representa o insignificante infortúnio de minha família?”

Por mais de duas décadas, Yang acreditou na versão oficial do desastroso experimento econômico conhecido como Grande Salto Adiante de que a carestia havia sido causada por desastres naturais. Yang só questionou a versão que lhe havia sido dada quando da abertura da China na década de 1980, quando então ficou determinado a espanar a fraude histórica e a abalar o sistema que passou a vida apoiando. O resultado é “Tombstone” (“Lápide”, em português), um relato chocante do que era conhecido eufemisticamente na China como os Três Anos de Dificuldades Econômicas. Esta é a primeira análise detalhada da grande fome escrita por um autor chinês que a sentiu na pele. Publicado em chinês em Hong Kong em 2008, o livro está sendo publicado em inglês pela primeira vez. O original de 1.200 páginas foi condensado e se tornou ainda mais denso.

O Grande Salto Adiante foi o ápice da insensatez maoísta ignorante. Mao afirmou em 1957 que a China poderia superar a produção industrial da Inglaterra dentro de 15 anos. Muitas pessoas abandonaram o campo para construir fornalhas de fundo de quintal nas quais panelas e potes eram derretidas para produzir aço. O produto final era inútil. Muitas pessoas morreram de fome. Yang calcula que 36 milhões de pessoas tenham morrido como resultado.

O sistema também não morreu, embora ainda mantenha com cuidado a sua própria interpretação da história. O livro de Yang é um estudo de caso ensopado de sangue do que ocorre quando um regime sem mecanismos de controle colide com um fervor ideológico ignorante. No entanto, os livros escolares chineses preferem ignorar completamente esse período.

Fontes:
The Economist-Millennial madness

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1 Opinião

  1. Mauricio Fernandez disse:

    O “movimento dos pássaros” quando a população espantava os passaros até que os mesmos caissem de exaustão. Eram tidos como responsáveis pela falta de alimentos pois comiam os grãos e as sementes. Foram verdadeiras montanhas de todos os tipos de pássaros. Resultado, sem o predador natural veio uma grande praga de insetos que devastou a agricultura ceifando milhões de vidas de fome. Entretanto estes fatos, como tantos outros, apenas demonstram a surpreendente capacidade dos chineses de se recuperarem de grande crises. Crises que em qualquer outro país, acredito, o sepultaria. A prova disso tudo podemos observar hoje pela posição que a China ocupa na economia mundial. Se, por acaso, a China resolver “voltar pra casa”, fechar-se, o mundo quebra literalmente, queiram ou não queiram alguns.

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