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Conhecendo a Espanha

Barcelona II

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Montjuïc

A outra colina que dá vista para a cidade é o Montjuïc. É onde se construíram os pavilhões para a grande Exposição Internacional de 1929. Lá estão abrigados vários museus, além do "Pueblo Español". Esta é uma reprodução de ruas e praças da Espanha, mostrando os diversos tipos de arquitetura existentes no país. É tão autêntico como as árvores artificiais da Disneyworld, nas quais cantam passarinhos de plástico. Os americanos gostam. Pode ter um certo valor didático, para se levar crianças em idade escolar. Fora isso, melhor manter distância.

Já os museus são dignos de visita. O Museu de Arte da Catalunha, instalado no Palácio Nacional construído para a Exposição de 1929, tem uma importante coleção de arte dos períodos romano e visigodo. O Museu Arqueológico tem peças importantes da Pré-História e das Eras Grega e Romana. A Fundação Miró tem um grande acervo de obras do grande pintor, mas na minha opinião, considerando o alto preço do ingresso e a quantidade de outros pontos de interesse na cidade, só deve ser visitado pelos grandes admiradores do artista.

No topo do Montjuïc está o moderníssimo Estádio Olímpico. Construído para as Olimpíadas de 1992, utilizando as mais recentes tecnologias em termos de Placares Eletrônicos e outras bossas, o Estádio preservou a fachada do estádio antigo que existia lá, criando um contraste entre o moderno e o tradicional.

Montserrat e outros passeios

Existem no mundo vários lugares chamados Montserrat, nos diferentes continentes. Todos eles devem seu nome a este morro, o original. O nome é em catalão, pronuncia-se como se escreve, enunciando levemente os dois t e quer dizer Monte Serrado. Isso porque é uma serra, como nós chamamos, com uma série de picos pontiagudos, um após o outro, fazendo a gente lembrar que chama-se serra a uma cadeia de montanhas porque essa sucessão de picos lembra os dentes de um serrote. No caso, são picos finos e compridos, parecidos com os da região de Teresópolis, no Rio de Janeiro. Aliás, em Montserrat, como em Teresópolis, existe um pico chamado Dedo de Deus. O nosso, na minha opinião, parece mais com um dedo do que o de lá.

A solidão e a dificuldade de acesso atraíram há séculos comunidades religiosas que queriam se afastar do contato com o mundo. Já no século IX havia um monastério no alto da serra. No século XII, conta a lenda, pastores da região acharam uma estátua da Virgem Maria dentro de uma gruta. Essa estatua é adorada até hoje. Peregrinos do mundo inteiro vêm vê-la. Montserrat, e sua virgem, tornaram-se o centro religioso da Catalunha.

Em 1812 o exército de Napoleão destruiu a antiga abadia, e os edifícios existentes hoje são posteriores a isso, sem interesse histórico ou arquitetônico.

Um programa é visitar a estátua da Virgem. Ela está exposta em um nicho acima do altar principal da igreja, podendo ser vista pelos devotos que assistem à missa. Quem quiser ver de perto pode entrar numa fila à direita da igreja, passar uns dez ou quinze minutos subindo escadas, e afinal ver de perto a pequena estátua, durante uns poucos segundos, antes de ser empurrado pelo pessoal que vem atrás na fila.

No geral, o passeio vale pelas visitas impressionantes. Além do teleférico que sobe até a abadia, existem mais dois levando a outros picos, e para quem não tem medo de altura a viagem é um belo espetáculo.

Acessíveis por barco ou avião a partir de Barcelona estão as ilhas Baleares: Mallorca, Minorca e Ibiza, famosas pelas suas praias e pelo clima ameno. Palma de Majorca é um tradicional lugar de férias dos ricos, espanhóis ou não, e Ibiza se tornou famosa nos últimos anos.

Uma excursão que se pode fazer a partir da cidade é ao Principado de Andorra, um daqueles pequenos reinos independentes que vêm da Idade Média e sobrevivem até hoje, e parecem um país de faz-de-conta. Eram as antigas cidades-nação. Na Itália antiga, por exemplo, cidades como Florença ou Veneza eram nações independentes. A Itália de hoje é a união de mais de dez desses diferentes estados. Por razões difíceis de entender, alguns como Andorra, Mônaco, San Marino e Lichetenstein ficaram isolados até hoje.

GoogleArquitetura e Design

Barcelona disputa com Milão a liderança européia no campo de design. E também nas artes gráficas. A indústria editorial da Espanha está toda lá, e não é à toa que a gente repara que as pessoas se vestem melhor em Barcelona — o censo estético do barcelonês é mais desenvolvido.

