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Afegãs acusadas de crime de honra buscam proteção em abrigos

Abrigos mantidos por doações ocidentais protegem mulheres perseguidas pelas próprias famílias e desafiam a cultura machista do Afeganistão

Afegãs acusadas de crime de honra buscam proteção em abrigos
Ao longo da última década, cerca de 20 abrigos deste tipo foram criados no país (Reprodução/Lynsey Addario/NYT)

Os chamados “crimes de honra” fazem parte da tradição muçulmana. Por ano, milhares de mulheres são julgadas por trazerem desonra às respectivas famílias. As punições são cruéis: algumas mulheres têm o rosto desfigurado por ácido, outras têm o nariz amputado. Em casos extremos, quando o perdão da família é negado, a mulher é condenada à morte pelos próprios parentes.

No Afeganistão, diariamente, milhares de mulheres acusadas de crime de honra buscam proteção em abrigos mantidos por doadores ocidentais voluntários. Ao longo da última década, cerca de 20 abrigos deste tipo foram criados no país.

Apesar de bem sucedidos, a criação desses abrigos é um dos mais provocativos legados da presença ocidental no Afeganistão. Permitir que mulheres decidam seus próprios destinos é um ultraje à cultura do país. Em 2011, o próprio governo afegão ameaçou terminar com os abrigos para mulheres. A medida foi impedida graças à pressão dos EUA e da União Europeia.

Embora a invasão americana tenha derrubado o regime talibã no Afeganistão, a visão das mulheres como um ser submisso persiste no país. “Muita coisa mudou desde 2001, mas a maioria das pessoas ainda tem uma visão conservadora das mulheres”, diz Manizha Naderi, chefe da organização Women for Afghan Women, que comanda abrigos em 13 províncias do país.

Os abrigos para mulheres têm pouco apoio financeiro da população afegã e dependem quase exclusivamente da ajuda estrangeira. As maiores doações ao Women for Afghan Women provém dos Estados Unidos, que responde por 90% do orçamento da instituição.

Preço alto por escolhas simples

Entre as mulheres ajudadas pela Women for Afghan Women, está Faheema, de 21 anos. Para evitar um casamento arranjado, a jovem fugiu de casa com o namorado, Ajmal, com quem se casou sem a permissão da família.

A organização conseguiu um advogado para defender Faheema das acusações da família. Após alguns meses e muitas audiências, Faheema finalmente recebeu autorização da Justiça para viver com o marido na capital Cabul. Mas não foi exatamente um final feliz.

O pai da jovem alertou que comprou uma arma e não hesitará em matar Faheema e Ajmal, caso os encontre na rua. Ajmal também pagou um preço caro. Ele foi obrigado a fechar a loja da qual tirava seu sustento e foi ameaçado de morte. Rejeitados pela família e pela sociedade, o casal é obrigado a levar uma vida de pobreza e medo em um subúrbio de Cabul.

Assim como Faheema, muitas mulheres dependem exclusivamente da proteção e da ajuda dos abrigos. Mas algumas não tem a mesma “sorte” de Faheema. Sem o perdão da família, muitas mulheres que foram para os abrigos em busca de liberdade acabaram encontrando uma prisão, pois são obrigadas a viver para sempre nessas instituições. Manizha estima que 15% das mulheres atendidas pela Women for Afghan Women não pode deixar os abrigos, sob pena de ser atacada ou morta.

Esperança de um futuro melhor

A batalha entre a tradição e um novo senso de direitos das mulheres segue a pleno vapor no Afeganistão. Alguns ativistas estão esperançosos e acreditam que a realidade das mulheres no país está mudando, ainda que timidamente.

“As mulheres finamente encontraram voz. Elas querem direitos e poder de decisão. Os homens acham que as mulheres estão tentando tirar seus direitos, o que fere o orgulho deles”, diz Soraya Sobrang, membro da Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão.

Mas enquanto a tradição muda, muitas mulheres vivem uma existência no limbo, sem poder deixar os abrigos. Entre elas está Mariam, de 22 anos, que fugiu de um marido tirano e talibã. “Eu não posso ir a lugar algum. Todos gostam de ter sua liberdade, mas eu não posso ter a minha”.

Fontes:
The New York Times-A Thin Line of Defense Against ‘Honor Killings’

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