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As Olimpíadas e seus muitos problemas

Painel do 'New York Times' discute os prós e contras da realização dos Jogos Olímpicos em Londres e no Rio de Janeiro

As Olimpíadas e seus muitos problemas
Londres sediará os Jogos Olímpicos entre 27 de julho e 12 de agosto (Reprodução/Internet)

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O Reino Unido sediou os Jogos Olímpicos de Verão pela última vez em 1948, logo após a Segunda Guerra Mundial, quando os londrinos estavam sem dinheiro e suas expectativas eram baixas. O estádio trazia uma citação do Barão Pierre de Coubertin, fundador das Olimpíadas modernas: “O importante não é vencer, e sim competir. O essencial na vida não é a conquista, mas um bom desempenho”. Dessa vez, os londrinos podem fazer mais do que participar. Eles podem vencer. Ou pelo menos no que diz respeito ao legado que os jogos deixarão para a cidade.

“Na perspectiva da London’s Citizen – uma organização comunitária das áreas sul e leste de Londres envolvida na preparação dos jogos – a cidade já está melhor por causa das Olimpíadas, porque nossa paisagem e nosso futuro foram transformados”, diz Neil Jameson, organizador-chefe da Citizens UK, uma organização envolvida com a preparação das Olimpíadas que, segundo ele, “entendeu que com organização, todas as ameaças se transformavam em oportunidades”.

A vitória que Jameson e os envolvidos esperam não é a do quadro de medalhas, mas sim a do pacto firmado entre as associações populares: salários de acordo com o “novo padrão londrino” (£ 8,30 por hora, ao invés do salário mínimo britânico de £ 6,08 por hora), a criação imediata de uma academia de construção para que os moradores do leste de Londres tivessem prioridade nos empregos relacionados aos jogos, e investimento nas escolas e hospitais da região. O único ponto ainda pendente na negociação é o uso de terrenos usados no evento, que devem ser utilizados para a construção de imóveis a preços populares para a população da zona leste de Londres.

A opinião de Jameson não é compartilhada por Andrew Zimbalist, professor de economia da Smith College. “O problema é que o planejamento das Olimpíadas acontece numa atmosfera frenética de competição com os outros candidatos, e essa competição faz com que o futuro da paisagem urbana seja ignorado. Hoje, o Ninho do Pássaro em Pequim está vazio, e o Estádio Olímpico de Sydney tem um custo operacional de US$ 30 milhões ao ano”. Zimbalist não acredita no discurso dos organizadores de que o Reino Unido irá colher os frutos dos Jogos Olímpicos, com mais britânicos envolvidos em esportes. “Provavelmente terminaremos com uma população ainda mais obesa, e com um péssimo uso do espaço urbano”.

Rio pode estar perdendo sua maior oportunidade

Os desafios enfrentados por Londres ganham uma nova proporção quando colocados em cidades como o Rio de Janeiro, escolhido para sediar a edição de 2016 das Olimpíadas. Assim como o East End londrino, as favelas cariocas são áreas pobres e negligenciadas, que veem na realização dos Jogos Olímpicos uma chance para uma maior integração com o resto da cidade. Para Theresa Williamson, fundadora da Comunidades Catalisadoras, uma organização de apoio às favelas, a oportunidade está sendo desperdiçada, e o discurso de “integração da cidade” e “combate à pobreza” é, na verdade, uma forma de acelerar o processo de gentrificação (fenômeno no qual moradores de uma área são obrigados a deixá-la por que ela se valorizou no mercado) semelhante ao que tirou muitos moradores do East End de suas casas.

“Seria muito mais criativo, econômico e significativo se os recursos fossem aplicados na integração participativa. Com as Nações Unidas prevendo que, em 2050, 3 bilhões de pessoas ao redor do planeta viverão em favelas, esse sim seria um legado do qual o Rio de Janeiro poderia se orgulhar, e que serviria de exemplo para o mundo”, afirma Williamson.

Já Bruno Reis, diretor-geral do núcleo paulista da Executive Analysis, uma empresa de previsão de riscos, vê nos grandes investimentos no setor de infraestrutura, uma oportunidade para que o Rio repita o sucesso de cidades que sediaram os jogos. “Para capitalizar em cima dessas oportunidades, o Brasil precisa de transparência fiscal e eficiência nos investimentos públicos e privados. É preciso também seguir rigorosamente os prazos dos projetos, evitando obras aceleradas de última hora, que são vulneráveis à corrupção, e que colocariam o evento em risco”, diz Reis, que afirma ainda que somente as ações do Brasil nos próximos anos poderão determinar se o Rio de Janeiro seguirá o caminho vitorioso de Barcelona ou o caos que se instalou em Atenas.

Esqueça as Olimpíadas. Voe para Nova York

Julian Cheyne, cuja propriedade foi demolida pelo projeto dos Jogos Olímpicos londrinos, lamenta a realização das Olimpíadas e acredita que o preço dos jogos será muito mais alto do que os US$ 24 bilhões anunciados. “Os Jogos Olímpicos vão acelerar a expansão do centro financeiro rumo ao leste da cidade, enquanto a população da região continuará a ser marginalizada, da mesma forma que os moradores do East End foram despejados em nome do lucro das empreiteiras”.

Já Mitch L. Moss, autor de How New York City Won The Olympics (“Como Nova York Venceu as Olimpíadas”), acredita que a Big Apple é a cidade que mais lucrará com os jogos de Londres, já que uma enorme massa de londrinos com muito dinheiro a ser gasto no mercado nova-iorquino deverá cruzar o Atlântico para fugir do trânsito caótico, das quedas na velocidade da internet e da gigantesca presença militar (maior do que o contingente britânico no Afeganistão), que garantirá a paz na capital britânica.

Fontes:
The New York Times - Are the Olympics More Trouble Than They’re Worth?

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