Isso é uma verdade também na arquitetura. Os grandes arquitetos espanhóis são de Barcelona, e a população se orgulha do fato de sua cidade ser um centro mundial de arquitetura.

Falando em arquitetura em Barcelona o nome que é sempre lembrado é o de Antonio Gaudí (1852-1926). Esse grande artista visionário deixou poucas obras, já que não era fácil encontrar alguém disposto a bancar a construção de seus projetos. Em 1882 Gaudí foi encarregado de assumir o projeto da Igreja da Sagrada Família que estava em início de construção. Desde então até morrer mais de quarenta anos depois ele Googletentou levar adiante o projeto dessa que seria primeira grande igreja moderna do mundo. Gaudí conseguiu levantar quatro grandes torres das doze que seu projeto previa. As torres estão lá até hoje, sem a igreja. O arquiteto não deixou um projeto no papel: seus planos estavam registrados apenas na memória, e as divergências sobre como finalizar a obra, aliadas à falta de dinheiro, fizeram que durante mais de cinqüenta anos nada fosse feito. Atualmente estão em andamento obras para levar a construção até o final.

Hoje em dia todos os turistas que vão a Barcelona tomam um táxi até lá e tiram fotos dessas torres malucas, que misturam o gótico (é só visitar a Catedral, na cidade antiga, para ver que Gaudí se inspirou na torre gótica de mais de 500 anos atrás para projetar as usas) com o art-nouveau e o modernismo.

É culturalmente correto gostar de Gaudí, mas eu vou cometer a heresia de dizer que não gosto. Vendo em fotografias gostava, mas ao vivo não. Tentarei explicar porque: a igreja, como já disse, é tão complicada que está em obra há cem anos, e mal começou, de certo modo. Você vai lá, tira fotos do lado de fora, estupefato com aquelas torres, e daí paga US$ 4 para entrar e ver como é aquela maravilha por dentro. Surpresa! Não tem lá dentro. Não há nada. É só um canteiro de obras, que ainda está no sub-solo. Isso é arquiteto?

Daí a gente vai visitar o "Parque Guell", e acha bonito. Sim, bonito, mas é só um muro, o portão é uma pequena construção. O resto é um belo jardim. Esse pouco que está construído lá é cheio de cores, parece mais uma casa de boneca de Walt Disney, do que a criação de um arquiteto europeu (dizem que Disney se inspirou em Gaudí para criar alguma de suas obras), e como parque é ótimo. Mas não é propriamente arquitetura.

Em seguida a gente vai para o "Passeig de Gràcia" e vê as duas casas, "Batlló" e "Milà". As duas, mais uma vez, parecem mais produto de Walt Disney ou a obra de um pintor modernista, do que moradias. É muito bonito visualmente, mas não é prático. É claro que é uma construção caríssima. E arquitetura não é arte, é construção. Artista plástico tem de fazer quadros e esculturas. Arquiteto tem de projetar coisas para serem construídas, e isso normalmente pede uma preocupação com o custo e a duração da obra.

Partindo de um objetivo dado, por exemplo "construir um edifício de apartamentos", compete ao arquiteto, respeitando os desejos de seu cliente, bolar a melhor maneira de atingi-los. Criando uma construção bonita, sim, mas também funcional a um custo razoável. Quando o arquiteto, como o caso de Gaudí nas casas "Milà" e "Batlló", cria uma fachada que é também, toda ela, uma escultura, está fugindo aos objetivos básicos de sua profissão. Está misturando arquitetura com artes plásticas.

Não admira que a obra desse arquiteto que viveu ali durante mais de setenta anos se limite a menos de meia dúzia de construções.

Último dia em Barcelona

Queríamos ir à noite ao "Palau de la Musica" assistir a um concerto. Passamos na bilheteria à tarde para comprar ingressos. Antes de nos dirigir à moça da bilheteria, ficamos olhando em volta procurando um mapa ou diagrama da platéia para sabermos os tipos de ingresso existentes. Procuramos, procuramos, e nada. Desistimos e nos dirigimos à moça da bilheteria.

Assim que chegamos junto ao guichê a moça apertou um botão e surgiu, voltada para nós, uma tela de computador com o famoso diagrama que tínhamos estado procurando. Em cores, muito bem desenhado, a tela mostrava os vários tipos de lugares, e seus preços. Os lugares já vendidos tinham uma cor, e os ainda livres, outra. À medida que fazíamos perguntas, uma flechinha vermelha percorria a tela e apontava os lugares sobre os quais estávamos falando. Tudo muito fácil. Escolhemos nossos lugares e fomos embora, para voltar a noite.

