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NOVOS LIVROS

As contradições e ambiguidades entre mães e filhos

Dois novos livros descrevem as difíceis relações familiares

As contradições e ambiguidades entre mães e filhos
A maternidade é uma mistura confusa de emoções e manifestações físicas (Foto: Pixabay)

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A leitura de Writers and Their Mothers talvez provoque uma crise de ansiedade em algumas mulheres. Afinal, trata-se do tema delicado da relação entre mães e filhos. É possível culpar as mães por prejudicarem o desenvolvimento psíquico de uma criança e, também, por distorcerem ou frustrarem a criatividade dos filhos no berço, ao amamentar ou ao ensiná-los a usar o penico? Quem sabe? Em um dos ensaios deste livro, a mãe de William Golding desculpa-se pouco antes de morrer por ter sido uma “péssima mãe”. “Não fui uma mãe carinhosa” era o que ela queria dizer, pensou Golding. “Muitas mamadeiras, pouco calor maternal do seio”.

Esses detalhes são descritos em um ensaio maravilhoso da filha de Golding, Judy Carver. Mildred Golding não foi uma “péssima” mãe, mas algumas se encaixam nesse perfil. A mãe de John Ruskin o obrigava a interpretar a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, repetidas vezes, assim que aprendeu a ler. A de Robert Lowell nunca o colocou no colo, para não amarrotar o vestido. É verdade que Mildred Golding era fisicamente distante, mas o filho admirava sua imaginação criativa. “Herdei de minha mãe, uma mulher com uma vida interior tumultuada e complexa, o talento imaginativo”, escreveu Golding.

Como previsível, alguns dos melhores ensaios de Writers and Their Mothers estão na seção autobiográfica, na qual os escritores relembram os fatos passados e reinterpretam o que viram ou imaginaram na infância. Muitos se lembram do silêncio em torno das frustrações conjugais das mães. A mãe de Ian McEwan era uma mulher reprimida pelas “certezas férreas” do marido militar; a de Andrew Motion refugiou-se no mundo dos livros como uma reação à coleção de armas e varas de pesca do marido. A mãe de Lyndall Gordon aceitava resignada o “tédio que paralisava o ar em volta do meu pai”.

Quando criança, Lyndall Gordon decidiu que nunca se “casaria com um homem fechado e distante como os da geração de minha mãe”. Essa geração do pós-guerra é descrita em Mothers: An Essay on Love and Cruelty de Jacqueline Rose. Essas foram as mães, escreveu Rose, “que se viram, depois de uma guerra devastadora, obrigadas a serem felizes”, como se o papel delas, como mães, fosse beijar um mundo admirável, enxugar as lágrimas e sorrirem.

Mothers é um ensaio apaixonado e polêmico, não só contra a obrigação de ser feliz, como também sobre as implicações pessoais e políticas desse papel falso. “O que estamos fazendo com as mães?”, perguntou Rose, quando sabemos que carregam o fardo “de tudo o que é mais difícil de observar em nossa sociedade e em nós mesmos”. É uma pergunta profunda e ela tenta respondê-la ao longo de uma enorme variedade de textos, cenários e experiências, de artigos do jornal Sun a peças de Eurípides, de acontecimentos dos EUA à África do Sul, de crítica feminista à psicanálise, poesia, ficção e história pessoal.

A extensão do conhecimento de Rose é fascinante. Talvez, para alguns leitores, seja exaustiva. Mas, apesar da análise complexa, sua conclusão é simples. A maternidade é uma mistura confusa de emoções e manifestações físicas. As mulheres ficam expostas a sentimentos extremos, que atingem o âmago de seu ser. “Não há ninguém no mundo que eu ame tanto quanto meu filho, mas ninguém no mundo me faz ficar tão zangada”, confessou Rose. “Em vez de um sentimento de bondade maternal”, disse outra mãe citada no livro, “a relação com meus filhos desperta um lado mau do meu caráter”.

Assim como o personagem Medeia mata os filhos para vingar-se do amante na peça de Eurípedes, os sentimentos contraditórios e, às vezes, cruéis das mães, permeia a narrativa deste livro, assim como “sangue, coragem, sofrimento e luxúria”. Rose escreveu que as mães trazem infelicidade para o mundo, porque “não ignoram a angústia inerente ao ser humano”.

Fontes:
The Economist-Reflections on motherhood, without the apple pie

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