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Nepotismo na América Latina

Bachelet, Fujimori e os pecados dos parentes

O nepotismo continua a ser uma característica política da América Latina

Bachelet, Fujimori e os pecados dos parentes
Concessão de privilégios também é uma prática comum no Chile de Michele Bachelet (Reprodução/Wikipedia)

Em As origens da ordem política, Francis Fukuyama, um cientista político norte-americano, descreve a longa batalha durante séculos entre a “propensão natural do ser humano de favorecer a família e os amigos”, que no contexto dos sistemas políticos intitula-se patrimonialismo, e os “incentivos compensatórios” de um Estado meritocrático, que se refletem no respeito à leis e em um governo responsável. Na opinião de Fukuyama, o patrimonialismo é uma tendência política predominante na América Latina, sobretudo, porque também foi uma prática muito comum na Espanha colonial. As elites acostumaram-se a explorar o Estado em benefício próprio. Por esse motivo, a desigualdade socioeconômica e o respeito precário às leis são características marcantes da região.

O Chile é o país latino-americano onde as leis são mais respeitadas. E a presidente Michelle Bachelet concentrou a ação de seu segundo mandato iniciado há um ano em reduzir a desigualdade. No entanto, a concessão de compensações ou privilégios também é uma prática comum no Chile governado por Bachelet.

Em fevereiro a revista Qué Pasa revelou que o filho da presidente, Sebastián Dávalos, havia obtido um empréstimo de US$10 milhões do segundo maior banco do Chile para uma pequena empresa imobiliária descapitalizada chamada Caval, da qual sua mulher tem uma participação de 50%. O empréstimo foi concedido um dia depois da reeleição de Bachelet. A empresa Caval foi usada para comprar três terrenos na região rural, que logo em seguida foi reorganizada administrativamente e se tornou uma área de desenvolvimento urbano. A empresa vendeu os terrenos alguns dias depois com um lucro de US$5 milhões. O prejuízo à imagem de Bachelet foi enorme. De férias, quando a notícia foi divulgada, ela demorou a reagir. Em seu pronunciamento falou “como mãe e presidente” de “momentos difíceis e dolorosos”. Mas seu primeiro papel superou o segundo: ela ainda terá de condenar os atos do filho.

À primeira vista a presidente do Peru, Keiko Fujimori, uma política conservadora de 39 anos, tem pouco em comum com Michelle Bachelet, uma socialista experiente. Entretanto, ela também tem um problema familiar. O pai, Alberto Fujimori, que governou o Peru como um autocrata de 1990 a 2000, está preso por abusos de direitos humanos e corrupção. Quando Keiko Fujimori concorreu à presidência em 2011 (com uma derrota por uma margem bem pequena de votos), muitos presumiram que se candidatara como um meio de perdoá-lo. A Sra. Fujimori reconhece que o pai cometeu “erros”, ao permitir a corrupção e fechar o Congresso. Porém só essas críticas não são suficientes para desvinculá-la da figura política paterna. Alguns assessores desacreditados do pai são pessoas importantes em seu partido.

Na América Latina a família é uma instituição muito mais forte do que na Europa. O nepotismo continua a ser uma característica política da região. Porém os atuais eleitores mais sofisticados não irão tolerar esse favoritismo sem reagir.

 

Fontes:
The Economist - Putting politics before family

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