Em seguida tínhamos de passar na Ibéria, a companhia de aviação, para fazer uma modificação nas nossas passagens. Era uma modificação importante, que envolvia termos ou não o direito de parar em mais uma cidade sem pagar extra. Ficamos ali sentados em frente ao agente durante uns vinte minutos. De vez em quando ele fazia alguma pergunta, e voltava ao terminal de computador. De repente começamos a notar uma estranha movimentação. Guardas entravam e saiam, telefones tocavam e os agentes trocavam cochichos entre si, a agência lentamente se esvaziava o agente que nos atendia parecia não dar muita bola para tudo aquilo, mas de repente virou-se para nós e disse: "Sinto muito! É tudo provavelmente bobagem, mas temos uma ameaça de bomba. Houve um telefonema anônimo, a polícia está aqui e não achou nada, mas temos de abandonar a agência. Voltem depois do almoço e se tudo correr bem resolveremos seu assunto."

Saímos correndo, apavorados, achando que a bomba ia explodir a qualquer momento. Atravessamos a avenida e, do outro lado, achando que estávamos seguros, ficamos observando para ver a bomba explodir. Esperamos uns dez minutos e nada. Resolvemos ir embora e voltar mais tarde.

É impressionante o terrorismo na Espanha. Várias vezes por mês explodem bombas, geralmente com vítimas fatais. A presença policial é maciça. A polícia está nas ruas, em todos os lugares, o tempo todo. Ao contrário do Brasil, onde consideramos seguro andar por perto de onde estiver a polícia, na Espanha é melhor manter distância. Os terroristas gostam de praticar atentados contra policias, por isso é melhor passar longe deles.

Os terroristas são da ETA, a organização basca que diz que quer separar sua região do resto do país. Esses separatistas não representam nada: a população de sua região está perfeitamente sintonizada em ser membro da nação espanhola. É só um pequeno grupo de fanáticos que está batalhando pela independência.

Até o século passado não havia movimento separatista: os bascos estavam perfeitamente contentes com serem parte da Espanha. Em algum momento do século XIX o governo central tentou diminuir os direitos de cada governo regional, centralizando o poder, e isso animou a criação de um movimento de independência dos bascos, que são um povo que originalmente falava uma língua totalmente diferente do resto do país. Gradualmente, estimulados pelo radicalismo de Franco, que tentou esmagar os sentimentos nacionalistas bascos, esses extremistas foram desenvolvendo seus sentimentos radicais, até este ponto em que andam soltando bombas pelas cidades, sem pensar em onde elas vão estourar.

Bom: deixamos passar duas horas e voltamos à agência da Ibéria. Tudo estava calmo, e pudemos recomeçar. Conseguimos resolver nosso problema, e recebemos a informação de que o alarme de bomba tinha sido falso. Tudo bem. A experiência tinha sido interessante. Ao contrário do que havia sido dito antes, nos cobraram algo como US$ 100 pela modificação que pensávamos que era gratuita, mas tudo bem. Pelo menos a bomba não explodiu.

O concerto à noite foi muito bom. O teatro é muito bonito: parece de Gaudí, talvez, mas não é. Na manhã seguinte deixamos Barcelona com sensação de que iríamos ter saudades.

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3 Opiniões

  1. Fabio Leonel disse:

    Muito bom o texto do Fernando Magalhães. Dá vontade de conhecer Barcelona e a Espanha em geral.

  2. Markut disse:

    Bons os comentários do Fernando Magalhães.
    Mas, Fernando, o que tocou no concerto? Se for de música clássica, os barceloneses têm uma tradição de bom gosto e sofisticação, que não deveriam ser ignorados.

  3. Antonio Marques da Rachel disse:

    Ao almoçar em Barcelona pergunte os preços antes. Em especial vinhos porque alguns restaurantes, até no lugar mais badalado Las ramblas, não apresentam cartas de vinhos. Quando voce pedir uma ‘media botella’ – meia garrafa – e o garçon perceber que vc não é local, vai lhe abrir de costas, sem a possibilidade de experimentar, um vinho catalão de baixa qualidade e lhe cobrará 15 euros !!! (o preço normal de meia garrafa é 5 a 7 euros !!!). Bacalhau, em vários restaurantes, vem empapado num molho de tomate, pepino e cebola, que adultera o sabor. Preço médio 17 euros. Exemplo de restaurante com atendimento ruim é o EUSKAL nas Ramblas.

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