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LOBBY ECLESIÁSTICO

Argentina: Igreja aumenta pressão às vésperas de votação sobre aborto

No país do Papa Francisco, cresce o lobby eclesiástico contra o aborto legal. Votação final, no Senado, será em 8 de agosto

Argentina: Igreja aumenta pressão às vésperas de votação sobre aborto
As mulheres argentinas estão em franca luta política pelo direito ao aborto (Foto: Hugo Souza)

Na paróquia de San Pedro González Telmo, uma jovem entra apressada, de bolsa no ombro, nem tira o casaco, serão afinal apenas dois minutinhos: saída do burburinho da rua, onde artesãos dão os últimos ajustes nas barracas da famosa feira da praça Dorrego, a feira de San Telmo, ela se ajoelha diante de uma grande imagem do Cristo morto, concentra-se entre o vaivém de turistas na bela e antiga nave, para rezar rapidamente, aparentemente antes de ir trabalhar, ainda que seja um domingo, o último domingo, 15 de julho, de nosso senhor.

A cena – de jovens argentinas entrando e saindo apressadamente das muitas igrejas católicas de Buenos Aires, para pedir cuidados para a alma, mas proteção para o corpo também – se repete muitas vezes, infinitas, no dia a dia da “capital da América Latina”, que neste exato momento é também a capital quiçá mundial da luta pelos direitos sexuais e reprodutivos, pela saúde da mulher, pelo direito ao aborto seguro.

Não é possível ignorar o que naquela cena imediatamente salta aos olhos como contradição, ou, pelo menos, como tensão: as mulheres argentinas (as jovens, sobretudo) estão em franca luta política (porque é de luta política que se trata, além de saúde pública) pela dignidade e pela plena cidadania feminina. Nessa luta, um dos principais inimigos, se não o maior, é precisamente a Igreja Católica, ou, como se diz na Argentina, o lobby eclesiástico contra a reforma da lei do aborto, que o descriminaliza e que foi aprovada em meados de junho na Câmara dos Deputados, e que agora está em franca e acalorada discussão no Senado argentino.

A votação decisiva, a decisão definitiva, está agendada para o próximo 8 de agosto, já que o presidente Mauricio Macri se comprometeu a não vetar a lei, caso ela seja aprovada pelo legislativo, por mais que já tenha se declarado contrário a ela.

O lobby eclesiástico não é pouca coisa, em matéria de peso político, em um país onde muitas mulheres em idade reprodutiva da cosmopolita capital Buenos Aires mantêm o hábito de rezar aos pés do Cristo morto; em um país que, de resto, é o natal do próprio papa, que por aqui, além de pop, é cartão postal, e sua figura em tamanho real é mais presente que a de Messi, tão presente quanto a de Maradona, nos cantos mais visitados da cidade, como na paróquia de San Telmo, onde o rosto do papa figura logo na entrada, emoldurado pelo tradicional fileteado portenho.

Marcha de intimidação

Trata-se de Francisco, o papa progressista, mas que em junho comparou o aborto ao projeto nazista de eugenia, ainda que, segundo ele, com “luva branca”. Tamanha veemência é indicativa de que sua posição sobre o tema não é mera concessão, a contragosto, às correntes mais conservadoras da igreja, mas sim convicção pessoal.

Na semana passada, o bispo de Catamarca e uma outra importante autoridade eclesiástica dessa província argentina posicionaram-se de maneira inspirada em Bergoglio, por assim dizer. O bispo Luis Urbanc convocou uma marcha de silêncio contra a mudança na lei, que percorreu, numerosa, na capital da província, San Fernando, a rua de sugestivo nome Paseo de La Fe, inaugurada em 1995, em homenagem ao tricentenário do traslado da imagem da virgem do vale de Catamarca para a basílica da cidade.

“O silêncio é para representar essa criança que está por nascer e não pode falar”, disse o bispo Urbanc. A marcha do silêncio foi convocada logo depois que o senador federal pela província de Catamarca, Oscar Castillo, que é governista, declarou publicamente que pretende votar a favor da Ley de Interrupción Legal del Embarazo no dia 8 de agosto.

Já Ruben Martí, diretor do colégio padre Ramón de La Quintana, um colégio… franciscano, dirigiu-se ao senador via Facebook: “Cada um com sua consciência. O senador saberá conjugar o amor materno da Virgem com a aprovação dessa lei, segundo a qual dois entram em um hospital e um sai morto. O senador saberá conciliar mortes com saúde pública”.

Na avenida de Maio, que liga a praça de Maio ao Congresso de La Nación Argentina, o tema do aborto está nos muros, nos tapumes, na parte de trás das bancas de jornais; não sai dos jornais, como o sumiço do submarino ARA San Juan e a volta do país ao FMI. A Catedral de Buenos Aires está toda cercada pelo grosso gradeado que costuma proteger a Casa Rosada dos protestos populares contra, por exemplo, o descaso do governo ante o desaparecimento do submarino e a volta do país ao fundo. Na Argentina, as complicações por conta de abortos clandestinos representam a principal causa de morte materna.

Em “Os anos intoxicados”, terceiro conto de um dos livros, “As coisas que perdemos no fogo”, de uma das mais celebradas jovens escritoras argentinas (e são muitas a jovens escritoras argentinas celebradas como o futuro da literatura no país, como o futuro do país), três amigas se lembram de uma quarta, que se foi:

“Celina, uma colega de escola – um pouco mais velha que nós – que tinha morrido depois do quarto aborto, sangrando na rua enquanto tentava chegar no hospital. Os abortos eram ilegais, e as mulheres que os faziam jogavam em seguida as garotas na rua; nos consultórios havia cães, dizia-se que os animais comiam os fetos para não deixar rastros”.

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