Início » Internacional » Assassinato brutal de menina expõe racha religioso na Índia
ESTUPRO E TORTURA

Assassinato brutal de menina expõe racha religioso na Índia

Asifa Bano, uma menina muçulmana de oito anos, foi vítima de estupro coletivo e tortura por hindus na parte indiana da Caxemira

Assassinato brutal de menina expõe racha religioso na Índia
Asifa fazia parte de uma comunidade de pastores nômades muçulmanos (Foto: Arquivo Pessoal)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

O brutal assassinato de uma menina de oito anos de idade abalou a parte indiana da Caxemira e acirrou a tensão entre hindus e muçulmanos na região, que há décadas é disputada entre Índia e Paquistão.

Asifa Bano fazia parte de uma comunidade muçulmana de pastores nômades chamada gujjars, que conduzem cabras e búfalos, pelas montanhas do Himalaia. A comunidade estava estabelecida em Kathua, um vilarejo a 72 km ao leste do distrito de Jammu, região predominantemente hindu.

O crime

Asifa Bano desapareceu no dia 10 de janeiro. Naquela tarde, ela tinha ido à floresta para buscar os cavalos da família. Porém, apenas os cavalos retornaram. Os pais de Asifa, Naseema Bibi e Muhammad Yusuf Pujwala, passaram a fazer buscas na floresta com a ajuda de vizinhos para encontrar a menina.

Sem sucesso, eles retornaram para casa e dois dias depois deram parte do desaparecimento de Asifa. Pujwala diz que o caso foi tratado com desdém pela polícia, que não foi muito prestativa. Segundo o pai da menina, os agentes chegaram a sugerir que ela poderia ter fugido com algum garoto.

Cinco dias após o desaparecimento, Pujwala estava sentado do lado de fora de casa quando um vizinho chegou correndo e disse que o corpo de Asifa foi encontrado a centenas de metros dali, perto de um templo hindu.

De acordo com a investigação, a menina foi raptada e levada para um templo hindu, onde foi mantida em cativeiro por quatro dias. Ao longo deste período, ela foi dopada, estuprada sistematicamente por pelo menos três homens e torturada. Depois, ela foi assassinada por estrangulamento e, em seguida, teve a cabeça partida por uma pedra. O corpo foi abandonado perto do templo.

“Eu sabia que alguma coisa horrível tinha acontecido com a minha menina. […] Ela foi torturada, teve as pernas quebradas. As unhas dela estavam pretas e tinham marcas azuis e vermelhas nos braços e dedos”, disse a mãe de Asifa, que foi junto com o marido reconhecer o corpo.

Tensão religiosa e disputa territorial

Durante os meses seguintes, o caso foi tratado como mais um estupro coletivo, tipo crime nefasto comum na Índia. No curso da investigação, a polícia revelou que o crime foi planejado com o intuito de aterrorizar membros da comunidade nômade gujjars e expulsá-los da região. Isso porque pastores nômades têm o costume de usar áreas públicas como pasto para seus animais, o que, somado à tensão religiosa, vem causando disputa na região.

O crime foi orquestrado pelo funcionário público aposentado Sanji Ram, de 60 anos. Ele mandou seu sobrinho e um grupo de policiais sequestrarem Asifa. Segundo o relatório da polícia, Ram disse ao sobrinho que o momento era “propício” para o rapto. Oito pessoas foram presas pelo crime, incluindo o policial que inicialmente ficou ao encargo da investigação. Posteriormente foi revelado que ele recebeu mais de US$ 6 mil em propina para encobrir o crime e chegou a lavar as roupas com as quais a menina foi encontrada para limpar manchas de sangue e vestígios de sêmen que poderiam levar aos autores.

A tensão territorial e a disputa de terra na região foram citadas tanto pelo advogado que representa a família de Asifa quanto pelo advogado que defende os réus. “Teve a ver com [disputa] de terra”, disse, em entrevista à rede BBC, Talib Hussain, advogado e ativista social que liderou protestos em apoio à família da menina. Já o advogado dos acusados, Ankur Sharma, diz que muçulmanos nômades estão tentando alterar a demografia de Jammu, onde hindus representam a maioria. “Eles estão usurpando nossas florestas e recursos hídricos”, disse Sharma à BBC.

Segundo uma reportagem da rede Al Jazeera, Sanji Ram e seus comparsas escolheram Asifa porque ela adorava levar os cavalos para pastar na floresta, o que fazia dela um alvo fácil.

O costume de Asifa é confirmado por Naseema, que descreve a menina como um “pássaro cantante” que gostava de “correr como um cervo”. Naseema não é mãe biológica de Asifa. Ela e Pujwala perderam duas filhas em um acidente há alguns anos. Depois, ela insistiu para que o marido adotasse Asifa, que é filha de seu irmão. “Ela era o centro do nosso universo”, diz Naseema.

Autores do crime recebem apoio

Apesar do crime brutal ter desencadeado muitos protestos em solidariedade à família de Asifa pela Índia, a prisão dos autores do crime despertou ira nos residentes de Jammu, que tem maioria hindu.

Eles afirmam que os detidos são inocentes e organizaram marchas contra sua prisão. Em um dos protestos, um grupo de advogados tentou impedir policiais de entrar em um tribunal para apresentar as acusações.

Dois ministros do partido nacionalista hindu Bharatiya Janata (BJP, que significa “Partido do Povo Indiano”) participaram dos protestos em prol dos detidos. Segundo a Al Jazeera, disputas de terra entre muçulmanos e hindus sempre ocorreram nas regiões de Jammu e Caxemira. Porém, a situação piorou após a chegada do primeiro-ministro Narendra Modi ao poder, em 2014.

O silêncio de Modi e de seu partido em relação ao crime vêm sendo alvo de críticas. Muitos acusam lideranças federais do partido de manter silêncio, enquanto lideres locais da legenda em Jammu e na Caxemira fazem um barulhento protesto em apoio aos detidos. Monobina Gupta, editora-chefe do site de notícias indiano The Wire, escreveu que o silêncio do BJP “promove a cultura da impunidade para infratores que têm como alvo muçulmanos e outras comunidades marginalizadas”.

O silêncio de Modi também foi criticado em um editorial do New York Times publicado na última segunda-feira, 16. “O primeiro-ministro Narendra Modi da Índia tuíta frequentemente e se considera um talentoso orador. No entanto, ele perde a voz quando se trata de falar dos perigos enfrentados por mulheres e minorias que frequentemente são alvos de forças nacionalistas e municipais que são parte da base de seu partido Bharatiya Janata. […] O silêncio de Modi é tão desconcertante quanto lastimável. Ele parece ter falhado em aprender a lição de seus predecessores que não responderam energicamente aos protestos no final de 2012 e início de 2013, após uma jovem ser estuprada e assassinada em um ônibus em Nova Déli”, diz o editorial.

O texto ressalta que a coalizão de Modi foi eleita justamente com a promessa de proteger os mais vulneráveis que, segundo eles, foram deixados para trás em gestões anteriores marcadas por corrupção.

“Em vez disso, ele [Modi] exibe um padrão de silêncio e deflexão profundamente preocupante para qualquer pessoa que se preocupa com a saúde da maior democracia do mundo. […] O primeiro-ministro tem o dever de salvaguardar e lutar por todas as pessoas da Índia, não apenas pelos que são alinhados a ele politicamente”, finaliza o editorial.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *