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HONG KONG

Anistia Internacional denuncia tortura policial em Hong Kong

Entidade analisou vídeos e entrevistou detidos em manifestações, que descreveram práticas de tortura já dentro da delegacia policial

Anistia Internacional denuncia tortura policial em Hong Kong
Estopim das manifestações foi uma polêmica lei de extradição para a China já arquivada (Foto: demosisto/Twitter)

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A Anistia Internacional denunciou, através de um relatório, o uso excessivo de força e a prática de tortura por parte de policiais para conter os protestos em Hong Kong, que ocorrem há mais de três meses. O relatório foi produzido depois que especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) pediram que a China respeitasse o direito dos manifestantes.

O relatório foi publicado na última quinta-feira, 19. No documento, a Anistia Internacional revela que entrevistou 38 pessoas, sendo 21 detidos, que descreveram as ações da polícia de Hong Kong, que estariam sendo protagonizadas pela polícia antiprotesto e pelo Esquadrão Tático Especial (STS).

Quase todos os detidos descreveram que foram espancados antes e durante a detenção. Os presos solicitaram anonimato à Anistia Internacional por medo de sofrerem represálias promovidas pelas autoridades de Hong Kong. Além disso, a entidade também analisou vídeos e fotos, inclusive transmissões ao vivo dos protestos.

“A resposta pesada da polícia de Hong Kong ao controle de multidões nas ruas foi transmitida ao vivo para o mundo ver. Muito menos visível é a infinidade de abusos policiais contra manifestantes que ocorrem fora da vista”, afirmou o diretor da Anistia Internacional na Ásia Oriental, Nicholas Bequelin.

O documento foi publicado em um momento de escalada de violência nas manifestações em Hong Kong, que se intensificaram depois da revelação de uma polêmica lei de extradição para a China. Devido à pressão, a líder de Hong Kong, Carrie Lam, anunciou a suspensão da legislação em junho e a deu como “morta” em julho.

Porém, o projeto só foi oficialmente retirado no início deste mês de setembro. O objetivo com a retirada da proposta de legislação foi apaziguar as manifestações. De fato, as manifestações perderam em quantidade de pessoas, mas ganharam em intensidade. No próximo 1º de outubro, a China celebra seu 70º aniversário, e analistas acreditam que Lam esteja sendo pressionada para dar fim aos protestos antes da data.

No entanto, as manifestações continuam, com os manifestantes pedindo o atendimento de outras quatro demandas: anistia aos manifestantes presos; não categorização dos protestos como revoltas – o que pode gerar penas duras no sistema judicial de Hong Kong -; inquérito independente para analisar as ações policiais; e eleições livres – na região, o líder é escolhido por uma comissão de 1,2 mil pessoas alinhadas a Pequim.

De acordo com a Anistia Internacional, mais de 1,3 mil pessoas foram detidas em pouco mais de três meses de protestos. Apesar da maioria dos manifestantes protestarem pacificamente, houve violência, “que parece estar aumentando junto com o uso excessivo de força pela polícia”, aponta o relatório.

Em 18 dos 21 casos verificados pela Anistia Internacional, os detidos foram hospitalizados – uma taxa de 85%. Pelo menos três dos presos entrevistados ficaram mais de cinco dias no hospital como resultado dos espancamentos promovidos pelas forças policiais.

Detidos entrevistados pela Anistia Internacional descreveram algumas das torturas e violências praticadas pela polícia. Uma jovem, detida em julho, foi uma das muitas manifestantes que afirmaram terem sido espancadas com bastões. Segundo a jovem, ela foi atingida por trás e, mesmo com as mãos presas, os policiais seguiram agredindo-a no chão.

“Senti minhas pernas foram atingidas com algo muito duro. Então um [oficial] me virou e colocou os joelhos no meu peito. Senti a dor nos meus ossos e não conseguia respirar. Tentei gritar, mas não conseguia respirar e não conseguia falar”, descreveu outro detido sobre uma abordagem já dentro da delegacia.

Outro detido afirmou que um policial ameaçou eletrocutar suas genitais caso ele continuasse se recusando a desbloquear o celular para inspeção. “Como os tempos são tão loucos, suponho que tudo seja possível”, afirmou ele, revelando que estava “assustado” que o oficial pudesse concretizar as ameaças.

Um homem detido descreveu uma cena de prisão similar. Segundo o homem, que foi preso em agosto, três membros da STS, conhecidos como “raptores”, o acertaram por trás com cassetetes, atingindo o pescoço e os ombros. Mesmo no chão, a violência não cessou. Ele ficou hospitalizado por dois dias devido à uma costela fraturada e outras lesões.

“Imediatamente fui espancado. Três deles pegaram em mim e pressionaram meu rosto com força no chão. Um segundo depois, eles chutaram meu rosto. Os mesmos três STS continuaram pressionando meu corpo. Comecei a ter dificuldade para respirar e senti uma dor intensa na caixa torácica esquerda. Eles me disseram: ‘Cale a boca, pare de fazer barulho’”, relatou ele.

O relatório da Anistia Internacional esclarece que as forças policiais tiveram base legal para prender alguns dos detidos. Isso porque alguns dos manifestantes atiravam tijolos, coquetéis molotov e houve agressão a policiais. No entanto, a entidade afirmou que a polícia só pode usar força quando for “absolutamente necessário e proporcional ao objetivo”, tendo em vista deter a violência.

“O uso da força antes e durante a prisão, em muitos casos, representou uso excessivo da força, violando o direito internacional dos direitos humanos. O uso de espancamentos e spray de pimenta em indivíduos que já estão sob custódia equivale a tortura e outros maus-tratos. Pessoas detidas, advogados, pessoal médico e outras testemunhas de protestos disseram que o nível de violência policial piorou constantemente desde que os protestos em massa começaram em junho; essa deterioração também é confirmada por uma revisão das evidências em vídeo”, destacou o relatório.

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