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CRISE HABITACIONAL

As raízes da insatisfação em Hong Kong

A polêmica lei da extradição de Hong Kong foi o estopim para as manifestações. Mas insatisfação popular tem outras raízes, entre elas, a crise habitacional

As raízes da insatisfação em Hong Kong
Na imagem, um apartamento de cerca de 2,7m² (Foto: Anne Roberts/Flickr)

Uma das regiões que mais trabalham e com baixos salários. Assim poderia ser classificada Hong Kong, que, apesar de autônoma, ainda é uma região administrativa da China.

O salário mínimo é de cerca de US$ 4,82, abaixo dos US$ 7 necessários calculados pela instituição Oxfam, do Reino Unido. Em Hong Kong, a média de dias de férias gira em torno de 17 por ano. Já as horas de trabalho, em média, ficam por volta de 50 horas semanais. Quase uma em cada cinco pessoas vive na pobreza.

Toda essa atmosfera “workaholic” poderia ser traduzida em salários dignos e alta qualidade de vida, mas não é o que acontece. A região conta com pequenos cubículos, chamados de “casa” por alguns e apelidados de “celas” por outros.

Em Hong Kong, que tem 7,4 milhões de habitantes, é normal ver jovens entre 20 e 30 anos ainda morando com os pais. Alguns, até mesmo dividem camas com familiares, como é o caso do enfermeiro Philip Chan, de 27 anos, que divide um beliche com sua irmã mais velha, de 30 anos.

Isso porque os salários em Hong Kong não acompanharam a alta nos valores de aluguéis e moradia. Estima-se que o salário mínimo tenha aumentado quase um quarto, enquanto os preços de habitação mais do que triplicaram na última década. Uma casa em Hong Kong custa aproximadamente 20 vezes a renda anual de uma família.

A difícil situação econômica, até mesmo para trabalhadores com ensino superior completo, levou ao expansão da tendência de microapartamentos em Hong Kong, um fenômeno atual também na América Latina.

Na região, é comum encontrar microapartamentos de cerca de 4,5m² – ainda menores do que o microapartamento mais barato de Manhattan, em Nova York, que tem 6,3m². Para fins de comparação, uma vaga de estacionamento, de acordo com a Brasil Park, é de 12,5m².

Estima-se que pelo menos 210 mil moradores de Hong Kong ocupem esse tipo de moradia, que é conhecida como apartamentos subdivididos, no qual um apartamento é dividido ilegalmente em várias partes para suportar mais pessoas. Outras 250 mil pessoas estão esperando por acesso à moradia pública.

Kenneth Leung, de 55 anos, formado no ensino superior, mora em um microapartamento de cerca de 9,3m². No entanto, Leung revelou que é normal que enfrente dificuldades para pagar o aluguel, que custa US$ 512. Ele recebe, trabalhando como segurança, US$ 5,75 por hora. Leung trabalha 12 horas por dia e seis dias por semana. Além do aluguel, ainda precisa lidar com os outros custos de vida.

“Pensamos que, se você obtiver uma educação melhor, poderá ter uma renda melhor. […] Mas em Hong Kong, nas últimas duas décadas, as pessoas podem conseguir uma educação universitária, mas não estão ganhando mais dinheiro”, apontou Leung em entrevista ao New York Times.

Atualmente, os moradores de Hong Kong protestam contra uma lei de extradição, que já foi arquivada pelo governo, mas que, segundo os manifestantes, ainda pode ser resgatada. Porém, a insatisfação vem de anos antes, com raízes na situação econômica da região e da política, diretamente influenciada por Pequim.

Defensores do governo de Hong Kong, dirigido por Carrie Lam, apontam a maior integração com a China como a saída para as dificuldades econômicas. Os manifestantes contrários à China, porém, dizem que Pequim não pode garantir nem mesmo a liberdade de expressão dos cidadãos de Hong Kong. Ademais, os manifestantes apontam que o governo favorece os promotores imobiliários, pois lucra com a venda de terreno para empreendedores imobiliários.

“Muitas pessoas de Hong Kong enfrentam sérios problemas financeiros, como o alto preço da moradia. […] Eles tentam trabalhar duro, mas não conseguem ganhar dinheiro suficiente para ter uma condição de vida melhor. Eles não podem ver seu futuro, então eles estão frustrados”, explicou o enfermeiro Philip Chan, apontando a situação habitacional de Hong Kong como um dos motivos para as intensas manifestações.

A visão de Chan é acompanhada pelos argumentos do professor de economia pública Ho-fung Hung, da Universidade Johns Hopkis. Para ele, a falta de perspectiva econômica para os mais jovens resulta no “desespero e raiva com relação ao status quo”.

Em um vídeo postado no canal “I am nut Alone“, no YouTube, duas amigas mostram como é interior de um microapartamento em Hong Kong, classificado por elas como “ridiculamente minúsculo”. Confira abaixo:

Fontes:
The New York Times-Tiny Apartments and Punishing Work Hours: The Economic Roots of Hong Kong’s Protests

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1 Opinião

  1. Cesar Augusto disse:

    Realmente o problema de habitação devido ao espaço demográfico é algo inquestionável, a matéria abordou muito bem, o problema da matéria foi na questão de riqueza e pobreza, Hong Kong não é um pais pobre, a pobreza de um habitante nativo, não se compara com a pobreza de um brasileiro que em sua maioria recebe um salário de $599,72 contra $1644,56 de “chinês” de hong kong,na questão econômica tudo é oferta e demanda,como a demanda por habitação é muito alta,não vai ser o governo que vai solucionar o problema de preço elevado e sim o mercado.

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