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DISCURSO NO HERITAGE FOUNDATION

Araújo ataca ‘climatismo’ em palestra nos EUA

Em discurso em fundação conservadora, chanceler diz que ‘justiça social é pretexto para ditadura’ e atribui mudanças climáticas à 'conspiração marxista'

Araújo ataca ‘climatismo’ em palestra nos EUA
'Não parece uma catástrofe para mim', disse Araújo sobre as queimadas na Amazônia (Foto: Twitter/Heritage Foundation)

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A maior ameaça enfrentada pelo mundo hoje não são as mudanças climáticas, mas a ideologia. É o que disse o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em uma palestra no Heritage Foundation, um dos principais think tanks conservadores dos EUA, sediado em Washington DC.

Convidado a dar uma palestra no local, Ernesto usou seus cerca de 40 minutos para atacar o que chamou de “climatismo” e “globalismo” e atribuir o aquecimento global a uma “conspiração marxista”, num discurso intitulado “O Brasil voltou”.

“O Brasil voltou para onde nunca esteve. Mas onde nós pertencemos. E talvez ao lugar ao qual todas as nações pertencem. De volta ao centro do combate”, disse o ministro na abertura do discurso.

No discurso, Araújo mencionou de forma crítica filósofos como Michel Foucault, Herbert Marcuse e Rosa Luxemburgo e o psicanalista Jacques Lacan, seguidor de Sigmund Freud.

Araújo disse que a justiça social já foi usada no passado “como pretexto para ditadura e agora estão fazendo o mesmo com o clima”. Segundo ele, o mundo vive hoje em uma espécie de “apocalipse zumbi” em relação ao clima e atualmente o discurso climático é usado como “silenciador do debate”. “Agora, nem comer carne mais é permitido”, disse o ministro.

“Há mudanças climáticas? Sim, certamente, sempre teve. É causada pelo homem? Muitas pessoas dizem que sim, não sabemos com certeza”, disse Araújo, numa declaração afinada com o que prega Olavo de Carvalho, guru do governo Bolsonaro.

O ministro também destacou em seu discurso o alinhamento do Brasil aos Estados Unidos de Donald Trump, afirmando que o presidente brasileiro e seu homólogo americano são hoje duas lideranças contra o sistema político tradicional, numa “insurgência universal contra a bobagem”.

Ele disse ainda que todos os brasileiros retiraram a “líder detestada” Dilma Rousseff da presidência e que os protestos de 2013 marcaram o início de uma mudança consolidada nas redes sociais.

“As pessoas foram para as ruas protestar e não conseguiram o que queriam porque não sabiam direito o que queriam. E foram para as redes sociais e não saíram de lá. Nós não saímos de lá”, disse o ministro.

Araújo também falou sobre a reação global ao aumento nas queimadas na Amazônia durante o governo Bolsonaro. O ministro afirmou que o Brasil não é o culpado pela devastação na floresta amazônica e disse que as queimadas e desmatamento – que, segundo dados do próprio governo, aumentaram 82% neste ano – são menos graves do que parecem.

“Não parece uma catástrofe, pelo menos para mim. Mas na visão do debate atual parece que o mundo está acabando”, disse o ministro, classificando ainda o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês), como de “média confiança”.

Divulgado em outubro de 2018, o relatório do IPCC envolveu três anos de pesquisa e foi elaborado por cientistas renomados de várias partes do mundo. O documento alertou que governos devem tomar uma “rápida, abrangente e sem precedentes mudanças em todos os aspectos da sociedade” para evitar um desastre climático.

O discurso de Araújo tinha como objetivo consolidar o alinhamento ideológico entre os governos do Brasil e dos EUA, especialmente na questão das mudanças climáticas, apontadas por Trump como uma farsa da China – embora Pequim, na contramão do governo americano, venha adotando iniciativas para reduzir a poluição, em resposta à pressão da comunidade internacional para se ajustar à pauta ambiental e deixar o atual posto de uma das maiores poluidoras do meio ambiente.

O discurso de Araújo, no entanto, virou chacota entre analistas internacionais. Entre eles, está Ishaan Tharoor, colunista de política internacional do jornal Washington Post e professor da Universidade George Washington, uma das instituições americanas líderes em educação e pesquisa, sediada em Washington DC.

Tharoor classificou o discurso de Araújo como “incoerente” e “fascinantemente ideológico para um ministro do Exterior”. Em uma série de postagens no Twitter, ele afirmou que o discurso de Araújo foi “uma interminável ladainha sobre como alguém no poder é uma vítima”.

“Eu nunca ouvi Araujo falar antes e é impressionante como suas afirmações são divagantes e incoerentes. Agora diz algo sobre o socialismo do século 21 ser Gramsci junto com cartéis de drogas. Agora cita Marcuse e toda a escola de Frankfurt. Agora fala sobre Foucault. Isso é incrível. Não está claro se ele já leu a teoria crítica/neomarxista além das citações da Wikipédia, mas está pedindo muito à audiência na Heritage Foundation em entender do que está falando”, escreveu Tharoor.

Ao final das postagens, ele afirmou haver uma clara desconexão de Araújo e a direita americana. “Há uma desconexão fascinante entre a direita dos EUA e seja lá o que for que Araújo represente. Este realmente vê sua política como uma reação à ortodoxia de esquerda. Além de se irritar com os esquerdistas do campus, a direita americana nunca se importaria com essas pessoas ou envolveria suas ideias (ainda que absurdamente) em um discurso de política externa. Araújo ofereceu uma distinção entre leninismo e stalinismo, como se alguém na Heritage desse a mínima”, disse Tharoor.

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