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Jean-Paul Sartre

Biografia de Sartre descreve a evolução de suas ideias ao longo da vida

Em 'Sartre: A Philosophical Biography', Thomas Flynn analisa as dimensões filosóficas, políticas e literárias de suas obras

Biografia de Sartre descreve a evolução de suas ideias ao longo da vida
Jean-Paul Sartre foi um dos grandes filósofos franceses do século XX (Reprodução/Internet)

Quando o filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre morreu em abril de 1980, 50 mil pessoas acompanharam seu funeral pelas ruas de Paris. Uma justa homenagem de um país onde a vida intelectual é tão valorizada a um dos grandes filósofos franceses do século XX. Mas os méritos dos filósofos são julgados por suas ideias e não pelos funerais. Neste teste rigoroso, como a filosofia de Sartre seria julgada? Em Sartre: A Philosophical Biography, Thomas Flynn descreve a evolução intelectual de suas ideias ao longo da vida e analisa as dimensões filosóficas, políticas e literárias de suas obras.

A maioria dos filósofos técnicos tende a ver o mundo como cientistas sem embasamento científico. Eles discutem e questionam temas como tempo, conhecimento, matéria, números e probabilidades. Mas Sartre, que também escreveu livros de ficção e peças de teatro de grande sucesso de público, via o mundo com a perspectiva de um romancista preocupado com a relação entre os seres humanos e o mundo. Segundo ele, os seres humanos não eram físicos distantes da realidade ou observadores passivos. Viviam em um mundo material, que poderia ajudá-los ou prejudicá-los. Mesmo em situações de conflito ou harmonia, as pessoas interagiam entre si. Sartre preocupava-se, em resumo, com a condição humana. O tema soa de uma complexidade hermética. No entanto, seus elementos essenciais são familiares: a mente, os valores e a liberdade do ser humano. Sartre uniu esses elementos em grandes equações flexíveis.

A mente do ser humano é livre, em especial por sua capacidade de imaginar possibilidades e de pensar em um mundo diferente de sua realidade. As pessoas não estavam presas a dogmas religiosos ou éticos e, portanto, precisavam encontrar seus próprios valores. Como não existia nada de essencial na natureza humana, porque a existência precedia a essência, as pessoas eram livres para definir sua individualidade e escolher um estilo de vida que lhes agradasse. Esses três fundamentos da liberdade dos seres humanos constituíram a base das teorias do “existencialismo”, um movimento filosófico que Sartre apoiou e difundiu.

Sartre acrescentou ainda que as pessoas tinham a liberdade de rejeitar os veredictos dos outros e seus estereótipos. A negação dessa liberdade implicava autoilusão ou má fé. Em geral, as pessoas culpavam a situação em que se encontravam a fatos passados, os pais, o inconsciente, as pressões sociais ou a natureza humana. Essas desculpas revelavam uma atitude covarde perante a vida. Em qualquer momento seria possível admitir ou negar a verdade de uma situação pessoal inexorável. Em um sentido mais estrito, o reconhecimento da condição humana desmistificada dependia da reivindicação de propriedade. Sartre sabia que essa liberdade era assustadora. Em sua frase brutal, todas as pessoas estavam “condenadas” a serem livres.

Fontes:
Economist-Freedom fighter

2 Opiniões

  1. Regina Caldas disse:

    Em seu tratado filosófico L’être et lê néant, publicado em 1943, na plenitude da II Guerra Mundial, o existencialista Jean-Paul Sartre, afirma que: “Se Deus não existe, os seres humanos não são designados para nenhum propósito particular”. Para os existencialistas, a nossa existência precedia a nossa essência. Com a afirmação eles negavam a proposição aristotélica de que conhecemos o homem bom quando conhecemos a essência da natureza humana. “Nós conhecemos uma boa faca quando sabemos que a essência dela é para cortar”, exemplificava Aristóteles. Se ela corta é boa. Para Sartre, por não sermos criados para nenhum fim especifico, somos livres para lidar com nossa própria essência, que define como queremos viver. Assim, somos compelidos por nossa condição, nossa natureza. Na medida em que somos autênticos, não existe padrão moral pelo qual nossa conduta possa ser criticada. E, passando a viver num mundo onde os seres humanos, por tal senso de libertação, adquirem o direito de agir e ser de acordo com seus próprios julgamentos, tudo o mais se torna relativo. È nesta base que se sedimenta a doutrina do relativismo. Uma doutrina que rejeita princípios e valores absolutos. São as circunstâncias, o lugar, a época ou a cultura que definem nossos comportamentos. E, se nossas ações são relativas, quem teria legitimidade para julgá-las quando são conseqüências de nossas decisões subjetivas? Como Kant exemplifica: se alguém salva de afogamento um jovem cujo pai é muito rico, como julgar a ação daquele que o salvou? O que o levou a agir como um herói? O relativismo torna-se má escolha para os julgamentos de nossas ações tanto quanto de nossos semelhantes porque anula a legitimidade para se fazer justiça. Tudo é relativo? Os crimes, a pobreza, a corrupção, qualquer decisão humana justificada pela doutrina do relativismo afasta as responsabilidades sobre as nossas ações. A justificativa é de que agimos de acordo com as circunstâncias. Daí resulta a tolerância da qual deriva a permissividade. Impõe-nos tolerar as diferenças porque tudo é relativo. (Regina Caldas, “Um exemplo para o Mundo” 2005

  2. Elmer C. Corrêa Barbosa disse:

    Homens e mulheres modernos, todos nos devemos a Sartre o conceito que temos hoje de liberdade para viver, gostar e discordar. Em a Nauses, Roquentin constata que a existência é gratuita e ilógica e essa constatação por cada um de nós é algo terrível e fora de aceitabilidade. Decorre dessa falta de essência verdadeira, uma busca de cada ser humano por sua essência artificial e iludida, havendo, para esse fim, uma série de mecanismos que tornam a existência mais suportável.

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