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EXCESSO DE ADULAÇÃO

Bajulação a Donald Trump destrói reputações

O coro de elogios da equipe de Donald Trump a sua atuação está destruindo reputações de políticos e militares

Bajulação a Donald Trump destrói reputações
A chuva de bajulações da equipe do presidente americano é semelhante à uma tragédia de Shakespeare (Foto: Flickr)

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Como regra, não é ideal que uma reunião de secretários de Estado e assessores de um presidente da República pareça uma tragédia de Shakespeare. No entanto, essa foi a impressão causada pela competição de lisonjas no primeiro encontro do gabinete do presidente Donald Trump, em 12 de junho.

O vice-presidente Mike Pence foi o primeiro a adulá-lo dizendo que servir a um presidente “que mantém a palavra perante o povo americano” era “o maior privilégio de sua vida”. Quando Trump fez um sinal com a cabeça e disse com indiferença “bom trabalho”, seus secretários de Estado, entre eles ex-governadores, generais de reserva e mais de um bilionário, seguiram o exemplo de Pence. Os elogios enalteceram seus méritos no combate ao crime, no seu talento na política externa e no amor que inspirara no Mississippi. “Tiro o chapéu para sua competência!” disse o secretário de Energia, Rick Perry, que em 2015 chamou Trump de “câncer do conservadorismo”. Reince Priebus, chefe de gabinete da Casa Branca, indiferente aos rumores que deve ser demitido em breve declarou: “Agradecemos a oportunidade e a bênção de trabalhar em seu governo.” A mensagem escrita no Twitter por um usuário de Toronto, “Esta é uma cena do início de Rei Lear”, se difundiu rapidamente nas redes sociais.

Enquanto Trump ouvia satisfeito os discursos bajuladores e se autoelogiava como o presidente mais “ativo” desde Franklin D. Roosevelt, era compreensível que alguns se lembrassem das tragédias de Shakespeare. Essas obras, muitas vezes, mostram como a sombra da bajulação obscurece o julgamento dos grandes homens, sobretudo, quando o orgulho os impede de perceber que estão sendo lisonjeados. Ao dividir seu reino entre as três filhas, Lear confunde os elogios em excesso com amor e mergulha o reino em uma sucessão de tragédias.

Em mais uma demonstração de que as obras de Shakespeare escritas há mais de 400 anos abordam temas políticos atuais, a reunião do gabinete de Trump ocorreu no dia da estreia da peça Júlio César em Nova York em um teatro ao ar livre no Central Park, na qual o ditador romano é interpretado por um ator louro vestido com um terno e uma gravata vermelha. A peça irritou a mídia conservadora e o filho do presidente, Donald Trump Jr., que escreveu no Twitter: “Gostaria de saber qual é a parcela do financiamento desse tipo de “arte” pelos contribuintes.”

Portanto, os que traçam paralelos entre as tragédias de Shakespeare e o governo de Trump, na verdade, estão comparando cenários semelhantes. A Casa Branca atual assemelha-se a uma corte medieval, com seus cortesões e exibições de fidelidade forçadas, tudo sob o olhar atento de uma família que detém o poder, como revelado pela expressão impassível de Jared Kushner, genro e conselheiro sênior de Trump, enquanto assistia às demonstrações de subserviência dos colaboradores mais próximos do presidente.

Mas Trump não é o Rei Lear, cuja velhice foi precedida por um longo e próspero reinado. Nem ele é Júlio César, cuja grandeza o tornou uma presa frágil dos aduladores. Com um início de governo decepcionante e polêmico, Trump usou a primeira reunião ministerial para organizar uma exibição televisiva de lealdade. Ele sabia muito bem que os homens e mulheres poderosos da sala o estavam adulando e saboreou cada minuto da humilhação deles. A Trump falta a imponência de um herói shakespeariano. Ele é apenas um fanfarrão egocêntrico que precisa de uma corte de bajuladores.

Fontes:
The Economist-Donald Trump’s need for flattery is trashing reputations

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